Haitianos enganados na fronteira brasileira

A esperança de uma vida melhor tem levado haitianos em condições legais de trabalho no Equador a cair no golpe de redes criminosas que prometem facilidades na entrada ao Brasil. Com pouca infor mação e confiando em conterrâneos que agem dentro das máfias, imigrantes viram presas fáceis. Pelo menos 46 pessoas já foram vítimas desse grupo e estão presas em Iñapari, cidade peruana que faz divisa com Assis Brasil, no Acre. Sem possibilidade de ingresso no país , imigrantes aguardam que o governo brasileiro flexibilize as regras e ofereça abrigo. A Polícia Federal (PF) iniciou uma investigação.

Depois que a PF averiguar quem participa da rede criminosa e como ela age, o Ministério da Justiça pretende se comunicar com autoridades do Peru e do Equador para construir uma solução conjunta. Em nota, o órgão afirmou que se trata de “ações residuais do grande movimento ocorrido ano passado”. Em janeiro, o Brasil concedeu residência humanitária a cerca de 5 mil haitianos que já estavam no país em função dos problemas relacionados ao terremoto ocorrido na ilha caribenha em 2010, finalizando a permissão de entrada.

Mesmo com as portas fechadas, o fluxo é intenso nas fronteiras. Segundo relatos das vítimas ao padre René Salízar, responsável pela paróquia de Iñapari, onde os haitianos enganados pela máfia estão se acumulando, os criminosos seduzem principalmente os trabalhadores que estão na cidade equatoriana Gaquilha, que faz fronteira com Aguas Verdes, no Peru. Do lado equatoriano, quem atua pela máfia é um haitiano; no Peru, um peruano. Eles cobram de US$ 200 a US$ 250 pelo visto de turista para ingresso no Peru, prometendo que a passagem para o Brasil está livre. Para isso, os imigrantes não precisam comparecer ao escritório de imigração. Eles entregam o passaporte a um integrante da rede, que consegue o selo com data de 12 de janeiro e prazo de validade de seis meses.

Quem não tem dinheiro suficiente, paga de US$ 100 a US$ 150 para atravessar a fronteira clandestinamente do Equador para o Peru. Nos dois casos, eles são orientados por coiotes sobre como chegar a Iñapari. Os aliciadores asseguram aos imigrantes que eles ficarão dois ou três dias na cidade peruana até conseguir cruzar a fronteira. “Só que quando eles chegam, eles percebem que foram enganados. A entrada não está livre, como os mafiosos dizem”, conta o padre. Sem ter o que fazer e sem meios para conseguir emprego em Iñapari, de apenas 2,5 mil habitantes, os refugiados estão desabrigados e passando fome.

O secretário da prefeitura de Assis Brasil, Edmilson Pereira Júnior, confirma a história. “A quantidade de haitianos que desembarca na divisa e tenta cruzar a fronteira é cada dia maior. Eles estão chegando e não sabemos como nos posicionar. Eles não podem entrar e nós não temos o que fazer. Criou-se um impasse”, justifica o secretário.

Proibição

Nilson Mourão, secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, conta que os haitianos são seduzidos pela história de que o Brasil acolhe, mesmo havendo um decreto que proíbe a entrada desde janeiro. “Acreditando nisso, eles pagam aos coiotes, embarcam para Inãpari, até descobrir que não podem entrar. É preciso cortar a ação dos coiotes sob pena de atrapalhar todo o processo de migração estabelecido pelo governo”, afirma Mourão.

Diante das condições precárias dos haitianos, o Brasil tem aberto exceções. No mês passado, permitiu a entrada de 245 imigrantes que estavam na cidade de Iñapari e regularizou a situação de 363 que permaneciam sem visto em Tabatinga (AM). Há um grupo de 50 em Brasileia (AC), retido em um abrigo público por ter entrado fora dos prazos permitidos, que também será regularizado.

Entrada barrada

A Data em que o governo brasileiro passou a impedir a entrada de haitianos no país também corresponde ao prazo de dois dias após o Peru anunciar que pararia de emitir qualquer tipo de visto para haitianos. O decreto foi motivado pelo êxodo constante de refugiados que usavam a permissão para cruzar o país e chegar ao Brasil. Entre as mudanças apresentadas pelo governo brasileiro, os haitianos ficaram proibidos de chegar como refugiados políticos, já que no entendimento do Conselho Nacional para Refugiados, o caso é caracterizado como vulnerabilidade econômica. Os que entrassem em situação irregular seriam notificados e extraditados.

Por: Grasielle Castro e Renata Mariz
Fonte: Correio Braziliense 

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