Indígenas do Rio Negro apostam em comunicação popular

Encontro da Rede Wayuri de Comunicação Indígena recebeu 55 comunicadores de 15 etnias para discutir novos formatos em podcast e vídeo

Rede Wayuri de Comunicação Indígena, sediada em São Gabriel da Cachoeira (AM), completa cinco anos de trabalho em 2022. Para marcar essa trajetória, que conta com mais de 100 podcasts produzidos pelos comunicadores indígenas, a Rede realizou sua quarta oficina de formação em comunicação com objetivo de produzir um podcast narrativo sobre a pandemia de Covid-19 na Amazônia, além de refletir sobre novos formatos e linguagens para narrar histórias com uso de tecnologias.

O interesse pela oficina na região foi muito grande, sobretudo entre a juventude indígena. Com isso, o evento, realizado entre os dias 10 e 21 de janeiro passados, no Telecentro Comunitário do Instituto Socioambiental (ISA), recebeu 75 participantes, sendo 55 comunicadores de 15 etnias do rio Negro (entre os quais 25 mulheres comunicadoras indígenas), lideranças tradicionais e do movimento indígena, mestres conhecedores, antropólogos, documentaristas e jornalistas.

“A comunicação é uma prioridade para nós indígenas do Rio Negro. Queremos expandir mais esse trabalho fundamental para garantir direitos e a permanência em nossos territórios, cada vez mais ameaçados, tanto pelos invasores ilegais, quanto pelos interesses econômicos e predatórios do próprio governo e das empresas”, disse o presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, de 30 anos.

Comunicadores indígenas e convidados da IV Oficina de Formação em Comunicação da Rede Wayuri|Diana Gandara/ISA

Podcast narrativo

Wayuri, que significa “trabalho coletivo” em nheengatu, uma das quatro línguas indígenas co-oficiais em São Gabriel da Cachoeira, se materializou na quarta oficina.

Com a condução das comunicadoras especializadas em podcasts, Letícia Leite, do Papo de Parente, Paula Scarpin, da Rádio Novelo – principal referência em podcasts no Brasil – e Cláudia Ferraz Wanano, da Rede Wayuri, os comunicadores produziram a edição 103 do podcast Wayuri, em formato narrativo, durante oito dias de oficina.

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“A gente tem um país em que os Brasis se desconhecem e eu acredito mesmo que as histórias em áudio podem ajudar a conectar esses Brasis”, ressaltou Letícia Leite, jornalista da produtora Vem de Áudio e que há mais de 10 anos atua em parceria com os povos indígenas no Brasil.

Paula Scarpin que trouxe para a Rede Wayuri seu aprendizado de três anos à frente da Rádio Novelo e os sucessos dos podcasts “Praia dos Ossos” e “Retrato Narrado”, ressaltou a importância da troca de saberes.

“Eu estou aprendendo muito com vocês. Vocês são mestres na oralidade, mestres em contar histórias. Então, vamos pensar juntos em como fazer esse podcast narrativo do áudio Wayuri. Está sendo muito especial para mim”, comentou em entrevista à comunicadora Dani Yepá, da Rede Wayuri.

Larissa Duarte, do povo Tukano, conversa com Paula Scarpin, da rádio Novelo|Diana Gandara/ISA

O trabalho foi realizado pelos comunicadores em cinco grupos, formados de acordo com a divisão geográfica e cultural da bacia do Rio Negro feita pelos povos da região.

O podcast abordou os seguintes temas: fake news sobre a pandemia, sobretudo sobre a vacinação, a valorização dos conhecimentos da medicina indígena, o aumento da violência contra a mulher indígena na região, as ameaças aos territórios, como o garimpo ilegal, e as mudanças climáticas e suas relações com a pandemia de Covid-19.

Coordenada pela jornalista do ISA em São Gabriel, Juliana Radler, a oficina recebeu o apoio e parceria do Instituto de Democracia e Mídia da Alemanha (IDEM) e da Cooperação Alemã, representado pela jornalista Tainã Mansani, que mora em Berlim e colabora também com a agência de notícias Deutsche Welle (DW).

Tainã fez uma exposição sobre a produção de fake news e como as notícias falsas podem impactar a política, as democracias e a própria saúde e bem estar das sociedades e comunidades.

Ubawa Supi ou Tiwa Supi são “notícias falsas” na língua nheengatu, mostrou grupo da etnia Baré na oficina|Juliana Radler/ISA

Novatos Wayuri

Entre os mais de 20 novos comunicadores que chegaram para integrar a Rede Wayuri, estava José Ney Fernandes, do povo Yuhupdeh, da comunidade de São Domingos Sávio, no rio Tiquié, Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro.

“É importante falar da nossa região, falar na nossa língua. Falar sobre a nossa realidade indígena para as pessoas de fora também conhecerem mais e se interessarem pela nossa cultura. Eu gosto do Facebook. A gente gosta de ver o que está acontecendo e o que vai acontecer nas outras comunidades. Gostamos de postar coisas sobre a nossa escola”, afirmou Ney.

O comunicador alertou que em sua comunidade chega fake news, principalmente em ano de eleições. “Nos tempos de política, chega gente lá que mente e engana muito a gente. Essas fake news chegam bastante e agora chegam pelo celular também”, alertou.

“Essas coisas de tecnologia nós estamos cada vez mais aprendendo e estudando. Nós também podemos utilizar essas coisas que vêm dos brancos, como câmera e internet, essas coisas que voam pelo mundo todo e dá pra trazer notícia e mandar notícia para longe”, concluiu durante entrevista com equipe Wayuri.

Trabalho de campo e edição

A continuidade da IV Oficina de Formação em Comunicação contou também com um dia prático para a gravação de áudios para um podcast narrativo da Rede Wayuri sobre a comunidade Waruá, do povo Dâw, que mora próximo à zona urbana de São Gabriel da Cachoeira e conta uma história de resistência frente às violências sofridas no processo de contato com a sociedade não indígena.

Com uma pequena população de cerca de 200 pessoas e falantes da língua Dâw, a comunidade teve uma representante na oficina, que agora passa a integrar a Rede Wayuri, a comunicadora Marisa Fernandes, do povo Dâw. O objetivo é produzir junto com Marisa e demais lideranças do povo Dâw, ainda em 2022, um podcast narrativo sobre a história da comunidade do Waruá.

Moisés Baniwa e Claúdia Wanano, da Rede Wayuri, com a comunicadora do povo Dâw, Marisa Fernandes|Juliana Radler/ISA

Na sequência, entre os dias 14 e 18 de fevereiro, seis comunicadores da rede também participaram de uma oficina de edição de vídeo utilizando o software Adobe Premiere e outro conjunto de programas para edição de imagem e som.

Cada um dos comunicadores produziu sozinho um pequeno vídeo editado sobre tema e formato de sua escolha, incluindo vídeos de divulgação para redes sociais, pequenos documentários e divulgações institucionais do movimento indígena.

O grupo também montou coletivamente um vídeo sobre a IV Oficina de Formação de Comunicação da Rede Wayuri voltado para as comunidades indígenas.

A oficina realizada no ISA em São Gabriel, teve também o apoio do projeto ForEco, da Fundação Rainforest, da Noruega, e a mentoria da documentarista Diana Gandara, que vem colaborando com os comunicadores da Rede Wayuri em trabalhos de audiovisual e processos formativos.

Adelson Ribeiro, do povo Tukano, com a montadora Diana Gandara, em oficina de edição de vídeo|Juliana Radler/ISA

Documentário em produção

Em janeiro e fevereiro de 2022, os comunicadores da Rede Wayuri estiveram também envolvidos nas gravações do documentário de curta-metragem que vai contar um pouco da história do coletivo e do trabalho pioneiro que o grupo vem desenvolvendo na cidade mais indígena do Brasil.

Além da produção de podcasts, a Rede Wayuri produz toda semana, na rádio FM O Dia de São Gabriel da Cachoeira, o programa ao vivo Papo da Maloca, com notícias produzidas em Português e nas línguas indígenas, sobre assuntos de interesse dos 23 povos indígenas do Rio Negro.

Claudia Ferraz Wanano, Dani Yepá, Plinio Baniwa, Laura Almeida Tariana, Janete Alves Desana, Elizângela da Silva Baré e outros comunicadores da Rede Wayuri deram entrevistas para a equipe do documentário formada pelo cineasta indígena Moisés Baniwa, pela jornalista Juliana Radler e pela documentarista Diana Gandara.

A expectativa é que o documentário seja lançado em São Gabriel da Cachoeira e em Manaus em 2022, nas comemorações dos cinco anos da Rede Wayuri.

Desde 2017, os trabalhos da Rede Wayuri foram destacados por organizações ligadas aos direitos da comunicação, como Repórteres Sem Fronteiras, que selecionou o grupo como um dos 30 heróis globais da informação mundial devido a sua atuação na pandemia de Covid-19.

Também pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que indicou o coletivo como “case” em seu curso de jornalismo local junto com a plataforma Facebook.

Finalmente, pelo programa Profissão Repórter, da TV Globo, que selecionou reportagem da Wayuri sobre lixão de São Gabriel da Cachoeira para integrar o projeto GloboLab de formação de jornalistas investigativos.

Rede Wayuri recebeu 55 comunicadores indígenas de 15 etnias do Rio Negro em oficina|Diana Gandara/ISA

Site da Rede Wayuri

Para compartilhar a experiência da Rede Wayuri, os comunicadores também acabam de colocar na internet pela primeira vez o site da Rede. A página ainda está sendo construída colaborativamente e conta com a assessoria da artista visual Raquel Uendi. Mais informações sobre a oficina podem ser acessadas também pelo site.

Por: Equipe ISA – Programa Rio Negro