Indígenas Tembé que tiveram líder assassinado convivem com “chuva de veneno” no Pará

Além da plantação, despejo de agrotóxico afetou agricultores do MST; uma mulher grávida passou mal com a contaminação

Plantação de mandioca murcha depois do despejo de agrotóxicos em Santa Luzia do Pará (PA) – MST Pará

A “chuva de veneno” é um artifício usado por empresários do ramo do agronegócio para pulverizar grandes plantações. No entanto, o mecanismo também é uma forma de prejudicar agricultores e indígenas que vivem da terra.

Em 25 de janeiro, um despejo aéreo ilegal de agrotóxicos banhou uma terra indígena Tembé e um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), localizados no município de Santa Luzia do Pará, na região nordeste do Pará. A cidade se situa próximo ao município de Capitão Poço, onde a liderança indígena Isac Tembé, de 24 anos, foi alvejada com vários tiros no peito na última sexta-feira (12)

Danos ambientais e à saúde

Considerada crime ambiental, a “chuva de veneno” resultou não só em prejuízo para as plantações, mas também dificuldade de respiração, alergias e coceiras entre os agricultores. Segundo uma integrante do MST, uma mulher grávida chegou a passar mal em decorrência do veneno.

Nailce Verônica é professora de geografia e mora no Acampamento Quintino Lira, vítima do despejo ilegal de veneno. Ela faz parte da coordenação estadual do MST e conta que, desde 2017, as comunidades do município de Santa Luzia do Pará vêm sofrendo uma série de ataques.

“Para os fazendeiros e latifundiários, fica melhor despejar veneno em cima das comunidades do que pagar as pessoas para fazerem o roço, a juquira [cortar o mato manualmente e retirar ervas daninhas da plantação]. Em 2018, foi na comunidade do Piracema, aqui próximo da gente e próximo das aldeias [Tembé]. E, quando foi semana passada, desde segunda-feira, começou a pulverização aérea em cima do nosso acampamento. A Fazenda Bom Jesus, que fica no município de Viseu, a qual o dono é uma equipe de empresários – que a gente não sabe o nome. Eles começaram a pulverizar veneno aéreo, e esse veneno atingiu diretamente as nossas plantações, causando não só dano ambiental, mas também o dano à saúde das pessoas”, conta.

Verônica lista alguns dos sintomas que atingiram os moradores da comunidade e mataram 59 lotes de roçado.

“Muitos sentiram coceira e ardência nos olhos, coceira pelo corpo, falta de ar. O fedor do veneno era muito forte. Segundo algumas pessoas que conhecem, o veneno que foi pulverizado é o Tordon, que mata tudo”, detalha.

Crime ambiental

O artigo 10 da Instrução Normativa n° 02, de 03 de janeiro de 2008, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, proíbe a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas situadas a uma distância mínima de 500 metros de povoações. O uso indiscriminado de agrotóxicos causa dores de cabeça e de garganta, diarreia e febre nas pessoas. 

Laudo confirma a contaminação

A pedido da comunidade, um relatório elaborado pela secretaria municipal de meio ambiente de Santa Luzia do Pará confirmou o despejo ilegal de agrotóxicos no acampamento Quintino Lira e em uma terra indígena do povo Tembé.

“Visitamos uma das áreas e constatamos visualmente a influência do produto derivado pelo vento em plantas de mandioca, que apresentavam murcha das folhas, assim como os sintomas já demonstrados nas demais plantas das comunidades já citadas”, informou Verônica.

Disputa territorial 

A área atingida pelo veneno é ocupada desde 2007 por agricultores do MST. O local é hoje chamado de Acampamento Quintino Lira, área antes conhecida como Fazenda Cambará.

Desde 2018, as famílias do entorno da Fazenda Bom Jesus vêm sofrendo com a pulverização aérea de agrotóxicos. No entanto, o acampamento nunca havia sido diretamente afetado até 25 de janeiro de 2021, quando houve pulverização direta, como “chuva”.

Denúncia encaminhada

A advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Jesus Gonçalves, explica que a entidade quer providências da Secretaria de Segurança Pública, assim como um levantamento das licenças ambientais.

“A gente já encaminhou denúncia para a Segup e para os órgãos municipais e a situação continua a mesma. O que temos pedido ao governo do Pará é que investigue e verifique se há licenças ambientais e se houve a concessão, em que situações elas foram feitas, porque a área de deriva da pulverização está atingindo diretamente as comunidades, não somente o acampamento Quintino Lira, como comunidades indígenas do entorno”, afirma Gonçalves.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) disse que “recebeu o pedido e encaminhou à Polícia Civil para apuração. No entanto, há a possibilidade de parte dos fatos narrados ser de responsabilidade da Polícia Federal, por se tratar da terra indígena”.

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato

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