Indígenas Yanomami do Marauiá fazem protesto por melhorias na saúde

No ato inédito, os indígenas denunciam falta de medicamentos, inclusive para vermes, e relatam mortes de crianças nos últimos três meses

Indígenas Yanomami do Marauiá fazem protesto por melhorias na saúde
Foto: Associação Yanomami Kurikama)

As lideranças yanomami da região do Marauiá, afluente do alto rio Negro, desceram dos xaponos (casas) da Terra Indígena Yanomami (TIY) à cidade de Santa Isabel do Rio Negro, no norte do Amazonas, onde mantém desde sexta-feira (1) um protesto em que pedem médicos, enfermeiros, técnicos e agentes nos postos de saúde ao coordenador do Distrito Sanitário Yanomami (Dsei-Y), ex-vereador Ramsés Almeida Silva, do Republicanos, partido da base governista de Jair Bolsonaro (PL).

A viagem até Santa Isabel pode durar de um até três dias pelo Alto Rio Negro, conforme a embarcação, a seca ou enchente do manancial. Nos postos e no polo-base de saúde, de acordo com as lideranças, faltam medicamentos para vermes e as crianças estão com alto grau de desnutrição, denuncia a Associação Yanomami Kurikama. 

É a primeira vez que os yanomami de Marauiá fazem um protesto na cidade. Pintados de jenipapo em sinal de “guerra”, cerca de 100 yanomami caminharam pelas ruas de Santa Isabel entoando cânticos e levando nas mãos flechas e bordunas tradicionais da cultura. 

Uma das lideranças, Zé Gadilha Yanomami, microscopista e agente de saúde indígena, enviou vídeo e áudio pelo Whatsapp à reportagem da Amazônia Real relatando que o coordenador do Dsei baixou uma ordem dizendo que os enfermeiros não podem mais dar assistência aos indígenas que chegam na cidade por conta própria.

“A última vez que vimos um médico em Marauiá faz três meses. Neste tempo morreram duas crianças”, disse Zé Gadilha, destacando que as reivindicações foram enviadas em 20 de outubro de 2021 ao ex-coordenador da Sesai, o coronel do Exército Robson Santos da Silva, e ao Ministério Público Federal.

“Queremos uma coordenação organizada, chega da gente morrer em área (nos postos de saúde). A desnutrição está muito alta! Queremos o acompanhamento de nutricionista. A Sesai recebe muito dinheiro, cadê o investimento?”, protesta Zé Gadilha Yanomami, que integra a Associação Yanomami Kurikama. 

Na gestão de Bolsonaro, os cargos de primeiro e segundo escalões na saúde indígena foram destacados a militares ou indicações políticas. O Dsei-Y é coordenado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, que está sob a chefia do coronel Reginaldo Ramos Machado, que assumiu o cargo no lugar do coronel Robson Silva, no dia 31 de março.  

Machado, que foi diretor de Gestão Interfederativa e Participativa no Ministério da Saúde, nunca trabalhou com a saúde indígena. Ele atuou no Ibama e no Incra, além de ter trabalho na mineradora Vale S.A., em Canaã dos Carajás, no Pará.

O coordenador do Dsei-Y, Ramsés Almeida Silva, é ex-vereador do município roraimense de Mucajaí, com mandato de 2017 a 2020, e trabalhou na Companhia de Água e Esgoto de Roraima (Caer). Ramsés, que é do grupo político do senador Mecias de Jesus (Republicanos), assumiu o cargo em janeiro deste ano.

A reportagem não localizou Ramsés Silva para falar sobre o protesto dos yanomami, mas apurou que ele estará se deslocando de Boa Vista (RR) para uma reunião com as lideranças nesta segunda-feira (4), em Santa Isabel do Rio Negro.  

O site da Sesai está fora do ar, segundo um comunicado, por causa do período eleitoral. A Amazônia Real enviou uma mensagem para o e-mail divulgado, mas não obteve respostas.

A Terra Indígena Yanomami (TIY) tem 9,4 milhões de hectares e sua área geográfica está dividida entre os estados do Amazonas e Roraima. No território vivem 33 mil indígenas em 640 aldeias, incluídos os povos em isolamento voluntário, conforme estudo da Fiocruz sobre o impacto da Covid-19 na etnia. Além do coronavírus, malária e destruição, os indígenas enfrentam a vulnerabilidade social por causa da invasão de 26 mil garimpeiros de ouro e estanho (cassiterita).

Em relatório divulgado em janeiro deste ano, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) informou que 29 yanomami morreram por Covid-19 em Roraima e sete no Amazonas durante a pandemia, que não acabou.

Mobilização dos yanomami do rio Marauiá no município de Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas (Foto Associação Kurikama)

A cidade amazonense de Santa Isabel do Rio Negro, que fica a 630 quilômetros de distância em linha reta de Manaus, está situada na região do Alto Rio Negro, na fronteira com a Venezuela. O município abriga uma parte do território yanomami: 1.540 milhão de hectares. 

Na região de Marauiá vivem 2.354 yanomami, conforme dados da Sesai de 2018. Já os indígenas afirmam que a população atual é de 2.800 pessoas. 

Em Marauiá os yanomami moram em 21 xaponos – as casas plurifamiliares construídas em formas de cone. Em cada xapono tem um posto de saúde construído em palha ou em madeira. O polo-base de saúde da região fica na xapono Komixiwë. Segundo as lideranças, “nunca a Sesai dá conta para a equipe trabalhar nesta área”. 

No documento da 5a. Assembléia Ordinária da Associação Yanomami Kurikama, os indígenas já haviam denunciado, em 20 de outubro de 2021, a gravidade da situação da saúde da população por problemas na gestão do Dsei-Y. 

“A Sesai tem que cuidar da saúde, mas a realidade é muito ruim, é pior, é por isso que estamos mobilizados para pedir melhoria da saúde”, disse Zé Gadilha Yanomami, que vive no xapono Bicho Açu. 

Em outro documento, do dia 29 de junho de 2022, enviado à Sesai, portanto nove meses após o primeiro comunicado, a Associação Kurikama solicita a reorganização dos subdistritos de saúde em Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, ambas no Amazonas. “Até o momento não tivemos retorno, queremos o fortalecimento e a melhoria da equipe técnica, médica, odontológica, nutricional e de enfermagem e agilidade nas contratações”, diz o documento da Kurikama. 

Para fazer o protesto, Zé Gadilha afirmou que as lideranças desceram da área com muita dificuldade, com motor rabeta durante três dias, para chegar até Santa Isabel do Rio. “Quando chegamos aqui, o coordenador do Dsei mandou dizer que não iria atender ninguém. Isso é muito grave!” 

Por: Kátia Brasil
Fonte: Amazônia Real