Indústria madeireira concentra exploração em apenas 2% das espécies disponíveis na Amazônia

Estudo realizado pelo Imazon mapeia pela primeira vez as espécies exploradas no bioma. Apenas 10% do total comercializado é auditado para garantir legalidade

Extração madeireira na Amazônia – Foto: Tayane Carvalho/Idesam

O Brasil comercializou 998 tipos diferentes de madeira provenientes da Amazônia entre 2007 a 2020, mas, apesar desta abundância, a indústria madeireira no país está concentrada na exploração ao esgotamento de apenas 15 a 20 espécies (2%). Isso é o que mostra a mais recente edição do Boletim Timberflow, estudo sobre a cadeia da madeira no Brasil,divulgado na última semana. O boletim, que pela primeira vez lista as espécies mais exploradas no bioma, é realizado pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

No período analisado, cerca de 154 milhões de metros cúbicos de madeira saíram da Amazônia para abastecer o mercado. Segundo o trabalho do Imaflora, 52% deste total (cerca de 80 milhões de metros cúbicos) era desta lista restrita de 20 espécies, sendo que algumas delas são consideradas vulneráveis (veja tabela abaixo). 

O boletim foi feito a partir da análise do Documento de Origem Florestal (DOF) e do Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor) nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.

Segundo o Imazon, este perfil de consumo – busca indiscriminada por determinadas espécies arbóreas até quase serem extintas – tem se repetido historicamente e representa uma fragilidade estratégica da indústria madeireira na Amazônia.

“O próprio Pau-Brasil, árvore que dá nome ao país, passou por isso. Infelizmente, ainda hoje a gente observa que isso é uma realidade no setor florestal, sobretudo na Amazônia. Se bem utilizada, a ampla diversidade ofereceria uma alternativa para que não venhamos a exaurir outras madeiras valiosas”, afirma Maryane Andrade, consultora da iniciativa de legalidade florestal do Imaflora.

Novas fronteiras

Mais do que uma “fragilidade estratégica” da indústria, esse perfil de consumo tem criado cada vez mais pressão sobre áreas antes intocadas da floresta amazônica. 

O estudo mostrou que atualmente há uma tendência crescente de maior diversificação das espécies exploradas no chamado “antigo arco do desmatamento”, que vai do noroeste do Maranhão e Tocantins, centro-norte do Mato Grosso, até o sul de Rondônia.

Segundo o Imaflora, essa diversificação de espécies não se deu por mudança estratégica, mas porque as mais utilizadas pela indústria madeireira já se esgotaram nesses locais. Nos estados do Mato Grosso, Rondônia e Pará, maiores fornecedores de madeira no país, por exemplo, o número de espécies exploradas atualmente é duas vezes maior do que nas novas fronteiras (na fronteira entre Mato Grosso, Rondônia e Amazonas).

“Nossa hipótese é que a exaustão acaba gerando uma diversificação das espécies nessas áreas, mas a gente não gostaria que isso acontecesse depois da exaustão. Gostaríamos que o fenômeno fosse observado antes e que fosse uma realidade do setor florestal”, explicou a consultora do Imaflora a ((o))eco.

O Mato Grosso, por exemplo, explorava 417 espécies em 2007 e passou a explorar 510 em 2015. Já o Amazonas reduziu de 328 espécies exploradas em 2007 para 240 em 2020.

Escolha da madeira 

De acordo com o Imaflora, a exploração de um número reduzido de espécies madeireiras se dá não somente pela oferta limitada do mercado, mas também por desconhecimento do consumidor sobre alternativas possíveis.

Dentre as espécies mais buscadas, se destacam a Maçaranduba – que lidera o ranking e corresponde sozinha a quase 8% de toda a produção – o Jatobá, o Ipê Roxo, o Cumaru e o Jequitibá. 

Segundo Maryane Andrade, o Ipê, por exemplo, que é muito valorizado pela indústria, mas sensível ecologicamente, tem características físicas e visuais muito similares à Jataipeva (Dialium guianense), muito mais abundante.

Exploração de madeira em Rondônia. Crédito: Vicente Sampaio/Imaflora.

“Não é só questão do mercado, porque se eu chegar hoje para meu arquiteto e dizer ‘eu gostaria de comprar a Dialium’, ela estaria disponível? Então é toda uma cadeia que precisa ressignificar a importância da valorização da biodiversidade. É um trabalho com muitas mãos”, diz.

Apagão de dados

Para realizar o levantamento das espécies madeireiras provenientes do solo amazônico, o Imaflora se debruçou sobre milhares de dados dos bancos oficiais. Segundo a organização, a legalidade desta madeira não foi analisada neste momento – será tema de um próximo estudo. Mas já dá para saber que apenas 10% de todo volume hoje disponível no mercado passou por auditoria independente e tem origem responsável.

Outro problema no qual a equipe do Imaflora se deparou foi a falta de transparência. Em fevereiro de 2021, o sistema de pesquisa de DOF teve um apagão e ficou todo ano inacessível. Esse é o motivo, inclusive, de a pesquisa ir somente até 2020.

“A gente olha os dados de 2007 até agora. Tudo bem se em 2007 tinha problemas [de transparência], porque percebemos que há uma evolução. Mas quando a gente se depara com um apagão de dados em 2021, isso nos assusta, porque mostra que regredimos”, diz Maryane.

Recomendações

O trabalho do Imaflora traz várias recomendações para a maior diversificação das espécies disponíveis no mercado. A primeira é uma melhor identificação em campo, a partir de investimentos nas agências de pesquisa situadas na Amazônia e treinamento contínuo das pessoas que de fato vão para o campo, como mateiros.

A organização também sugere uma melhoria nas tecnologias dos bancos de dados. “Temos um grande problema de inclusão errada de nome de espécies, caracteres diferentes, ausência ou não de espaços. Os sistemas não enxergam isso diferente e acaba tendo um super inflacionamento no número de espécies cadastradas”, explica a consultora do Imaflora. 

A sugestão é que o sistema de geração de DOF, por exemplo, já dê opções das espécies cuja grafia é similar e impeça a inclusão de nomes errados.

Também aparecem como sugestões o aumento na transparência dos dados, geração de informações sobre a ocorrência de espécies pouco exploradas e melhoria nos sistemas de concessão florestal.

“O setor precisa olhar para seus desafios e trabalha-los de forma conjunta. Senão, a gente vai continuar no mesmo estágio em que estávamos em 1500”, finaliza Maryane Andrade.

Por: Cristiane Prizibisczki
Fonte: O Eco