Interior e outros estados sofrem com colapso da saúde em Manaus

Atendimento para a Covid-19 na região Norte sofre com dispersão dos problemas da rede hospitalar do Amazonas.

Caos na Pandemia: Interior e outros estados sofrem com colapso da saúde em Manaus
Na foto acima, chegada de pacientes provenientes de Manaus no Aeroporto de Belém para tratamento no Hospital de Campanha (Foto: Bruno Cecim/Agência Pará/22/01/2021)

A fila de pacientes no interior do Amazonas à espera de uma transferência por UTI aérea para Manaus ou outros centros do país só cresce. Ao menos 34 doentes de Covid-19 estavam nessa situação até a última quinta-feira (21). Diante da inação do governo amazonense, a Defensoria Pública do Estado (DPE) teve de mover uma ação para conseguir remover dois pacientes de Tabatinga no último domingo (24). Os hospitais e postos de saúde do interior, que não contam com leitos de UTIs, sofrem pressão por atendimento e até pela falta de oxigênio. A gravidade é tamanha que outros estados do Norte começam a sofrer efeitos do colapso no Amazonas.

A taxa de ocupação das UTIs Covid no Amazonas, de acordo com o boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), é de 95%, até segunda-feira (25).  De 254.460 casos confirmados de Covid-10 no Amazonas até esta terça-feira (26), 112.353 são de Manaus (44,15%) e 142.107 do interior do Estado (55,85%). O Amazonas registra 5.043 óbitos confirmados em decorrência do novo coronavírus.

A situação em Tabatinga, município localizado no Alto Rio Solimões, na tríplice fronteira com Colômbia e Peru, só não é mais grave, porque os pacientes em situação mais delicada são atendidos no hospital do 8º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, que conta com uma usina de oxigênio, mas já opera no limite pela falta de profissionais. Além disso, autoridades da vizinha cidade colombiana de Letícia forneceram cilindros de oxigênio.

“O problema [da falta] do oxigênio ainda não temos por aqui, embora a Colômbia tenha nos informado que não sabe por quanto tempo poderá prosseguir com a doação, pois os casos de Covid também estão crescendo em Letícia. Mas estamos aliviados, porque ainda não perdemos pacientes por falta de oxigênio”, diz a defensora pública de Tabatinga, Jéssica Matos, em entrevista à Amazônia Real.

De acordo com ela, o principal problema enfrentado pelo município é a demora na transferência dos pacientes em situação mais grave, que ocorre pelo Sistema de Transferência de Emergência Regulada (Sister), da Secretaria de Saúde. “Os pacientes entram pelo Hospital Estadual, e quando agrava é transferido para o Exército, mas não tem UTI. Então estamos com seis pessoas na lista [de espera para transferência].” O hospital militar oferece tratamento até o modo semi-intensivo.

Mesmo com as ações movidas na Justiça, quase sempre com resultados favoráveis, o DPE ouve como resposta do governo Wilson Lima (PSC) que faltam vagas nas UTIs em Manaus para cumprir a decisão. Em Tabatinga, a prefeitura teve de ceder 16 profissionais de seus quadros para reforçar o atendimento no hospital militar, que recebe ainda pacientes de municípios vizinhos como Atalaia do Norte, São Paulo de Olivença, Benjamin Constant e Santo Antônio do Içá.

Desde o dia 15 deste mês, o governo do Amazonas transferiu 302 pacientes de Covid-19 para cidades de 11 estados, mais o Distrito Federal. Destes, 280 são de Manaus e 22 dos municípios de Parintins (19) e de Tabatinga. Deste último, 3 foram encaminhados para o Acre. Nesta terça-feira, outros 16 pacientes com Covid-19 para a cidade de Maceió, em Alagoas.

Em Tefé, faltam oxigênio e leitos hospitalares

Entregas de materiais e insumos feita pelo Greenpeace no Médio Solimões (Foto: Greenpeace)

O município de Tefé, no Médio Solimões, sofre com a ameaça da escassez de oxigênio. “O município está passando por uma fase de risco muito sério não apenas pela falta de oxigênio, mas também pelo colapso no número de leitos do Hospital Regional de Tefé”, diz a também defensora pública Márcia Mileni Fontelles, à Amazônia Real.

Com capacidade para 24 pacientes, a Ala Covid do hospital tem 34 pessoas internadas, operando acima da capacidade. Cinco pessoas estão entubadas, respirando com ajuda de aparelho. Tefé conta com apenas dez respiradores, cinco estão ocupados, dois com defeito e outros dois são apenas para uso emergencial, de curta duração, como para transferência de pacientes.

“Veja a que absurdo chegamos no interior do Amazonas. A gente sabe que existe um aumento muito grande no número de casos, que há dificuldades de abastecimento,  que a logística é muito complicada, mas nada disso pode ser usado como justificativa para as mortes que tivemos em Tefé ou Manacapuru”, protesta a defensora. Segundo ela, há pelo menos 12 dias Tefé está com dificuldades de manter o estoque seguro de oxigênio.

De acordo com Márcia Mileni, não há como garantir 100% de confiabilidade no abastecimento de oxigênio no interior por falta de planejamento dos governos federal e estadual. “Em qualquer momento este fluxo pode dar errado. Não é possível falar em segurança de estoque de oxigênio no interior do Amazonas”, ressalta ela.

Tanto para Tefé quanto para Tabatinga há promessas para a instalação de usinas de oxigênio, o que tornaria estes municípios-polos menos dependentes de Manaus. Além das usinas, as defensoras também defendem que leitos de UTI sejam instalados no interior, tirando a concentração da capital.

À reportagem, a Secretaria de Saúde do Amazonas enviou uma nota, informando que a pasta trabalha para aumentar a disponibilidade do insumo de oxigênio nos municípios. “O governo  do Amazonas está adquirindo 20 mini-usinas que serão destinadas ao interior, dando início ao processo de autossuficiência nas localidades.

”A assessoria informou que 12 usinas doadas pelo Ministério da Saúde e pelo Hospital Sírio Libânes estão sendo instaladas em Manaus e no interior. A secretaria não falou nada sobre a difícil transferência de pacientes para a capital.

Norte está à beira do colapso

Transferência de pacientes de Porto Velho para Curitiba
(Foto: Ésio Mendes/Secom RO/25/01/2021)

colapso no sistema público de saúde resultante da pandemia da Covid-19 que, até a primeira quinzena de janeiro, estava restrito às capitais do Norte, já se alastra pelas cidades do interior. A grande maioria das cidades amazônicas conta com atendimento médico apenas de baixa e média complexidade e que compõem a rede SUS. Os casos mais graves precisam ser transferidos para as cidades vizinhas maiores ou as capitais. Com o surto da Covid-19, os hospitais regionais sofrem com a superlotação e a falta de estrutura adequada.

Depois de Manaus registrar a morte de pacientes por falta de oxigênio, os municípios do interior e de estados vizinhos passaram a conviver com o mesmo drama. O oxigênio que acabou nos hospitais da capital amazonense também rareou em grande parte dos 61 municípios. Com as UTIs quase 100% ocupadas e uma fila de mais de 100 pessoas à espera de um leito intensivo, os pacientes mais graves do interior não conseguem transferência para Manaus.

Estados vizinhos como Acre, Pará e Rondônia passaram a receber pacientes do Amazonas. No Pará, os hospitais dos municípios próximos à divisa com Amazonas estão lotados e com casos de pessoas também morrendo por falta de oxigênio.

Rondônia já enfrenta o colapso no sistema hospitalar. Conforme dados da Secretaria de Saúde (Sesau), a taxa de ocupação dos leitos UTI Covid em Porto Velho, nesta terça-feira (26), está em 97,7%, e de 70,4% nas enfermarias. No interior há uma maior ocupação dos leitos clínicos de 79,8% e nos de tratamento intensivo de 89,9%. O estado conta com 192 leitos de UTI Covid e 190 leitos clínicos. Rondônia tem uma população estimada de 1,7 milhão de habitantes espalhada por 52 municípios. 

Com as unidades hospitalares operando no limite, Rondônia também passou a “exportar” pacientes.  Na noite de segunda-feira, 13 pessoas foram enviadas para hospitais de Curitiba: o Hospital Vitória e o Instituto de Medicina do Paraná. De acordo com a assessoria da Sesau, nesta terça pode ocorrer a transferência de mais de 15 doentes para Porto Alegre.

A assessoria da Sesau informou que o governo tem encontrado resistência nas remoções por conta da resistência dos pacientes. Nesta terça-feira, o Ministério Público Estadual informou que investiga a denúncia de que o governo do coronel Marcos Rocha (PSL) manipulou dados dos boletins epidemiológicos da Covid-19 para não adotar medidas mais restritivas de circulação social, vistas como impopulares. Segundo a investigação, no começo do mês, o governo passou a colocar na conta leitos de UTI que existem, mas que estão sem funcionar por conta da falta de médicos intensivistas.

Se esses leitos não tivessem sido contabilizados nos dados oficiais, Porto Velho regressaria da fase 3 direto para a 1, muito mais restritiva. Sem essas medidas mais duras de isolamento social, as aglomerações se mantiveram durante o mês de janeiro. Rondônia acumula, até hoje, 2,149 mortes por Covid, com 119.336 casos positivos da doença.             

Problema no Amazonas compromete o Acre

Vacinação dos indígenas no Acre (foto (DSEI ARP)

O Acre é o estado amazônico que aparenta ter a situação mais “confortável”.  A taxa de ocupação dos leitos UTI para Covid no estado é de 73,3% e de 61,7% dos leitos clínicos. Ao todo, há 75 leitos de UTI Covid entre a capital Rio Branco e Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade, localizada no Vale do Juruá. O Acre disponibilizou 10 leitos para o Amazonas.

Mas, em entrevista, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), reclamou que o Amazonas estaria enviando pacientes sem aviso prévio. “Inicialmente, ativamos 10 leitos para tratamento de Covid-19, se preocupando em não comprometer a nossa estrutura para atender os acreanos, mas de uns dias para cá começou a chegar pacientes de todos os lugares do Amazonas de avião sem ao menos a Sesacre ser notificada”, disse Cameli ao site ac24horas.

Dois municípios amazonenses têm ligação rodoviária com o Acre; Guajará, distante pouco mais 20 km de Cruzeiro do Sul, e Boca do Acre, a 220 km de Rio Branco. Como a localização delas é muito mais próxima com o estado do Acre do que com Manaus – onde é possível chegar só via aérea ou fluvial em viagem que dura dias – os moradores acabam dependendo dos serviços do outro lado da divisa.

Essa relação não é de hoje. Os casos mais graves de saúde nesses municípios amazonenses – que ainda inclui Envira e Ipixuna – são enviados para hospitais do Acre. Com a pandemia da Covid-19, essa dependência aumentou. Até pacientes de Tabatinga foram transferidos para o Acre: dois em Cruzeiro do Sul e um em Rio Branco.  

De acordo com a Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre), o estado recebeu cinco pacientes do Amazonas; sendo dois de Tabatinga, dois de Eirunepé e  um de Pauini. Um paciente de Tabatinga morreu no Hospital Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul. Já Thiago Alves, 36 anos, também de Tabatinga, recebeu alta médica na última quinta, 21. Ele estava internado desde o dia 13 de janeiro na UTI do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), hospital-referência no tratamento Covid na capital acriana. 

De acordo com a Sesacre, todos os pacientes enviados pelo Amazonas chegaram em estado grave, sendo colocados diretamente em leitos de UTI.

Questionada sobre a fala do governador Gladson Cameli, a Secretaria de Saúde do Amazonas informou que os “municípios do estado têm autonomia na gestão da saúde e que a transferência dos pacientes para o Acre se deu por conta dos municípios”. O órgão estadual de saúde do Amazonas informou apenas que, na sua pasta, realizou a transferência de 3 pacientes do municípios transferidos “após comum acordo” entre os governos, e que “o Amazonas é grato pelo auxílio dado naquele momento, quando os complexos reguladores articularam da forma correta a transferência dos pacientes”.

Médico de Tabatinga com covid -19 é transferido para o Acre por meio do serviço de UTI Aérea da SES-AM. (Foto: SES-AM)

Por: Fabio Pontes
Fonte: Amazônia Real

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