Jaider Esbell: “Arte indígena desperta uma consciência que o Brasil não tem de si mesmo”

Artista plástico foi encontrado morto nesta terça-feira (2) em São Paulo. Há duas semanas, Esbell conversou com o BdF

Jaider Esbell era considerado um dos maiores artistas indígenas contemporâneos – Reprodução/Instagram

O artista plástico Jaider Esbell, indígena da etnia Makuxi, de Roraima, foi encontrado morto nesta terça-feira (2), na capital paulista. O motivo da morte ainda não foi divulgado. 

No dia 21 de outubro, há cerca de duas semanas, Esbell conversou com o Brasil de Fato, em uma de suas últimas entrevistas, sobre como as artes contemporâneas indígenas estão ligadas a um esforço de atualizar a existência dos povos indígenas como “plenos, com filosofias, com modelos de educação, direito, toda uma sociedade constituída”, deixando a ideia do “índio como coisa do passado”. 

“Os povos indígenas têm seus próprios sistemas de arte, com fundamentos próprios, razões, intensidades e eles não pressupõem uma cópia ou um arremedo do modelo europeu de arte”, ressaltou.

Esbell também via a arte indígena como um convite ao despertar de uma nova consciência, “porque pega muito pelos olhos, pelo afeto e também pela falta de uma memória que o indivíduo acaba descobrindo que tem”, destaca.

“Quando o indivíduo sente que pode se conectar com aquela obra, que aquela obra pode levá-lo a algum lugar, mas que ele não sabe exatamente aonde, porque ele não teve essas vivências.” 

“Isso remete a uma memória e uma inquietação e inevitavelmente provoca diálogos. Que as pessoas se manifestem e falem sobre colonização, sobre o processo mesmo de invasão e todas essas questões precisam ser faladas, para desbloquear essa consciência que o Brasil não tem de si mesmo, de onde vem”, afirmou o artista ao Brasil de Fato. 

As obras de arte de Esbell estão expostas desde setembro na 34ª edição da Bienal de São Paulo, na mostra Moquém Surarî: arte indígena contemporânea, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo). Uma de suas obras também está na exposição Brasilidade pós-modernismo, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB/RJ). 

Confira a entrevista completa: 

Quando a gente fala em arte indígena contemporânea a gente está falando de um universo enorme, mesmo focado só aqui no Brasil, mas de pessoas de etnias diferentes com histórias de vida diferentes. Mas teriam alguns temas ou questões que atravessam as obras? 

Falar em artes contemporâneas, no plural, sinaliza para uma grande complexidade e uma necessidade muito grande de dialogar com as diferentes esferas da sociedade brasileira, sobre o que significa essa nomenclatura, junto com essas práticas midiáticas, que estão alcançando esse lugar da visibilidade.  

A gente tem alcançado esse lugar a partir de uma arte basicamente performática, denunciativa e no campo da objetificação. A gente tem produzido bastante tela e materiais audiovisuais para falar de um contexto histórico basicamente para que, através desse lugar da visibilidade do palco, do lugar da arte europeia, a gente possa tratar dessas complexidades e dizer que nossa arte é política.  

A arte indígena para nós está essencialmente no dia a dia, na comunidade, na coletividade, nas práticas, que transcendem uma habilidade manual ou oral.

A arte passa por essa objetificação de uma pintura ou mesmo de um objeto para chamar a atenção para uma reflexão que os povos indígenas têm seus próprios sistemas de arte, com fundamentos próprios, razões, intensidades e que eles não pressupõem uma cópia ou um arremedo do modelo europeu de arte. A gente se corporifica nesse lugar de artista e do objeto-arte para falar de política e desses nossos outros sistemas.  

A arte indígena para nós está essencialmente no dia a dia, na comunidade, na coletividade, nas práticas, que transcendem uma habilidade manual ou oral. Pressupõe todo um composto de vida, onde a arte maior é esse viver harmônico com o ambiente, isso que o Ocidente já separou como natureza.  

Então, as obras passam muito por esse lugar do desenho, da pintura, do filme, da fotografia, da performance, mas o intuito maior é provocar essa consciência, pelo menos convidar para uma amplitude. Para que a gente fale em vez de arte indígena contemporânea, a gente fale de arte indígena cosmopolítica.  

Isso muda radicalmente o sentido das coisas, quando a gente se posiciona como povos detentores de políticas de cosmo mesmo, de criação de mundos, manutenção de mundos e de interesse enquanto civilização, de sermos povos plenos de territórios de cultura.  

Elevar o nível da conversa para esse lugar, passando diretamente por não deixar que nos coloquem num passado, o índio como coisa do passado, e atualizando a nossa existência enquanto povos plenos, com filosofias, com modelos de educação, direito, toda uma sociedade constituída.  

A gente passa basicamente por essa materialização nessas obras de arte, que já trazem em si espiritualidade, denúncia, identidade, toda essa marcação territorial falando de uma anterioridade, inclusive em relação ao movimento negro, inclusive à ideia de país. 

Tem uma questão com a tradição. Então às vezes aparece um grafismo nas obras, aparece uma lenda. Mas ao mesmo tempo também tem uma quebra, porque a arte tradicional indígena se faz de uma outra forma, é mais coletiva, não tem uma assinatura. Como é essa relação com a tradição e com esse jeito mais ocidental e moderno de fazer arte?  

Acredito que assumo esse papel difícil e desafiador que é reunir uma constelação de pessoas, ao mesmo tempo que esses indivíduos corporificam uma representatividade que vai desde a ideia do extremamente contemporâneo e urbano até essencialmente tribal, selvagem, tradicional e até de uma certa forma puro.

Mas são questões que buscam tocar, porque a gente vive numa conjuntura de mundo, onde questões como tradição e até mesmo pureza de um povo são questões bem complexas, problemáticas.  

Basicamente, na prática é inviável pensar um povo que consiga manter-se dentro de uma ideia de tradição, sendo que as culturas todas estão basicamente em mútuas influências, em vários níveis de contato, interação, trocas e, em outras palavras complexas, assimilação também.  

A gente apresenta uma existência plural e contemporânea que acessa o tradicional e que mergulha nesse desafio comum de pensar um mundo viável para tanto índios quanto pretos, mulheres, gays, todas as classes. 

O que a gente tentou trazer na Moquém Surarî e colocar nesse palco é um ponto de encontro que dê sentido para todas as sociedades um nível de conhecimento e de tecnologia alcançado ou “preservado” por esses indivíduos que são representantes de civilizações originárias.  

Por exemplo, como os Marubo através dos seus desenhos podem colocar essa tecnologia, esse conhecimento, essa tradição a serviço dessa ideia do bem viver, de um lugar além da racialidade, além da etnicidade. É um lugar além do humano, inclusive, que é essa urgência ecológica maior.  

Os trabalhos do Ailton Krenak como uma outra tecnologia indígena e também essencial pode dialogar com trabalhos do Bu’ú Kennedy, que é um artista xamã do povo tukano, que estudou artes e xamanismo, faz as duplas funções.

Pensar como a gente pode atravessar isso de conectar essas tecnologias com as máquinas de ponta, os softwares, os hardwares, esses programas de computador, todos os equipamentos, essas máquinas.  

A gente estava tentando escapar um pouco dessa visão estereotipada do indígena que não se comunicou ou não interagiu.

A gente apresenta uma existência plural e contemporânea que acessa o tradicional e que mergulha nesse desafio comum de pensar um mundo viável para tanto índios quanto pretos, mulheres, gays, todas as classes. 

Inclusive tem essa questão espiritualidade, além do antropocentrismo, e que a gente consiga olhar com pelo menos vontade de igualdade relação à natureza.  

E as artes plásticas estão sendo um canal importante para esse diálogo? Você acha que a arte está conseguindo fazer esse papel?  

A arte cai muito bem para a nossa urgência, porque trabalha vários elementos, e um dos mais fortes inclusive é a visualidade. Então, as obras que a gente tem colocado na internet, nos museus, nas exposições, são obras carregadas de uma energia muito forte, de séculos, de apagamento, de abafamento, de autocontrole.  

Agora a gente está começando a colocar isso com muito mais energia para fora, com muito mais vivacidade, com muito mais segurança também. Então, esse canal tem sido fundamental, porque desperta, porque pega muito pelos olhos, pelo afeto e também pela falta de uma memória que o indivíduo acaba descobrindo que tem.

A arte tem sido esse ponto de encontro, o que eu chamo de uma preparação para que a gente talvez consiga de fato dialogar em nível de igualdade mínima, não mais sendo visto como exótico.

Quando ele sente que pode se conectar com aquela obra, que aquela obra pode levá-lo a algum lugar, mas que ele não sabe exatamente onde, porque ele não teve essas vivências.  

Isso remete a uma memória e uma inquietação e inevitavelmente provoca diálogos. Que as pessoas se manifestem e falem sobre colonização, sobre o processo mesmo de invasão e todas essas questões precisam ser faladas, para desbloquear essa consciência que o Brasil não tem de si mesmo, de onde vem.  

A arte tem sido esse ponto de encontro, o que eu chamo de uma preparação para que a gente talvez consiga de fato dialogar em nível de igualdade mínima, não mais sendo visto como exótico ou como um conhecimento menor ou como um conhecimento que ficou no passado e que não tem utilidade nesse momento.  

As artes visuais, especialmente as pinturas, têm sido esse carro chefe de conectar essas várias outras abas do sistema de comunicação, tem sido por onde a gente têm alcançado muito mais pessoas, organismos e instituições.   

E falando nesse impacto visual, as suas obras têm um impacto muito grande pelas cores e pela riqueza de detalhes. Como que você chegou nessa linguagem artística? Como foi a sua construção como artista?  

Exercitando campos mais restritos da imaginação, descobri esse material que dá esse contraste, que tem me colocado nessa possibilidade de estar nesse lugar amplo e infinito, que é o vazio, a ausência de tudo e, a partir dali, constituir universos que trazem muito da minha própria relação com o mundo, de como eu talvez dê intensidade para as minhas energias de vida, em tudo que eu me proponho a fazer. Então, são energias muito fortes e muito coloridas. 

Esse trabalho também é resultado de meu trajeto. Tenho 42 anos e desde os 6 que eu escuto histórias fantásticas, que hoje eu já não entendo mais como fantástico, mas como parte da nossa cosmologia, parte da nossa narrativa de mundo mesmo.  

Eu venho dessa linhagem e dessa natureza de ser neto do Macunaíma ou do Macunaimã, que é essa energia extremamente transformadora e constante, que não pressupõe uma linearidade, tampouco uma circularidade muito simples. Puxa mais para essa energia da abertura, da expansão, da constante movimentação.  

Então, esses trabalhos trazem um pouco a natureza desse espírito. Não diria que é inquieto, porque inquieto corresponde a uma patologia. Mas uma energia essencial de movimentação, fazendo esses exercícios de desafiar a mente para ir além das formas que já se conhece, buscando outros elementos, mas destituídos de uma ideia de forma tal qual a gente conheça, como se essas coisas estivessem sempre em constante movimento, não estivessem paradas. 

Você poderia explicar um pouco o que seria essa energia Macunaíma?  

A gente está tentando trazer para esse campo da visualidade exatamente essas energias que não têm tradução. São energias que partem de um certo vórtice, de um certo núcleo, que se deslocam invariavelmente, sem muito sentido, nem para esquerda nem para direita.

São energias extremamente pulsantes, vibrantes. São esses exercícios para tentar trazer para o ambiente da visualidade esse lugar que não se alcança. Tem coisas que a nossa mente não alcança, o nosso olho biológico, nem as máquinas também não alcançam. Tem esses campos mais para lá das coisas que são um lugar onde só a imaginação pode alcançar.  

E aí entre a imaginação alcançar e até o artista conseguir trazer isso para cá é um caminho muito longo. É um exercício também muito profundo de escuta, de silêncio, introspecção. É um pouco desse lugar que a gente vem trabalhando, que a correria do dia a dia não deixa a gente estar em condições ideais para fazer esses estudos mais finos. 

Talvez daqui mais alguns anos, a gente possa ter um panorama melhor de uma sociedade minimamente mais esclarecida sobre a grande diversidade dos povos indígenas. 

Acho que a arte indígena contemporânea é uma provocação teórica, que eu faço pela Universidade de São Paulo. É uma forma de a gente usufruir dessa conquista coletiva e histórica que esse lugar da visibilidade, pensando aí que essa é uma luta que não começa exatamente com a gente, mas é uma continuidade de tantos outros anteriores a nós, “artivistas”.  

Eu sempre digo que os indígenas são “artivistas”. Antes de qualquer coisa, o povo indígena vem trabalhando nessa resistência e defesa pelo território e, consequentemente, por acolher essa turma toda que chegou nessas terras.  

Nesses anos de 2010 para cá tem crescido muito em conceito, argumento e interação. Talvez daqui mais alguns anos, a gente possa ter um panorama melhor de uma sociedade minimamente mais esclarecida sobre a grande diversidade dos povos indígenas. 

Por: Caroline Oliveira e Raquel Setz
Fonte: Brasil de Fato