Juventude indígena do Maranhão debate terra, política e direitos em seu II Encontro

O encontro reuniu jovens de pelo menos onze povos indígenas entre os dias 28 e 31 de março, no Centro Anajás, em Imperatriz/MA

II Encontro da Juventude Indígena do Maranhão ocorreu entre os dias 28 e 31 de março de 2022. Foto: Fábio Costa/Cimi Regional MaranhãoPOR JESICA CARVALHO, DO CIMI REGIONAL MARANHÃO

Jovens indígenas realizaram o II Encontro da Juventude Indígena do Maranhão entre os dias 28 e 31 de março. Com o olhar no passado, no presente e no futuro, o evento teve como tema “O papel da juventude em tempos de retrocessos de direitos”. O evento contou com o apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Regional Maranhão. 

Nesses três dias de encontro, que contou com a presença de jovens dos povos Guajajara (autodenominados Tenetehara), Ka’apor, Awa Guajá, Akroá Gamella, Apãnjekra-Canela, Memurtumuré-Canela, Krepym Kateje, Pyhcop Gavião (autodenominados Pyhcop Catijii), Krikati, Kari’u Kariri, ocorreram intensos debates e partilhas sobre a política, o território, o racismo e o direito originário. O encontro teve início na segunda-feira (28), com o acolhimento dos participantes, no Centro Anajás, em Imperatriz (MA). Na ocasião, os participantes foram testados para a Covid-19, como medida de segurança do período pandêmico.

A primeira manhã do encontro, na terça-feira (29), foi marcada por cantorias e apresentação dos participantes, que simbolizaram o começo das atividades. O tema “Tem Aldeia na Política” deu o tom do início das reflexões promovidas pelo encontro. “Essa é uma temática central, pois a influência da política partidária é uma realidade em todos os territórios indígenas do Maranhão. Por isso, a importância da juventude de se auto-organizar em torno da sua cultura, seus rituais, modos de ser e de viver”, explica Hemerson Pereira, missionário do Cimi Regional Maranhão.

“Por isso, a importância da juventude de se auto-organizar em torno da sua cultura, seus rituais, modos de ser e de viver”

O II Encontro da Juventude Indígena do Maranhão foi marcado por debates sobre terra, política e direitos. Foto: Karina Krikati

O II Encontro da Juventude Indígena reforça a importância de fortalecer a aliança e mobilização dos povos indígenas na defesa do Bem-Viver e dos direitos constitucionais. “Como jovens, temos que pensar mais, valorizar a nossa cultura, nos manter de pé. Temos o direito de cobrar. Se não lutarmos, ficaremos como um brasileiro qualquer, sem direito à especificidade: enfrentar fila para atendimento à saúde, pagar as faculdades”, define Tomás Guajajara.

“Como jovens, temos que pensar mais, valorizar a nossa cultura, nos manter de pé”

Ainda na manhã do segundo dia, os participantes foram convidados a discutir sobre o tema “Povos originários em processos de retomadas e racismo estrutural”. Meire Diniz, missionária do Cimi Regional Maranhão, explica a importância do tema. “É desconstruir um abismo criado historicamente para afastamento dos povos”, define.

Sobre o tema do racismo, durante a exposição, foi destacado que os que sofrem com racismo não podem deixar que o esse preconceito divida os povos. Reforçaram, ainda, que o racismo dói mais ainda quando é praticado por outro parente e que, desse modo, é necessário descolonizar a mente e deixar reproduzir a narrativa do colonizador.

Em relação às ações do encontro, Lidiane Kariú Kariri reforça a necessidade de debate das temáticas apresentadas para a discussão. “O tema do Acampamento Terra Livre [ATL], Retomando o Brasil, serve para a gente pensar sobre esse nome atribuído a nós, porque ‘retomada’ é verbo, é ação. Verbo não é adjetivo e eu não aceito ser adjetivada desse jeito, pois eu faço parte de um povo que existe. Convido todos aqui a refletirem qual dos povos presentes e ausentes neste encontro, não está retomando o que foi destruído durante o violento processo de colonização que todos nós sofremos?”, questiona ao final.

No terceiro dia de encontro, os direitos dos povos indígenas estiveram entre os temas centrais do debate entre os participantes. Foram discutidas temáticas como “Os direitos Indígenas” e o “O Caso da Repercussão Geral e Direitos Originários”, com mediação de Lucimar Carvalho, Assessoria Jurídica do Cimi Regional Maranhão.

Segundo Edilberto Akroá Gamela, “antes de nos declararmos como indígenas, o nosso povo tinha medo de dizer o que ele é. Pois as pessoas tinham medo de serem mortas em casa. Mas hoje estamos nos afirmando sem medo, pois os encantados nos protegem”. O encontro seguiu com reflexões sobre a Teia Indígena e o Território do Bem-Viver.

“Todos os povos afirmaram que o papel da juventude em seus territórios é vivenciar a cultura em diálogo e respeito com os anciãos, suas bibliotecas vivas. Destacaram que o jovem, ou mesmo os caciques, não podem decidir e fazer tudo sozinhos, é importante o sentido de comunidade, de coletividade”, ressalta Meire Diniz.

À tarde, os jovens realizaram trabalhos de grupos e participaram de rodas de discussão sobre o papel da juventude no contexto de retrocesso de direitos, estratégias de luta. “Carregamos em nós a nossa ancestralidade, e a presença dos encantados no processo de retomada nos fortalece. Mesmo na frente de balas de pistolas ou revólveres, estamos seguindo firmes”, destaca Cruupoohré Akroá Gamela.

“Carregamos em nós a nossa ancestralidade, e a presença dos encantados no processo de retomada nos fortalece”

O II Encontro da Juventude Indígena reforça a importância de fortalecer a aliança e mobilização dos povos indígenas na defesa do Bem-Viver e dos direitos constitucionais. Foto: Karina Krikati

O Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil 2020, produzido anualmente pelo Cimi, foi tema de debate do terceiro dia de encontro. Esse é um instrumento de denúncia e de luta contra a violência cometida contra os povos indígenas nos territórios. O Relatório possui grande repercussão nacional e internacional, pois apresenta a realidade de violência e de insegurança vivenciada pelos povos indígenas.

Berto Gamela, do Território Taquiritiua, Viana (MA), reforça a importância do encontro para a juventude. “Esse encontro é muito bom para a resistência da juventude, para sabermos o que os parentes estão fazendo em seus territórios, para levarmos mais experiências para o nosso povo”.

Os participantes saem deste II Encontro da Juventude Indígena do Maranhão com o compromisso de continuar o debate nos territórios. “Cada encontro é bastante fortalecedor, pois podemos saber como cada povo lida com as situações comuns em seus territórios, nos que são demarcados ou não demarcados. Vemos que há muitas situações de desrespeito à vida. Então, esse é um espaço de fortalecer com a união dos povos”, ressalta Laiu Kari’u Kariri.

De acordo com Madalena Borges, “as marcas dos processos coloniais, estruturais têm servido para descaracterizar os povos que sempre estiveram nas nossas pautas, tudo se faz com luta e resistência com processo de retomada do Brasil e dos direitos constitucionais”.

Nesse sentido, o encontro foi realizado com o intuito de fortalecer a luta dentro dos territórios e fortalecer as diversas formas da juventude se organizar.

Fonte: Cimi