Lideranças indígenas mortas pela covid-19 são perda irreparável

Mortes evitáveis de anciãos impactam na preservação da memória cultural dos povos originários

  • Sem respaldo do governo federal, indígenas agiram por conta própria para protegerem suas comunidades.
  • Aruká Juma, último ancião de seu povo, morreu de covid-19 em fevereiro e foi tratado com medicamentos sem comprovação de eficácia para combater a doença.
  • Indígenas com comorbidades que faleceram por covid-19 podem ter sido prejudicados por precariedade no atendimento básico de saúde.

Na tradição indígena, a oralidade é uma das principais formas de transmissão de conhecimento entre gerações. Os mais velhos sabem os cantos específicos para cada situação da vida em sociedade, como falecimentos, casamentos e a primeira colheita de uma roça. É também pela memória que anciões compartilham mitos sobre animais das florestas e batalhas travadas entre seus ancestrais e guerreiros inimigos: é pela memória coletiva que os povos indígenas registram suas próprias histórias. Aruká Juma, com idade estimada em torno dos 90 anos, foi um dos remanescentes do povo Juma, vivia na aldeia em Canutama, no Amazonas, e um dos poucos sobreviventes do massacre que dizimou seus parentes na década de 1960 – no dia 17 de fevereiro, ele entrou para as estatísticas de mortes pela covid-19, que já matou mais de 450 mil brasileiros. 

Para Wesley dos Santos, do Departamento de Linguística da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que estuda a linguagem Kagwahiva de povos como Juma e Uru-Eu-Wau-Wau, a morte de um ancião como Aruká equivale a perder uma peça do quebra-cabeça que reconstrói a história da formação dos povos originários do Brasil. “É uma lástima não ter a presença do Aruká para nos ajudar a compreender o passado. Quando uma comunidade começa a perder a sua cultura verbal, parte da documentação é impossível de ser realizada”, afirma.      

Internado desde a primeira quinzena de janeiro, Aruká foi medicado com azitromicina, ivermectina, nitazoxanida e sulfato de zinco, de acordo com uma reportagem da Amazônia Real. Os remédios não têm eficácia comprovada no tratamento contra a covid-19 e fazem parte do chamado “tratamento precoce”, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Aruká deixou três filhas Juma, casadas com homens Uru-Eu-Wau-Wau, e 14 netos, bisnetos, e uma filha de um relacionamento com uma indígena Uru-Eu-Wau-Wau.

Atualmente, de acordo com a plataforma de monitoramento do Instituto Socioambiental (ISA), há 54.622 casos de covid-19 confirmados entre os povos originários. Desde o início da pandemia, 1.087 indígenas foram mortos pela doença e 163 povos foram afetados. Segundo dados do Censo Demográfico do IBGE de 2010, a população indígena do Brasil é de 817.963 pessoas – não há dados mais recentes divulgados na última década. De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em dezembro do ano passado a mortalidade entre indígenas era 16% maior em comparação a não indígenas no país. No relatório “Covid-19 e Povos Indígenas”, da Apib, publicado no ano passado, a organização afirma: “Perdemos os nossos velhos que guardavam as lembranças da memória de nossa ancestralidade, guardiões do conhecimento, dos cantos, das rezas, da nossa espiritualidade”. 

O acesso à Aldeia Juma, localizada no município de Canutama (AM) e onde vivia Aruká, se dá pela rodovia Transamazônica. Foto: Odair Leal / Amazônia Real.

Indígenas à própria sorte

Em agosto de 2020, Beptok Xikrin, com 64 anos, da Terra Indígena Trincheira Bacajá, foi o primeiro a falecer de covid-19 no Médio Xingu. Segundo a antropóloga do Instituto Socioambiental (ISA) e pesquisadora associada à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Thaís Mantovelli, “a morte evitável de pessoas como BepTok Xikrin é uma grave marca da nossa pegada predatória e irresponsável no mundo”. Conhecido como cacique Onça, ele tinha como objetivo abrir os ouvidos dos brancos para que aprendessem princípios do sistema cultural indígena baseado na generosidade. 

De acordo com Thaís, a atuação do governo federal foi pautada por um discurso negacionista em relação à gravidade da pandemia e aos métodos adequados para o seu enfrentamento. “O governo do atual presidente Jair Bolsonaro não adotou medidas eficazes para o combate da pandemia entre povos indígenas e comunidades tradicionais”. Para ela, as iniciativas seguiram o caminho contrário ao necessário: a ausência de ações para proteção dos territórios tradicionais desses povos causou um enorme aumento de invasões, exploração ilegal de recursos naturais e grilagem de terras, o que levou a uma maior exposição ao vírus e, consequentemente, à contaminação e morte de centenas de pessoas.

  Ao mesmo tempo, o descaso com a saúde e os direitos indígenas é uma questão secular. A história da ocupação do país é marcada pela violência física e biológica. Segundo a Funai, em 1500, a população indígena no atual território brasileiro era de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Em 1650, o número já havia caído para 700 mil pessoas e, em 1957, chegou a 70 mil. Surtos de sarampo e varíola, doenças até então inexistentes, foram as primeiras epidemias que vitimaram aldeias inteiras. 

Para o Coordenador de Área de Território e Recursos Naturais da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), Toya Manchineri, as medidas para proteger os grupos com poucos indivíduos devem ser feitas não só pela própria comunidade, mas também pelo meio acadêmico e o Estado. “Esses povos só chegaram a um número reduzido por causa do próprio Estado, que sempre deixou de lado as questões indígenas. Os indígenas ficaram à própria sorte, com terras invadidas e complicações de saúde, enquanto o povo diminuiu cada vez mais”. 

Além da perda de lideranças, a pandemia interferiu na possibilidade de manter rituais e tradições. “Muitas lideranças que batalharam pela reconquista de seus territórios morreram por essa doença no momento da consolidação dos seus espaços. Eles não puderam ser enterrados da forma como manda a cultura”, afirmou à Mongabay. Para Manchineri, a perda é também para a riqueza da nação. “Somos um país rico não só na biodiversidade, mas também na cultura e nas línguas. No Brasil, falamos 181 línguas, incluindo o português”, disse. 

Crianças brincam em um igarapé do rio Assuã, na Aldeia Juma. Elas perderam seu ancião e, com ele, parte insubstituível da memória de seu povo. Foto: Odair Leal / Amazônia Real

Resistência secular

Por ter sido o último ancião vivo de sua etnia, a morte de Aruká trouxe a preocupação com a possibilidade de extinção de um povo como um todo. Segundo o pesquisador Wesley dos Santos, o raciocínio não se aplica ao caso dos Jumas. “Por essa lógica, o extermínio teria acontecido após o massacre na década de 60, quando Aruká e os parentes que sobreviveram já não poderiam mais ter filhos entre si. As filhas e os netos de Aruká se identificam como Jumas”. 

De acordo com o linguista, entende-se que as sociedades da Amazônia foram constituídas por grupos com poucas pessoas. Por um lado, qualquer desastre natural poderia acabar com uma comunidade inteira. Por outro, a diversidade cultural e linguística foi ampliada. Contudo, a morte de um indivíduo tem proporções maiores quando comparado a níveis nacionais do Brasil. Santos explica que Aruká, como um dos cerca de 18 Jumas remanescentes, representa o equivalente a 20 mil pessoas em uma comunidade.  

No Mato Grosso do Sul, o povo Terena foi um dos mais afetados pela pandemia no país – de acordo com a Articulação dos Povos Indígenas (Apib), os Terena são o terceiro povo com o maior número de mortes, com 61 vítimas. Em primeiro lugar, os indígenas sem identificação, com 427 vítimas, e, em segundo, os Xavante, com 79 mortes. Para o biólogo e integrante do Conselho do Povo Terena, Eriki Paiva Terena, a atuação do poder público foi extremamente faltosa não só durante a pandemia, mas também muito antes da crise sanitária. “Grande parte dos indígenas que foram aos hospitais e faleceram de covid-19 eram pessoas com comorbidades como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Isso demonstra a deficiência no atendimento primário do sistema básico de saúde”.      

Com o avanço da pandemia, a comunidade percebeu que não teria atendimento adequado para combater o vírus. As lideranças e os caciques decidiram, por conta própria, levantar barreiras sanitárias e impedir a entrada de turistas para visitas às aldeias. Terena consolidou dados sobre mortes para confrontar a subnotificação dos dados oficiais. “Enquanto a saúde indígena deveria sistematizar os casos, quem teve que fazer esse trabalho fomos nós”, disse. 

Junto aos casos concretos de novos contaminados dia após dia, a pandemia escancarou feridas históricas em cicatrizes ainda abertas. “A crise potencializou a fragilidade e a dificuldade estrutural de acessar políticas públicas de atenção à saúde em meio ao colapso sanitário no país”, diz Thaís. Segundo a antropóloga, a garantia de atenção diferenciada à saúde está diretamente relacionada à adoção de medidas eficazes de proteção territorial. Estas, por sua vez, dependem de uma mudança do modelo de desenvolvimento predatório. 

Para Terena, a relação entre os jovens e os anciões é explicada pela força de uma árvore. Os mais novos são como um tronco formoso de uma árvore vistosa, que demonstra força e conexão, e por isso estão à frente dos embates necessários. Os anciões são as raízes que mantêm as árvores vivas. Sem eles, os troncos ficam enfraquecidos. “Nosso maior desafio é o mesmo de 1500: continuarmos vivos”.

Por: Jennifer Ann Thomas
Fonte: Mongabay

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