Ligação com desmatamento não inibe compra da carne para 60% dos consumidores

Respostas conflitantes em pesquisa realizada pelo Reclame Aqui mostram desconhecimento do consumidor sobre papel da pecuária no desmatamento da Amazônia. Informações precisam chegar de forma mais clara a eles, diz site

Apesar de a pressão do mercado forçar a cadeia da carne a se tornar cada vez mais sustentável, a maioria dos consumidores ainda não deixa de comprar produtos de origem bovina provenientes de fabricantes associados ao desmatamento ilegal e/ou à violação de leis ambientais.

A informação foi revelada nesta quarta-feira (27) pela plataforma Reclame Aqui. Ela faz parte de uma pesquisa realizada com quase 10 mil brasileiros entre 16 e 18 de novembro de 2021, que mostrou que quase 60% dos consumidores entrevistados (59,24%) não deixou de colocar no prato carne proveniente de marcas ligadas à destruição da floresta Amazônica.

A pesquisa lançou luz sobre outra situação preocupante: apenas 12% dos consumidores associam a pecuária ao desmatamento na Amazônia, quando a realidade é a oposta: a criação de gado é o principal motor de destruição da floresta tropical.

Segundo estudos do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do projeto Amazônia 2030, os pastos cobrem cerca de 90% da área total desmatada no bioma, sendo que mais de 90% desse desmatamento ocorre de forma ilegal.

Neste ranking de atividades relacionadas à destruição da floresta, exploração madeireira (22,49%), Garimpo (14,69%)  e Grilagem (15,2%) aparecem antes da pecuária, na percepção do consumidor.

Também chama atenção na pesquisa que 56% dos entrevistados disse “não se interessar” sobre a política de responsabilidade ambiental de um supermercado ou rede varejista ao tomar suas decisões de compra e que 43% deles também não se preocupam com a marca da carne na hora da aquisição.

De qualquer forma, 88% dos ouvidos na pesquisa disseram não se recordar de marca ou fabricante de carne que tenha sido associado a denúncias de desmatamento ou violação de leis ambientais.

Percepção conflitante

Além de os dados indicarem uma falta de conhecimento e/ou interesse dos consumidores sobre os impactos da pecuária no desmatamento, a pesquisa conduzida pelo Reclame Aqui também deixa clara percepção conflitante desses consumidores, tanto no que diz respeito ao seu próprio papel no controle da origem da carne, como no da cadeia produtiva como um todo.

Mesmo que 59,24% dos entrevistados tenham dito que não deixaram de comprar carne de fabricantes associados ao desmatamento, quando questionados se era importante para sua decisão de compra saber se a produção de carne a ser consumida causou desmatamento, 57,9% respondeu que “sim”.

Além disso, quase 80% dos entrevistados (79,68%) disse que vendedores de carne bovina, como supermercados, redes varejistas e açougues, têm a responsabilidade de verificar a procedência da carne e 73% deles deixariam de comprar nesses estabelecimentos se eles não conseguirem garantir que o produto vendido está livre de desmatamento, mesmo que tenham declarado, em outra questão, não se interessarem pela política de responsabilidade ambiental de supermercados.

“As respostas conflitantes mostram o quanto o consumidor não entende do tema e não está envolvido com a pauta. Outro ponto importante que podemos inferir da pesquisa é que, para o consumidor, o papel de controle de origem da carne deve ser do varejista, e não dele”, explicou a ((o))eco Patrícia Cansi, diretora de operações do Reclame Aqui.

Segundo ela, para aumentar o grau de consciência do consumidor sobre a ligação e a importância da pecuária como vetor de desmatamento na Amazônia, é preciso que as informações cheguem de forma mais simples e clara a eles.

“Desmatamento da Amazônia é um tema muito grande que talvez o consumidor ainda não veja o quanto pode contribuir, sente-se hipossuficiente e – talvez também – não vê o quanto o desmatamento impacta na vida dele no curto prazo. Acho que falta consciência sobre a importância do tema e o que de fato ele impacta na sua vida, então existe uma longa jornada pautada em informação que ainda precisa ser construída”, diz.

Por: Cristiane Prizibisczki
Fonte: O Eco