Listo, logo existo: CBRO divulga nova Lista de Espécies de Aves do Brasil

País possui 1.971 espécies de aves registradas, sendo 293 espécies endêmicas, o que coloca o Brasil em terceiro colocado entre os países com maior taxa de endemismo de aves no mundo

Beijo-flor asa-de-sabre-da-mata-seca (Campylopterus calcirupicola), espécie endêmica do Brasil, que só existe no norte de Minas, nordeste de Goiás e sudeste do Tocantins. Foto: Fabio Olmos.

O Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) divulgou, em 23 de julho de 2021, a Lista de Espécies de Aves do Brasil atualizada. Para marcar o lançamento, foram realizadas cinco lives, no canal da Avistar Conecta, no Youtube, ao longo do fim de semana, de 23 a 25 julho, em um total de sete horas e 19 minutos de transmissão. A última Lista do CBRO, lançada em 2015, registrou 1.919 espécies de aves no país. Fernando Pacheco, do Conselho Diretivo do Comitê, revelou que a Lista de 2021 registrou 1.971 espécies. “O Brasil é o terceiro país do mundo em número de espécies endêmicas, que só ocorrem aqui, com 293 espécies. Está atrás apenas de Indonésia e Austrália, países insulares. Então é isso. Festejemos”.

Cadu Agne, membro do CBRO, destacou que foram realizadas aproximadamente 200 alterações em relação à lista anterior, de 2015. Entre essas mudanças, houve a descrição de cinco espécies novas. Reproduzimos, a seguir, o que Agne apontou a respeito de três dessas espécies: “Uma delas foi o beijo-flor asa-de-sabre-da-mata-seca (Campylopterus calcirupicola), espécie endêmica do Brasil, que só existe no norte de Minas, nordeste de Goiás e sudeste do Tocantins. O caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis). Um bicho que se reproduz no Pantanal. Ocorre em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Uma espécie nova de surucuá, endêmica, de Alagoas, surucuá-de-murici (Trogon muriciensis), criticamente em perigo, deve ter poucas dezenas de indivíduos”.

Trinta e cinco subespécies foram promovidas a espécies, entre elas o uirapuru (Cyphorhinus arada), que de uma passou para seis espécies, cinco das quais ocorrem no Brasil (C. transfluvialis, C. modulator, C. interpositus e C. griseolateralis). Entre as exclusões, houve quatro sinonimizações (deixaram de ser consideradas espécies distintas e passaram a ser consideradas idênticas a uma outra espécie) e quatro táxons que eram considerados espécies passaram a ser tratados como subespécies.

Ciência cidadã

Ao longo de cinco anos e meio, entre a publicação da lista de 2015 e a da lista de 2021, foram avaliados por volta de 150 artigos ou notas científicas pelo comitê. “Monitoramos a literatura científica, damos uma espiada no Wikiavesxeno-cantoe-BirdBirdForum. Há membros do comitê que publicam bastante, que fazem publicações com autores de fora”, pontuou Cadu Agne, que discorreu em sua apresentação sobre a relação entre a ciência cidadã e a nova lista:

Dos 35 registros novos de aves para o Brasil, 18 – ou 51% – são oriundos de observadores de aves. Novas documentações fizeram com que 15 espécies passassem da lista secundária para a lista primária de espécies registradas no país. O material de testemunho que promoveu a inclusão na lista primária de nove das 15 espécies – ou 60% – foi proveniente de observadores de aves. Entre outros exemplos, foram citados o maçarico-de-perna-vermelha (Tringa totanus), fotografado no litoral de São Paulo; e o tecelão-do-acre (Cacicus koepckeae), cuja vocalização foi disponibilizada no site xeno-canto. “Que o pessoal vá a campo, compartilhe os registros, fotos, gravações e áudios”, conclamou Agne.

O famoso Aracuã, Ortalis remota. Espécie que parece só existir no estado de São Paulo. Foto: Fabio Olmos.

Vítor Piacentini, coordenador do CBRO, também abordou o tema: “Hoje em dia fazer uma lista de espécies ameaçadas sem olhar o mapa da espécie no Wikiaves é um erro grotesco. Ainda há trabalhos científicos que o ignoram. Não dá mais para falar em distribuição de espécies de aves no Brasil ignorando o Wikiaves, ignorando ciência cidadã”.

Mário Cohn-Haft, membro do comitê, relatou expedições realizadas às Serra da Mocidade, do Sol e do Apiaú, em Roraima, próximas à divisa com a Venezuela, em que houve envolvimento da etnia indígena Ingarikó, interessada em desenvolver o turismo de observação da natureza na região. Cohn-Haft avaliou haver uma maior possibilidade de encontrar aves conhecidas em outros países que ainda não foram registradas no Brasil em regiões fronteiriças. Em seguida, ponderou:

“Mas vários bichos novos para o Brasil foram encontrados no meio do país, longe de qualquer outro país. Isso representa o acaso da ornitologia, bichos que voam longe e aparecem fora do lugar normal. Representa também a expertise dos nossos observadores de aves. Não estou falando do círculo pequeno de ornitólogos profissionais, estou falando do mundaréu de gente que adora ver passarinho, que se mete no mato e que descobre coisas toda hora, muito legal”.

De acordo com Cadu Agne, os registros de novas espécies costumam ocorrer em Fernando Noronha e no litoral do Maranhão, por conta de espécies que migram da América do Norte para a América do Sul, bem como no Acre e no Rio Grande do Sul. Ele apontou a região de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas, próximo à divisa com a Colômbia, como um local com potencial para novos registros, entre outros motivos, pela dificuldade de acesso.

História do CBRO

O CBRO foi criado em 1999 e a primeira versão da lista foi publicada em 2005. A primeira publicação da lista em um periódico científico ocorreu em 2015. “Houve lançamentos anuais até a lista de 2011. Depois, 2014, 2015 e agora 2021. É um trabalho voluntário”, destacou Vítor Piacentini. “Um trabalho feito por muitas pessoas, para reduzir erros e vieses. Direcionada para os ornitólogos, agora para os observadores de aves também. Uma lista respaldada, chancelada, por um corpo de profissionais ornitólogos da Sociedade Brasileira de Ornitologia (SBO). Uma lista básica, mas que não é obrigatória”.

Mário Cohn-Haft declarou que a Lista do CBRO foi abraçada pelo país. “É a lista usada no Brasil, majoritariamente. Quando se vai ao Wikiaves e se procura o nome de uma espécie, para saber se aquela ave já foi vista no Brasil, é a lista do CBRO que está informando isso. É a lista que o Wikiaves e outras fontes de informação estão usando. Produz-se uma lista padronizada para quem quiser usar”.

Reestruturação do CBRO

O coordenador do CBRO, Vítor Piacentini, discorreu sobre a reestruturação do comitê, que está em curso. Entre as questões em discussão, está o viés do gênero, pois a composição atual do comitê é quase exclusivamente masculina. Pretende-se que haja subcomitês com temáticas definidas, tais como nomes vernáculos, taxonomia, padrões e status de ocorrência. Quais serão as obrigações de cada um, quais produtos produzirá e prazos bem definidos para entregas, entre outras. Propõe-se que a entrada no comitê seja feita por candidatura, na assembleia da SBO, à qual o CBRO é vinculado. Existe a intenção de que sejam publicados suplementos anuais ou bianuais de atualização da lista.

Cohn-Haft afirmou que a parte técnica do trabalho do comitê tem sido reconhecida e que a reestruturação em curso tem o intuito de melhorar três pontos: “Inclusão, acima de tudo. Envolver toda a comunidade que se interessa por aves. Transparência. Decisões que possam ser compreendidas, rastreadas. E agilidade. Não leve cinco anos para fazer. Que alguém force a acelerar o passo. Melhorar inclusão, transparência e agilidade, mantendo a qualidade técnica”.

Links para as lives do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos:

23/07/2021: Lançamento Nova Lista CBRO de espécies de aves do Brasil 

24/07/2021: Por que a classificação das aves muda tanto?

24/07/2021: Nomes vernáculos e nomes populares 

25/07/2021: CBRO, SAAC, Clements – Diferentes listas: implicações tecnológicas 

25/07/2021: Listas, taxonomia e conservação

Por: Marcelo Baêta
Fonte: O Eco