Médicos fura-fila pedem demissão, só depois da 2a. Dose da Coronavac

Médicos fura-fila pedem demissão, só depois da 2a. dose da Coronavac
As irmãs gêmeas Gabrielle e Isabelle Lins e outros oito profissionais são investigados pelo MP (Foto de reprodução)

No dia em que Manaus registrou 48 mortes e 1.003 casos novos por Covid-19, as médicas Gabrielle e Isabelle Kirk Maddy Lins e mais cinco profissionais pediram demissão do serviço público de saúde. Antes, elas e outros quatro colegas, tomaram a segunda dose da Coronavac contrariando decisão da Justiça Federal. Os médicos, que não estão no grupo de prioridade, são investigados por furarem a fila da imunização pelo Ministério Público Federal. A Prefeitura de Manaus publicou as exonerações no Diário Oficial do Município (DOM) de sexta-feira (12). 

Além de Gabrielle e Isabelle, também foram exonerados os médicos Alessandro Silva Pontes, Carla Angelina Lima Ribeiro, David Louis de Oliveira Dallas Dias (filho do ex-deputado Wanderley Dallas) e Tatiana Mota Lotti. Todos eram lotados como gerente de projeto, com a remuneração DAS-4 (aproximadamente R$ 8 mil), mas a contratação é também investigada pelo MP por irregularidades.  

Em nota distribuída à imprensa neste sábado (13),  os advogados de Gabrielle e Isabelle Lins confirmaram que as duas, e mais oito médicos contratados no mesmo regime pela prefeitura, pediram exoneração, fato confirmado pela Prefeitura de Manaus.

 “A situação infelizmente ficou insustentável a partir do momento em que se passou a questionar a forma escolhida pela Prefeitura para a contratação dos mesmos, gerando um enorme mal estar e comprometendo o ambiente de trabalho”, diz a nota. “Não havia porque Gabrielle e Isabelle permanecerem ali com todo o desgaste que se criou.”

Os advogados informaram ainda que as irmãs depositaram em juízo os valores recebidos pelo trabalho na prefeitura. “Até que a questão da forma de contratação e qualquer diferença de valor esteja totalmente dirimida pela Justiça”, explica a nota.

A defesa das irmãs sustenta que as duas não aceitaram o cargo por questões “financeiras ou para obter benefício pessoal”. Mas o senso crítico e o juramento feito pelas médicas recém-formadas não as impediu de tomarem a segunda dose e abandonarem o combate à Covid-19 apenas depois de estarem devidamente imunizadas.

O escárnio ao povo brasileiro

O prefeito David Almeida alugou o prédio da família Lins para instalar uma UBS, que foi visitada pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello (Fotos Dhyeizo Lemos/Semcom)

A juíza Jaiza Maria Pinto Fraxe, titular da 1ª Vara da Justiça Federal no Amazonas, tinha determinado que os fura-filas não recebessem a segunda dose da vacina. “Na condição de juíza do processo que trata da transparência e lisura na execução do Plano Nacional de operacionalização da vacinação contra Covid-19, em Manaus, posso por ora tão somente afirmar que a decisão que proibiu pessoas que furaram as filas de tomar a segunda dose continua válida, hígida e eficaz, eis que não houve sequer  recurso”, disse a magistrada. 

A assessoria de imprensa das médicas Gabrielle e Isabelle Lins voltou a reafirmar, ao comentar sobre a vacinação da segunda dose à revelia da Justiça, que “sustenta que as duas atuaram na linha de frente de combate ao novo coronavírus e que elas foram notificadas pela própria prefeitura para receberem a segunda dose da vacina”. De acordo com a defesa, não há ordem judicial que impedisse Gabrielle e Isabelle de receber a segunda dose da vacina.  

A investigação dos fura fila no Amazonas revelou que na lista estão ainda a secretária de saúde do município, Shádia Hussami Hauache Fraxe; o secretário municipal de limpeza urbana, Sabá Reis; a advogada Tamyres Kutchma de Albuquerque e Stenio Holanda Alves; e o casal de empresários  Bento Martins de Souza e Jane Soares Pereira. Conforme publicou a agência Amazônia Real, o prefeito de Manaus David Almeida (Avante) confirmou que autorizou a vacinação das médicas recém-formadas Gabrielle e Isabelle Lins, sem que elas fizessem parte dos grupos prioritários da imunização.

A família da elite manauara mantém negócios com a prefeitura e o governo do Amazonas. Desde 15 de outubro de 2012, as gêmeas são sócias da empresa de laticínios Rancho Ing Ferradurinha Agro Industrial, que tem um capital de R$ 1 milhão. Em 2017, a empresa fez um contrato para fornecer laticínios quando David Almeida foi governador do Amazonas. 

De acordo com a Prefeitura de Manaus, Gabrielle Lins foi nomeada em 18 de janeiro e Isabelle, no dia 19, portanto, na véspera e algumas horas antes do início da imunização, não havendo tempo hábil para elas trabalharem durante a pandemia. Elas se formaram em maio e dezembro do ano passado. 

As médicas foram imunizadas pouco depois de 24 horas da nomeação e postaram fotos nas redes sociais, expondo a irregularidade. Segundo o MPF, a aplicação da vacina em qualquer pessoa que não se enquadre nos critérios de priorização, pode ser enquadrada como improbidade administrativa.

“O responsável pelo desvio desrespeita os princípios constitucionais da impessoalidade, da moralidade e da lealdade às instituições, podendo ser punido não só criminalmente, mas também com a obrigação de ressarcir todo o valor correspondente às vacinas desviadas; pode perder a função pública se for servidor ou agente público e ser condenado a pagar multa no valor de até 100 vezes o valor do salário que recebe”, disse o MPF à reportagem.

No dia 27 de janeiro, o MP do Amazonas pediu as prisões preventivas do prefeito David Almeida, dos secretários Shádia Fraxe (Saúde), Sabá Reis (Limpeza Urbana) e Jane Mara Silva de Moraes (Assistência Social) por acusação de suspeita de fraude na fila de prioridades da vacinação contra Covid-19 e contratação irregular dos dez médicos. O pedido está sendo analisado pela Justiça.

Negócios com o governo

Visita do Ministro da Saúde à UBS Nilton Lins (Fotos Dhyeizo Lemos/Semcom)

Gabrielle Kirk Maddy Lins e Isabelle Kirk Maddy Lins são proprietárias da empresa de laticínios Rancho Ing Ferradurinha Agro Industrial Ltda, que tem um capital de R$ 1 milhão de reais, sendo duas cotas de R$ 500 mil para cada uma.

A indústria foi aberta em 2009, mas as médicas se tornaram sócias em 15 de outubro de 2012. No ano de 2017, a empresa das médicas passou a receber incentivos fiscais do governo do Estado do Amazonas, relativos ao Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS). Na época, o governador interino era o atual prefeito de Manaus, David Almeida, que era presidente da Assembleia Legislativa do Estado (ALEAM) e foi promovido ao posto de governador quando o Tribunal Superior Eleitoral cassou o então governador, José Melo, e o vice-governador Henrique Oliveira.

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real

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