Medidas restritivas se revelam frágeis no Amazonas

Caos na Pandemia: Medidas restritivas se revelam frágeis no Amazonas
No primeiro dia depois da flexibilização e sem fiscalização, os comerciantes abrem as portas para vendas. Acima as filas em bancos e movimentação no centro de Manaus (Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

As portas da loja de confecções feminina que fica na Avenida Eduardo Ribeiro, no centro de Manaus, estão fechadas. Mas isso não impede que as irmãs comerciantes Nilda, de 45 anos, e Ênia Oliveira Neves, de 38, tentem vender alguma coisa. Sentadas em cadeiras, elas oferecem seus produtos a quem passa na frente da loja. Quem quer ver alguma mercadoria é convidado a visitar o interior do estabelecimento. Elas não foram as únicas que tentaram burlar a fiscalização em Manaus. Por toda a capital, as cenas se repetiram nos últimos dias, mas agora furar o lockdown parcial ficou mais fácil graças a um empurrão do governador Wilson Lima (PSC).

“Este decreto não flexibilizou nada, porque a polícia está aqui todo tempo, verificando se a gente está trabalhando ou não. Flexibilizam para os azuizinhos (fiscais do Zona Azul, sistema de estacionamento rotativo do centro) para ganhar dinheiro com os carros e dar dinheiro para a prefeitura. Para a gente, trabalhador verdadeiro, não tem nada flexibilizado, não”, reclama Nilda, que foi uma das muitas lojistas que saiu de casa nesta segunda-feira (8), data de publicação do novo decreto governamental que flexibilizou a circulação de pessoas na capital amazonense.

Várias lojas na Avenida Eduardo Ribeirinho fizeram o mesmo para tentar conseguir comercializar qualquer item que fosse possível. Não pela vontade de burlar as regras, mas pela necessidade de pagar contas que não param de chegar. “O governador não faz nada pelos lojistas. Agora mesmo, está tudo fechado, mas a Amazonas Energia (empresa concessionária de energia elétrica) está cortando a energia das lojas. Como é que eles vão pagar energia se não estão trabalhando?”, protesta Nilda. Especialistas explicam: um lockdown só tem chances de funcionar se as pessoas puderem ficar em casa, e auxílios financeiros podem servir para isso.

“O Simples (regime tributário que une os principais tributos e contribuições existentes no país), está vindo para pagar. Como é que vamos pagar se a gente não está trabalhando? Como vamos pagar o aluguel, os funcionários? Aquela história que o governador falou de dar empréstimo, é tudo conversa fiada”, critica Nilda, apontando para uma loja vizinha que, segundo ela, foi à falência durante a segunda onda. Não só Manaus, mas por todo o Brasil as empresas estão falindo sem apoio das autoridades governamentais.

“Quando acabou a primeira onda (em 2020) e reabriram o centro, disseram que ia ter fiscalização da Vigilância Sanitária. Sabe quantas vezes teve fiscalização aqui? Nunca. Eles não estão preocupados com a população”, desabafa a empresária. Para ela, a fiscalização que deveria ter é quanto ao uso de máscaras e também para evitar aglomerações. “Em outros lugares, se você estiver sem máscara você leva uma multa. Aqui não acontece nada”, reclama.

“O comércio não tem culpa da pandemia. As pessoas não vêm aqui no centro para vagabundear. Não há aglomerações dentro das lojas. Na loja, entra uma, duas pessoas a cada hora. Agora no ônibus é todo mundo entulhado. E aí eu pergunto: por que a prefeitura não aumenta o número de ônibus nas ruas para evitar essa aglomeração?”, questiona a comerciante Nilda.

Não bastasse o prejuízo com o fechamento do comércio, as irmãs e outros comerciantes da área central de Manaus ainda sofrem com os roubos nas lojas. “Os ladrões estão fazendo a festa aqui, roubando tudo. Eles mandam fechar as lojas. A gente se ferra. Falam que tem segurança e não tem. Levaram a fiação da loja, que está no escuro.  Não bastasse tudo ainda temos que pagar um vigia para não levarem o resto”, desabafa Ênia.

As filas nas agências bancárias

Gracie Jordão na fila do banco na avenida Eduardo Ribeiro (Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

Nesta segunda-feira, primeiro dia útil após o governo estadual flexibilizar o lockdown parcial, o centro de Manaus presenciou várias aglomerações nas portas das agências bancárias públicas ou privadas. “É constrangedor pra gente, né? Eu estou aqui há mais de uma hora e até agora nada. Essa fila aqui é pra tudo, pra atendimento, caixa eletrônico, caixa normal aí fica difícil, né?”, reclama a autônoma Gracie Jordão, de 37 anos.

Como outros clientes dos bancos, Gracie não entende como as agências continuam lotadas, mesmo com a necessidade maior de se evitar aglomerações nesta segunda onda da pandemia de Covid-19. “Isso é revoltante. Já estamos há quase um ano nessa história de pandemia e é sempre do mesmo jeito.  Eu vim aqui falar com a gerência. Sabe Deus que horas eu vou sair daqui”, diz a autônoma.

As filas intermináveis dos bancos não se restringiram única e exclusivamente ao centro de Manaus. Nas zonas Norte e Leste da cidade, as mais pobres e populosas, muita gente ficou na fila e embaixo de muita chuva.

O comércio vive dias normais na periferia de Manaus

Comércio na Avenida Grande Circular, zona leste de manaus (Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

Se no centro de Manaus o policiamento mais ostensivo fez com que os lojistas tivessem um pouco mais de trabalho, as zonas Norte e Leste foram o território livre para o comércio. Muitas lojas abriram sem a menor cerimônia, principalmente as  localizadas na Avenida Grande Circular, na zona Leste de Manaus.

A reportagem da Amazônia Real questionou a Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM), para saber quantas empresas haviam sido autuadas por abrir suas atividades de forma irregular. Até o momento da publicação desta reportagem, o relatório de atuações não havia sido concluído pela secretaria.

A reportagem também questionou o governo do Estado a respeito da ajuda prometida aos empresários. Em nota, o governo afirma que “mantém diálogo com os setores afetados pela pandemia para discutir alternativas que minimizem perdas”. Na nota, o governo relata ainda que “foi liberado, por meio da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam), linhas de crédito aos setores primário (agronegócio), secundário (indústria) e terciário (comércio e serviço), como alternativa para minimizar os impactos econômicos da pandemia”. 

Relaxamento de lockdown recebe críticas

Comerciantes do centro deram um jeitinho (Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

O novo decreto governamental que relaxou a circulação de pessoas – antes vetada em 24 horas, numa espécie de lockdown parcial – começou a valer a partir desta segunda-feira (8). No novo decreto, o governo restringe a circulação de pessoas das 19 às 6 horas. O decreto vai na contramão da comunidade científica, que recomendou lockdown para a capital amazonense, para frear a disseminação do novo coronavírus.

No mês de janeiro, o Amazonas registrou o maior número de casos e de mortes por Covid-19, desde o início da pandemia, em março de 2020. Foram 66.381 novos casos com 2.832 mortes pela doença em todo o Estado, estabelecendo um novo recorde. Foi uma média de 91,3 mortes por dia, do período mais crítico de faltou oxigênio para pacientes em UTIs.

Até então, maio havia sido o mês com o maior número de óbitos pela doença com 1.627 mortes e também o de maior número de casos novos da doença: 36.123.

Doutorando do programa de biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Lucas Ferrante tem analisado em detalhes a escalada da pandemia. “O número expressivo de mortes que foi visto no mês de janeiro, superando todos os meses anteriores, já havia sido anunciado pelo nosso grupo, inclusive modelos epidemiológicos apresentados tanto ao Ministério Público quanto à FVS (Fundação de Vigilância Sanitária), como na Aleam (Assembleia Legislativa)”, diz. 

“A segunda onda, ela se mostrou presente como nós já avisamos, desde agosto do ano passado, numa publicação na revista Nature Medicine, e agora estamos apontando que o grande número de mortes observados em janeiro irá resultar num prolongamento da pandemia. Essa pequena queda que evidenciamos por esse isolamento social parcial que foi implementado em Manaus não é suficiente para conter o avanço da pandemia na cidade e precisamos de medidas mais restritivas, senão os números vão voltar a subir”, alerta Ferrante.  

Retrocesso baseado em não-evidências científicas

Para o pesquisador Lucas Ferrante, o retrocesso nas medidas de isolamento custará caro ao Estado e ao povo amazonense. De acordo com o pesquisador, as autoridades continuam negligenciando os estudos científicos, baseados em modelos epidemiológicos, para a tomada de decisões. Se eles tivessem sido levados em conta, já na primeira onda, mortes teriam sido evitadas e o Amazonas teria contido a segunda onda, que se mostra mais mortal que a primeira. 

“O cenário é grave e se projeta já uma terceira onda e o governador (Wilson Lima) está sendo mais uma vez negligente não tomando medidas cabíveis para contê-la”, explica Ferrante. O pesquisador enfatiza que é importante deixar claro que a nova cepa não foi a responsável por ter causado a segunda onda, como se apressaram a afirmar o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, e autoridades locais do Amazonas. “Na verdade, essa nova cepa surgiu na segunda onda pela maior circulação viral. Comprovou-se uma negligência do governo do Amazonas, precisa-se instaurar um inquérito para averiguar isso contra o governador, porque caracteriza um crime contra a saúde pública.”

Em 7 de agosto, Ferrante assinou o artigo publicado na revista Nature Medicine, um dos periódicos científicos mais consagrados do mundo, em 7 de agosto de 2020, sob o título “As políticas brasileiras condenam a Amazônia a uma segunda onda de covid-19” (em português). O que se vê agora, quando os governos estadual e municipal subestimam o vírus letal e flexibilizam o já frágil lockdown parcial, é que as autoridades continuam cometendo os mesmos erros, mesmo tendo sido alertados.

Movimento no centro de Manaus (Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real

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