Melhorar planejamento e licenciamento reduziria impactos ferroviários à fauna

Mortandade de animais pode crescer com projetados 50 mil quilômetros de novas linhas para escoar produtos agropecuários e minerais, inclusive pela Amazônia

Evitar a escalada de mortes de animais diante da expansão da malha ferroviária nacional depende de melhorias no planejamento da infraestrutura e no licenciamento ambiental. Ampliar e qualificar o monitoramento de impactos e adotar equipamentos realmente protetores da fauna são outras medidas apontadas por especialistas.

Obras listadas pelo governo com recursos exclusivos e grande autonomia do setor privado podem adicionar 48 mil km de ferrovias ao país, focadas no transporte de grãos e de minérios para consumo interno e exportações. O acréscimo é de 165% sobre os atuais 29 mil km de linhas. A floresta amazônica pode receber 14 mil km de trilhos.

Um quelônio morto após ficar preso entre trilhos/ Foto: Divulgação Rumo

Diante das projeções, a doutora em Ecologia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), Fernanda Abra, pede que não se despreze a matança de animais por trens, mesmo que trafeguem em comboios e com menor frequência do que veículos. 

“Ferrovias matam muita fauna, sobretudo de pequeno porte, mas tudo é menos visível e menos divulgado. É mais difícil mensurar seus impactos porque as linhas estão geralmente em locais remotos e sem acesso fácil, como às rodovias”, destacou a bióloga, que atua com ecologia viária no país todo.

Tentando cruzar as linhas, animais pequenos como tartarugas e jabutis, tatus e lagartos podem morrer atropelados ou por ficarem retidos entre os trilhos. Espécimes maiores, como antas e tamanduás, casualmente são atingidos por trens e suas carcaças são identificadas com maior facilidade.

Um estudo publicado na Science of the Total Environment apontou que, entre 2013 e 2017, mais de 10 mil sapos foram mortos por ano nos quase 900 km da Estrada de Ferro Carajás, do Pará ao Maranhão. No trecho, comboios para cargas e passageiros têm até 330 vagões e 3,5 km de comprimento.

No European Journal of Wildlife Research, outra pesquisa estimou 4,3 mil mamíferos mortos em dois anos de monitoramento em 750 km de uma ferrovia no Cerrado, entre o Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O tatupeba (Euphractus sexcinctus) foi uma das maiores vítimas.

Mas pesquisas como essas são pontuais. Não há estatísticas públicas consolidadas para a mortandade de animais em ferrovias. Já nos 1,7  milhão de km de rodovias e estradas do país, quase 500 milhões de espécimes perdem a vida anualmente, calculou a Universidade Federal de Lavras (MG).

Parte da Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes, Reginaldo Cruz avalia que novas ferrovias estão saindo do papel “do jeito que sempre saíram”. Segundo ele, estudos ambientais apenas listam espécies e não mudam os traçados de linhas para melhor proteger ambientes e animais.

“Temos que priorizar a conservação e não a burocracia. Faltam diagnósticos efetivos e contínuos dos impactos sobre os mosaicos de paisagens e diferentes espécies nas áreas influenciadas pelas ferrovias para que sejam adotadas as melhores ações para conter a mortandade de animais”, ressaltou o biólogo.

Viaduto de Fauna/ Imagem: Divulgação/Vale

Números e pontos de espécimes atropelados em ferrovias poderiam inspirar medidas para preservar animais e ambientes naturais no licenciamento de novos trechos. Mas falta controle e pressão públicos para que empreendedores adotem isso em maior escala, constatou Fernanda Abra. 

“Estudos e condicionantes do licenciamento existem pra dar conta disso [reduzir a morte de animais]. Se for reforçado, as obras viárias seriam menos impactantes, mas o licenciamento é enfraquecido diariamente”, lembrou a pesquisadora.

O governo Jair Bolsonaro aprofundou o sucateamento de órgãos licenciadores de obras. Alinhados ao executivo e parte do setor privado, projetos no Congresso tiram força e repassam boa parte do licenciamento aos estados, onde podem sofrer ainda maiores manipulações político-econômicas. 

Equipamentos salva-vidas

Maior operadora ferroviária do país, a Rumo afirmou por email que desde 2010 monitora, sinaliza, instala canaletas, cercas e passagens para proteger espécies como o tigre-d’água, jabutis, anta, lobo-guará e tamanduá-bandeira em parte de seus 14 mil km de trilhos. “A Rumo acrescenta ações em seus planos que vão além da previsão legal”, disse. 

“São registradas em um banco de dados as ocorrências de todos os animais mortos (silvestres e domésticos). Após anos de coleta de informações, os dados foram analisados de forma sistemática para identificar quais trechos [das vias] eram críticos ao atropelamento de fauna. A partir desse estudo nasceram os planos de mitigação”, descreveu a nota da empresa.

“Os dados mostram alta fatalidade, mas falta monitorar a mortalidade total, medidas concretas e de larga escala contra mortes de animais em ferrovias no país”, destacou Fernanda Zimmermann, do Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Pará, os dois primeiros viadutos ferroviários vegetados do país foram instalados em 2017, num trecho de 100 km entre uma mina de ferro da Vale e a Estrada de Ferro Carajás. O licenciamento da obra, através de uma floresta nacional, também exigiu cercas e outros tipos de passagens para animais.

“Em países europeus, viadutos vegetados também reconectam paisagens fragmentadas”, lembrou a bióloga Fernanda Abra.

Inovações também podem salvar espécimes. Inaudível às pessoas, o ultrassom para afastar animais selvagens e domésticos antes da passagem dos trens será testado este ano em trechos da Estrada de Ferro Vitória-Minas. O projeto é de alunos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). 

“Inúmeras espécies são sensíveis a faixas ultrassônicas. O sistema inova, pois nem todas as espécies são atendidas pelos meios tradicionais [contra atropelamentos, como passagens e cercas]”, disse o estudante de Biologia Pedro Sartori, ligado a um grupo de pesquisas na UFES sobre atropelamentos de fauna. 

Por Aldem Bourscheit
Fonte: O Eco