Militarização, guerra às drogas e pobreza acentuada explicam conflitos em Manaus (AM)

Militarização somada à pobreza e à guerra às drogas deixa Manaus em constante conflito, aponta sociólogo Israel Pinheiro

Carros incendiados em frente à Unidade Básica de Saúde (UBS) 50, localizada no bairro Adrianópolis, em Manaus – Alberto César Araújo/Amazônia Real

Manaus (AM) tem sido o centro de uma série de crises na pandemia: falta de oxigênio para pacientes com covid-19, a constatação de uma nova variante mais transmissível da doença, investigações de corrupção. Além disso, há pouco mais de uma semana, a população vivenciou nas ruas uma violência desmedida.

Para entender o caso, o Brasil de Fato conversou com o sociólogo Israel Pinheiro, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Em sua análise, a militarização da cidade somada a pobreza e a guerra bélica no combate às drogas tornam a cidade um território em que as instituições vivem em constante conflito.

O clima foi de pavor, com ônibus e ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) queimadas, incêndios a prédios públicos além de ameaças a políticos. Professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Israel estuda o tema da segurança pública se debruçando sobre a sociologia da violência.

Confira abaixo a entrevista.

Brasil de Fato: Existe algo capaz de explicar os ataques na cidade de Manaus entre os dias 5 e 8 de junho deste ano?

Israel Pinheiro: Há três pontos fundamentais para a gente entender esse caso, que tem a ver com a questão da guerra às drogas na Amazônia como território. Atualmente, temos essa política de forma bélica para enfrentar os psicoativos, em geral, os que são e os que não são proibidos.

Esse processo envolve uma injeção de dinheiro tanto no Estado, quanto no crime. Logo, temos esse conflito no qual a Amazônia se torna um território em disputa, porque ela é uma das principais rotas de envio independente não só de psicoativos, mas de todo o tipo, uma vez que aqui também é rota do tráfico de madeira e do tráfico de minério.

A Amazônia em si tem diversas saídas e diversas entradas. Normalmente, quando se utiliza dessa explicação das drogas se recorre, inicialmente, para isso, mas essa não é uma disputa, somente, do mercado varejista de psicoativos, estamos falando de um conjunto de dinheiro muito grande.

Para além da forma como se combate os psicoativos, quais são os outros motivos?

Os outros têm a ver com um profundo militarismo e conservadorismo na cidade de Manaus, que faz com que o Estado, o crime e a polícia estejam sempre em “pé de guerra” e muitas vezes você não consiga discernir o que é a polícia, o que é o crime e o que é o Estado, porque fica de maneira indiscernível. 

O que ocasionou isso foi a morte de uma figura do tráfico muito conhecida, que segundo relatos da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), teria sido executada durante uma troca de tiros, mas na verdade há relatos de que ele foi executado na frente da casa dos pais dele.

Isso acabou gerando uma revolta entre os “soldados do crime” e depois houve como o próprio secretário de segurança pública, coronel Louismar Bonates, informou, uma ordem que saiu da prisão, para que se fizesse essa queima de ônibus, entre outras coisas. De certa forma, isso causou um grande pânico nas pessoas.

Essa é a primeira vez que as facções realizam ações em espaços públicos?

Na verdade, não é a primeira vez que a gente tem manifestações das facções de maneira mais pública. Há alguns anos tivemos uma queima de fogos no aniversário de um dos principais líderes de umas das facções daqui, mas essa questão agora é diferente, houve ataques em espaços públicos: ônibus foram queimados, ambulâncias do SAMU, táxis. Na capital e nos interiores do Amazonas, todas as cidades tiveram algum tipo de movimentação.

Além da forma como é direcionada a política de combate às drogas e da militarização que citastes, qual é o último ponto que está por trás dos ataques na cidade de Manaus? 

Outro ponto importante é o caso da pobreza e extrema pobreza, que a gente encontra no Norte e na Amazônia. No Amazonas especificamente, tivemos um aumento da pobreza de 20% a 30% com relação ao ano passado. Assim, cerca de 42% a 43% da população do Estado vive abaixo da linha da pobreza, segundo dados do Instituto Brasileiro de geografia e Estatística (IBGE).

Assim, temos praticamente metade da população na pobreza tanto na capital quanto nos interiores. Fora o risco alimentar. A questão de você saber se vai ou não comer, tudo isso está relacionado, porque voltamos ao mapa da fome. Faço essa relação porque é uma disputa também por recursos e quem está disputando? Ora o Estado, ora o crime, ora a sociedade. 

Nesse momento de fragilidade econômica, social, pandêmica, a gente também está passando por uma crise sanitária, sendo que é até difícil usar a palavra crise, porque não é bem uma crise. O sociólogo Immanuel Maurice Wallerstein fala que na verdade é como se fosse uma “derrapagem”. Ele tira esse termo francês dérapage, que no português seria uma espécie de “extrapolação de algo que é comum”. 

É meio isso que aconteceu aqui nesses ataques, a gente tem a presença do crime, a gente tem a presença da polícia e a polícia vem extrapolando muito, o crime também vem extrapolando, isso acabou exacerbando de certa forma, o que ganhou a esfera pública para além da mídia local, porque foi um ataque ordenado e coordenado na direção de símbolos públicos. A ideia era essa, uma mensagem foi passada nesse sentido, que tem haver com o poder público.

Isso significa que essa relação entre Estado e facções está conflituosa neste momento?

Quando eu falo extrapolar, também me refiro a uma posição extremada, como se a gente tivesse chegado ao limite desses determinados acordos, desses determinados conflitos para além desses limites estabelecidos. O que acontece aqui é que a dinâmica entre facções e Estado é sempre uma guerra. 

No final de 2019 houve uma Chacina no Crespo, acredito que esse é o termo que podemos utilizar, porque 19 jovens foram mortos. Desses 19, nenhum tinha acima de 30 anos e a versão oficial diz que foi uma troca de tiros, mas nenhum policial foi ferido e o coronel responsável falou que a ordem era para matar.

Quando você assume essa postura e, recentemente, se assumiu de novo essa postura publicamente pelas forças de segurança militar, a ordem é para matar. Quem planta guerra só vai colher corpo, na verdade é para isso que estamos caminhando. 

O ideal seria agir de outra forma. Até onde eu sei, no mundo inteiro, nenhuma política bélica de guerra às drogas têm funcionado, sempre as ações só surtem efeito quando é feito com aquilo que se chama de inteligência e de estratégia.

Na minha avaliação, não é estratégico eles assumirem que vão atirar para matar. Por isso, falei que tem haver com um certo conservadorismo e militarismo exacerbado nas forças de segurança pública e isso vai sendo refletido na reação das facções.

Aqui a relação muitas vezes é indiscernível, às vezes ela pode parecer com esse discurso de guerra: “Agora a gente está aqui para matar”. E em determinados momentos pode parecer que nada está sendo feito, porque não se fala nada sobre determinados assuntos, inclusive, é arriscado falar sobre determinados assuntos publicamente correndo o risco de você pender para um lado ou para o outro, de correr risco de vida, porque somos uma cidade extremamente militarizada.

Não parece, mas Manaus é extremamente militarizada. Ela tem diversos grupos que não são chamados de milícias, mas tem uma rede de policiamento muito extensiva, uma cidade que tem bastante policiais, da mesma forma que temos uma rede do crime extremamente extensiva que você não sabe onde termina e onde começa o Estado.

Esse processo de militarização se acentua com o discurso do presidente Jair Bolsonaro? 

Tem sim um aprofundamento no discurso, na suposição e em determinados discursos militaristas como também no processo de militarização das escolas de ensino público.

Em Manaus (AM) ocorreram diversos casos de assédio e de estupro dentro das escolas, depois do processo de militarização, que não melhora em nada o quadro da educação pública. Pelo contrário, esse processo finge, e maquia a cidade para que se tenha a aparência de que ela está melhor.

Isso aconteceu com a chegada do governo Bolsonaro no poder, com o pós-golpe de 2016 isso se acentuou no estado do Amazonas, mas isso independente de politica de esquerda ou de direita aqui em Manaus e isso que é o triste, porque a maioria defendeu esse processo de militarização. 

Esse discurso se torna mais público nesse período do governo Bolsonaro, mas não quer dizer que o processo de militarização, na cidade de Manaus, não fosse anterior a isso, já existia uma estrutura disponível, que vem desde o início do século XX.

Logo, se a gente puder traçar um período, essa é uma marca da cidade de Manaus por dois motivos: a primeira é que se coloca a ideia de fronteira, fronteira em relação ao centro que é o sudeste e aqui é o norte, extremo norte sendo a fronteira em relação a esse centro.

Ao se criar essa ideia, se cria essa ideia de militarização, de bases militares, contingente militar instituído na nossa região e a gente tem uma população de policiais muito extensa também, em diversos bairros com policiais morando, sustentando e criando determinados negócios, mercados pequenos. 

Então, a gente tem uma cidade altamente militarizada sem dizer que ela é militarizada, esse que é o grande jogo. Talvez o neoliberalismo no Amazonas se trace dessa forma aliado ao militarismo e ao conservadorismo diferente de outros locais, isso, inclusive, influência nas redes de organização de movimento sociais.

Por que tu achas que isso interfere na organização de movimentos sociais?

A gente não tem, institucionalmente, uma esquerda forte e organizada. Digo, a gente até tem, mas não como uma potência na esfera pública que alcance reverberação.

Muitas vezes a gente só consegue [ser ouvido] quando dialoga com movimentos fora da cidade de Manaus, por isso, a importância de estabelecer movimentos em rede, e das pessoas e dos movimentos do sudeste pensarem um pouco mais em como fortalecer as região. 
 
Isso também é importante, mas não só fortalecer, porque tem também uma modulação do colonial. Nesse sentido a gente precisa tomar também uma postura anticolonial, porque muito do que acontece em Manaus é resultado desse processo colonialista, que se deu aqui de maneira extremamente violenta, que acaba invisibilizando negros, invisibilizando indígenas, que acentua a violência contra as mulheres. Todo esse conjunto em Manaus é mais exacerbado.

Isso não tem haver com instituições enfraquecidas. Na verdade, as instituições aqui no Amazonas são muito bem fortalecidas. A gente tem um judiciário totalmente estruturado a partir de famílias, netos, dos mesmos que ocupavam os cargos. Eles herdam praticamente esses cargos e estão no judiciário. Então, tem essa herança aqui em Manaus, todo esse conjunto que é atípico em relação a outros locais e outros lugares. 

Sem contar também que como se criou essa ideia de fronteira, quando acontece alguma coisa aqui é como se não fizesse parte do resto do Brasil, pelo menos é essa a percepção que eu tenho. Agora, isso tem relação com os ataques? Tem também, porque isso faz com que essas estruturas, conservadores, militares, avancem e impeçam um contra-discurso ou discursos que valorizem, por exemplo, os direitos humanos. E o resultado é o que temos.

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato