Mortes por tiros de dois isolados Moxihatëtëa alertam para extinção na terra Yanomami

Em 2019, mais dois indígenas desse povo foram mortos, o que significa a perda de 5% da população (de 80 pessoas) em conflitos em apenas três anos, diz a Hutukara. Na imagem, a aldeia dos isolados (Foto: Guilherme Gnipper/ FPEYY/Funai/2016)

Em cinco anos, os indígenas isolados Moxihatëtëa deixaram de enfrentar “o risco à integridade” física, como classificou a Fundação Nacional do Índio (Funai) em 2016, quando fez um avistamento do grupo na Terra Indígena Yanomami, para combater com suas flechas a morte por arma de fogo de garimpeiros de ouro ilegal. Em agosto passado, segundo a Hutukara Associação Yanomami (HAY), dois isolados do povo Moxihatëtëa foram assassinados em um ataque dos “brancos” na região alto rio Apiaú, no município de Mucajaí, no sul de Roraima.

Até junho de 2011, os Moxihatëtëa eram considerados desaparecidos. Durante o avistamento em sobrevoo, servidores da Funai localizaram uma grande maloca na região do extremo norte de Roraima, na fronteira com a Venezuela. A notícia correu o mundo e, na ocasião, foi publicada pela agência Amazônia Real. A Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’Kuana (FPEYY), órgão ligado à Funai responsável pelo monitoramento e proteção dos povos isolados, e a HAY informaram que aquele grupo de indígenas, que já sofria com a aproximação dos garimpos.

Os Moxihatëtëa pertencem a um subgrupo Yanomami de denominação Yawaripë. Hoje, suas malocas estão no foco dos garimpos ilegais de ouro na terra indígena. Uma área de mais de cem hectares de floresta foi destruída pelos garimpeiros. 

Segundo a HAY, as duas mortes aconteceram durante um confronto. Com as flechas nas mãos, os  Moxihatëtëa tentaram expulsar os garimpeiros, que estavam munidos com armas de fogo. “Os isolados acertaram três garimpeiros. Uma das flechas atiradas foi recolhida por um jovem Yanomami, da região do alto Mucajaí, que frequentava o garimpo na ocasião. Ele testemunhou o episódio”, diz em nota a HAY. O artefato, hoje, se encontra em uma comunidade da região do Apiaú. 

Conforme a HAY, esse não é o primeiro conflito violento entre os isolados e os garimpeiros. “Em 2019, professores Yanomami do Alto Catrimani relataram que dois caçadores Moxihatëtëa haviam sido mortos com tiros de espingardas após terem defendido com flechas seus roçados de uma tentativa de roubo por parte dos garimpeiros. Na ocasião, a HAY informou os órgãos competentes, mas não obteve respostas sobre uma eventual investigação”, diz trecho do comunicado da HAY.

Em 2016, durante o avistamento, as fotografias aéreas realizadas por servidores da Funai mostraram a casa-coletiva dos Moxihatëtëa e indicava a existência de 17 seções familiares. A partir desse número, estima-se que a população total desse grupo seja da ordem de 80 pessoas. “Quatro assassinatos, nesse caso, significam então a perda de 5% da população por morte em conflitos em apenas três anos”, diz a Hutukara Associação Yanomami. 

Além das mortes, ataques e destruição do meio ambiente, o contato dos garimpeiros com os indígenas isolados Moxihatëtëa, pode levar a novas doenças infecciosas, impactando de forma grave a saúde coletiva do grupo. À Amazônia Real, o professor de antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Rogério Duarte, disse que esse povo corre um grande risco de extermínio. 

“Esses povos isolados não têm acesso a nenhuma política de saúde, por exemplo, vacinação. Não tem os anticorpos necessários para se proteger das doenças. Como estão isolados eles não têm acesso ou nunca tiveram e aí realmente eles ficam em uma situação de vulnerabilidade epidemiológica muito maior ainda que os outros. Em geral, esses grupos não são muito grandes; então, a chance de uma doença entre no território e acabe dizimando todo mundo é muito grande”.

Maloca do povo indígena isolado Moxihatëtëa (Foto: Guilherme Gnipper/ FPEYY/ Funai)

Ao jornal O Globo, Junior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY),  denunciou que indígenas de outra etnia, Ninam, teriam escoltado os garimpeiros durante a ação, que acabou em confronto e mortes dos Moxihatëtëa.  O conflito foi no garimpo “Faixa Preta” distante cinco quilômetros da extração ilegal de ouro. 

Já a Hutukara Associação Yanomami, liderada por Davi Kopenawa e seu filho Dario Yanomami, alertou as autoridades como Funai e Polícia Federal sobre a possibilidade de novos conflitos. “Em razão do sistema tradicional de justiça da cultura Yanomami, é possível que os Moxihatëtëa organizem novas investidas contra os núcleos garimpeiros para compensar as mortes sofridas, assim, a situação de conflito pode se estender, resultando em mais mortes e chacinas”, diz o documento. 

Nesta terça-feira (02), a HAY enviou ofício às autoridades pedindo, mais uma vez, providências. “Solicitamos  aos órgãos responsáveis que investiguem o ocorrido, considerando a grande vulnerabilidade epidemiológica das famílias em isolamento voluntário, e tomem medidas urgentes para proteger o grupo de novos confrontos e contatos forçados”.

Diante da gravidade do ocorrido, a HAY pediu investigação das mortes. O documento foi enviado também ao Exército Brasileiro e ao Ministério Público Federal (MPF). “Considerando a grande vulnerabilidade epidemiológica das famílias em isolamento voluntário, que  tomem medidas urgentes para proteger o grupo de novos confrontos e contatos forçados”. A organização pediu ainda que “sejam adotadas urgentemente ações de repressão do garimpo ilegal nas proximidades do território dos Moxihatëtëma, e sejam plenamente retomadas as atividades da BAPE Serra da Estrutura, com rotina de incursões para identificar e desmantelar núcleos garimpeiros instalados na região”. 

A reportagem da Amazônia Real enviou perguntas por e-mail à Funai, Polícia Federal e MPF de Roraima solicitando informações sobre quais medidas providenciaram para investigar os crimes e proteger os indígenas isolados Moxihatëtëa.  A Funai acusou o recebimento da demanda da agência e disse que responderia, o que está sendo aguardado. A PF e o MPF não responderam os e-mails até a publicação desta matéria.

Saúde dos isolados ameaçada 

Garimpo é visto próximo a malocas na região do Homoxi na Terra Indigena Yanomami
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Segundo a Hutukara, os Yanomami formam uma sociedade de caçadores-agricultores moradores da floresta tropical. O território fica situado entre os estados do Amazonas e Roraima e cobre, aproximadamente, 9.664.975 hectares. Os linguistas classificam quatro subgrupos que falam línguas da mesma família (Yanomae ou Yanomama, Yanomami, Sanöma, Yawari, Waika, Yanomami, Xirixana e Ninam). “Entre nós reconhecemos um conjunto cultural e lingüístico composto de nove línguas Yanomami e a língua Ye’kuana que também está presente em nosso território”, diz a associação.

O professor de antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Rogério Duarte, que trabalha com o povo Yanomami desde 1998, as políticas públicas de defesa dos indígenas não alcançam os povos isolados Moxihatëtëa. “Para esses povos tudo fica mais grave. Tendo em vista os mecanismos de denúncias que são mais difíceis, eles tentam resolver seus problemas no seu próprio jeito, vão lá no corpo a corpo defender seus territórios. Em geral, eles têm menos conhecimentos sobre mecanismos de denúncias e agem exclusivamente a partir da lógica do seu próprio modo de  ser”. 

O antropólogo ressalta que os povos indígenas isolados se tornam mais vulneráveis com a presença do garimpo. “Começa com impacto gigantesco, no ponto de vista ambiental, afetando diretamente todo o suporte da vida humana desse povo. Com a poluição, contaminação, o garimpo desestrutura a capacidade de suporte para sobrevivência. Também tem a desestruturação social, com aliciamento de pessoas para o garimpo, distribuição de arma de fogo. No caso dos isolados tudo fica mais grave, mesmo sendo povos isolados precisam urgentemente  de segurança, saúde e proteção do seu território”.

Desde o mês de maio deste ano, a agência Amazônia Real vem relatando denúncias dos Yanomami sobre ataques com arma de fogo contra aldeias e indígenas. A Polícia Federal investiga o envolvimento dos garimpeiros com a facção criminosa PCC. No dia 10 daquele mês, os indígenas da aldeia Palimiú foram surpreendidos com disparos de tiros vindo de uma embarcação. Eles revidaram com flechas e tiros de espingarda. Segundo o presidente do Considi-Y, Junior Hekurari, até mesmo a vestimenta dos invasores era diferente. Na comunidade, foram recolhidas dezenas de cápsulas. “Eram balas de fuzil, metralhadora, pistola 40, calibre 28, calibre 12, tudo misturado. É uma facção verdadeira que entrou na Terra Yanomami”. 

Em outubro, mais duas crianças foram encontradas mortas por afogamento. Enquanto elas nadavam, foram sugadas e cuspidas para o meio do rio por uma balsa que operava ilegalmente na região do Parima, município de Alto Alegre. O corpo de um menino de 7 anos foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros após dois dias de buscas. Um dia antes, os moradores da comunidade Makuxi Yano já haviam localizado o corpo do outro desaparecido, um menino de 5 anos. Não foi um acidente, mas mais um assassinato cometido pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.

Antes, a série Ouro do Sangue Yanomami foi publicada pela Amazônia Real em parceria com a Repórter Brasil, e denunciou o caso de uma funcionária da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) que tentava negociar ouro do garimpo ilegal em Boa Vista. O  Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’Kuana (Condisi-YY) denunciou que 106 vacinas contra a Covid-19 foram desviadas para garimpeiros pelos profissionais de saúde em vez de imunizar os indígenas.

Leia o histórico de violações contra os Yanomami.

Por: Ana Lucia Montel
Fonte: Amazônia Real