Movimento trans pede Justiça pela morte da atriz Manuella Otto, em Manaus

Movimento trans pede Justiça pela morte da atriz Manuella Otto, em Manaus
Soldado da Polícia Militar é suspeito de envolvimento no crime de transfobia, que coloca o Amazonas como um dos estados brasileiros que mais mata pessoas trans (Foto de arquivo pessoal)

Na madrugada de sábado (13), por volta de 1h34, funcionários do motel “Minha Pousada”, localizado na zona Norte de Manaus, ouviram disparos de tiros vindo de um dos quartos. Um homem é filmado pelas câmeras de segurança saindo com pressa com uma pistola na mão e encobrindo o rosto com uma camiseta. As imagens também mostram que ele tem uma tatuagem nas costas, na região do omoplata direito. Sem conseguir abrir a porta da garagem do motel, o homem usa o veículo e arromba a porta do estacionamento, deixando a cena do crime brutal contra a atriz, produtora, empresária do ramo de animação de festas infantis e ativista do movimento Trans, Manuella Otto, de 25 anos.

O homem que matou Manu, como era mais conhecida  a defensora dos direitos de pessoas travestis e transexuais do Amazonas, disparou dois tiros contra ela, que não teve a chance de se defender: um disparo atingiu as costas e atravessou o tórax; o outro o braço esquerdo, segundo o laudo do Instituto Médico Legal (IML). O homem em fuga foi identificado como sendo o soldado da Policial Militar Jeremias da Costa Silva, que é lotado na 12ª Companhia Interativa Comunitária (Cicon).

O veículo usado na fuga é um Chevrolet Prisma, de cor branca e placas PHJ-1418, de propriedade do soldado Jeremias.  A Polícia Militar do Amazonas informou que abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para analisar o suposto envolvimento do policial no crime de homicídio, mas ainda não o apresentou à Delegacia Especializada em Homicídios, em Manaus. A PM informou que ele estava afastado das atividades policiais no dia do crime (leia nota no final do texto).

Fim da manhã desta segunda-feira (15) de Carnaval e passadas 48 horas do assassinato de Manu, a Delegacia de Homicídios informou à agência Amazônia Real que não tinha pistas do suspeito soldado Jeremias ou de outros envolvidos no caso.  “O crime foi no sábado, né? Ainda não chegou por aqui. Quando chegarem as informações é que vão destacar alguém para investigar o caso. Mas por enquanto o que tem sobre isso é o que saiu na mídia”, disse um policial à reportagem. Ele pediu para não ser identificado, apesar de ser um agente público que está no cargo para esclarecer crimes.

A revolta é grande entre as ativistas do movimento das pessoas Trans e defensoras de direitos humanos.  “A Manuella era uma atriz, tinha uma companhia de entretenimento infantil. Era uma empresária, fazia animações em festas infantis. Ela chegou a ser professora do Cláudio Santoro e do Sesc. Então, estamos falando de uma pessoa que tinha uma carga de conhecimento, experiência dentro do teatro, e ela teve a sua vida ceifada de forma brutal. Aí tem um algoz que é um policial militar e o silêncio ensurdecedor segurança pública do estado”, lamenta Michele Pires Lima, que faz parte da diretoria da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram). 

A transativista Michele Pires Lima é historiadora e mestranda na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Para ela, a morte de Manuella Otto revela a vulnerabilidade da população transexual no Amazonas, no que diz respeito à segurança. “O caso Manuella Otto é muito triste. A gente não se sente segura e protegida pelos mecanismos de segurança pública. A gente está à mercê. Aí a gente se pergunta, a quem recorrer?”, questiona.  

Veja o vídeo da fuga do assassino de Manu

Violência contra pessoas trans

A morte de Manu aconteceu 15 dias após a data em que o mundo  comemorou a visibilidade trans, em 29 de janeiro. “O Brasil é o País que mais mata pessoas trans, que mais mata travestis, mulheres trans e homens trans no mundo. Então a gente não quer novamente que Manuela se torne uma estatística. Queremos que haja justiça de alguma maneira”, cobrou a historiadora Michele Lima.

Os crimes motivados pela transfobia – discriminação ou preconceito em razão da orientação sexual da pessoa – só crescem no Brasil. Entre os anos de 2017 a 2020, foram registrados 641 assassinatos no País. O ano de 2020 foi recorde neste tipo de crime. Em 2019 foram registrados 124 assassinatos.  Em agosto de 2020, a marca já havia sido superada em 132 homicídios, fechando o ano com 175 mortes, segundo os dados do Dossiê dos Assassinatos e da Violência Contra Pessoas Trans Brasileiras, realizado pela a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

O alto número de homicídios assusta, mas ele pode ser bem maior, uma vez que pelo menos 15 Estados brasileiros deixaram de enviar informações sobre o tema para a ANTRA.

Entre os Estados com a maior incidência de crimes contra pessoas trans está São Paulo, que lidera o ranking entre 2019 e 2020, com 21 casos em 2019, e 29 ocorrências no ano passado.

Em 2019, o Amazonas esteve na nona posição do ranking com cinco crimes. Em 2020, três crimes foram registrados, e o Estado ficou na 16ª posição – mais é um dos que matam mais pessoas trans.

“O dossiê apresenta 175 crimes, mas existe no Brasil um problema muito grande de subnotificação. As pessoas não são tratadas pelo gênero que elas se identificam. Às vezes as pessoas são assassinadas e quando vão conversar com a família, o familiar nega que fosse uma pessoa trans. Temos vários casos no Brasil de mulheres trans que morrem assassinadas e a família enterra como se a pessoa fosse um homem, veste de homem, coloca um terno e que diz que aquela transsexual nunca existiu”, explica a Professora-Pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Lidiany Cavalcante, 41.

“Algumas pessoas dizem: Morrem mais pessoas heterossexuais no Brasil do que pessoas trans. Esse é o discurso de senso comum que a gente ouve muito, mas pessoas heterossexuais não morrem porque são heterossexuais. As pessoas trans morrem justamente porque existe um processo de extrema intolerância contra a orientação sexual e identidade de gênero delas”, pontua Lidiany.

A atriz Manuella Otto em Manaus (Foto: Reprodução redes sociais)

Fundada em 2017, a Assotram tem mais de 200 associadas no Amazonas, divulgou uma nota de repúdio em relação ao tratamento desumanizado que foi dado à Manuella Otto por sites de notícia de Manaus, que não respeitaram a identidade de gênero da atriz. “Nós somos assassinadas, mortas por diferentes razões, sobretudo pela transfobia estrutural que existe na sociedade. Mas também nós somos mortas duplamente, principalmente quando aquele jornalismo sensacionalista negligencia as nossas identidades de gênero e negligencia os nossos nomes, as nossas existências a partir do momento que identifica enquanto homens, mulheres trans e travestis, ou homens trans enquanto mulheres. Fizemos uma nota de repúdio”, explica Michele Pires.

Para a presidente da Assotram, Joyce Lorane, Manaus reflete o que há em todo o País, no que diz respeito à falta de políticas públicas para a comunidade LGBT. “Manaus reflete muito a realidade desse País. O Estado não dispõe de políticas públicas que trabalhem a pauta da diversidade. Não trabalham a pauta LGBT, e aí a gente tem essa questão da Câmara (Municipal de Manaus) de não querer trabalhar gênero nas escolas e isso vai contra a decisão do STF. E todas essas coisas que acontecem evidenciam mais esse processo de violência. Hoje as pessoas se sentem mais livres para praticar esses atos”, disse a transativista.

O que dizem as autoridades

A reportagem de Amazônia Real procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) para falar sobre o caso e a suspeita do envolvimento do policial militar, Jeremias da Costa Silva. A secretaria disse que a “Polícia Militar do Amazonas não compactua com qualquer conduta que fuja a legalidade e adotará todas as providências no campo administrativo e criminal para a elucidação do fato”.

Já a Polícia Militar do Amazonas informou por nota que “a Diretoria de Justiça e Disciplina (DJD) da Corporação está acompanhando o caso e já instaurou Inquérito Policial Militar (IPM) para analisar o suposto envolvimento do policial no crime de homicídio”.

A corporação informou que na data do crime, o PM Jeremias estava afastado de suas atividades operacionais e administrativas por motivos de saúde. Todos os elementos apresentados durante a ação investigatória serão apurados da forma transparente, respeitando o direito ao contraditório e à ampla defesa”, disse a nota.

Notas de repúdio nas redes

A atriz Manuella Otto (Foto: Reprodução redes sociais)

O corpo de Manuella Otto foi sepultado na manhã desta segunda-feira (15) no cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, na zona oeste de Manaus. A morte da triz causou grande comoção nas redes socias. O artista Leonardo Scantbelruy pediu Justiça. “Ainda não tô conseguindo pensar/escrever direito, é tanta angústia e indignação, estou como um nó. Manuella era uma mulher negra, trans, estudava administração e inglês, era uma artista, produtora de festas, estava no corre dessas desigualdades, tinha apenas 25 anos, uma vida pela frente. Ontem (13)  brutalmente assassinada, um crime de ódio contra sua/nossa existência. Até quando essa barbaridade vai ser real e cotidiana? Até quando nossos corpos e lutas estarão subordinadas a essa situação? Eu quero justiça”.

As Secretarias Nacionais de Mulheres e LGBT do Partido dos Trabalhadores (PT) exigiram em nota oficial a investigação e Justiça para a militante petista e defensora dos direitos de pessoas transgêneras,  ao mesmo tempo em que nos solidarizamos à sua família e amigos. “O assassino foi identificado pela polícia como sendo o policial militar Jeremias da Costa Silva. O Partido dos Trabalhadores, através das suas secretarias de Mulheres e LGBT irá acompanhar o caso que já está sendo investigado pela polícia local e apela pela prisão imediata do assassino, bem como a tipificação correta deste Transfemicídio identificando a Transfobia que levou ao homicídio de Manuella”.

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *