Mulheres amazonenses sentem os efeitos da crise climática

Sexta feira, dia de colheita, “é sufoco”. Dona Fátima costuma deixar a comida pronta na geladeira e quando chega da feira de orgânicos – o que ocorre todo sábado na zona centro-oeste de Manaus -, cansada, primeiro vai tomar um banho e depois esquentar o almoço para ela e seu marido, com quem vive; às vezes aproveita para descansar. Como não tem ajuda de uma terceira pessoa, ela tenta se planejar para organizar a semana. “É assim a luta. Às vezes fica tudo bagunçado e eu vou limpar no domingo, dia de relaxar um pouco”. Esse relato é de Maria de Fátima Zuazo, 60 anos, proprietária do sítio Ouro Verde, e coordenadora da Associação Maniva de Certificação Participativa (OPAC). O sítio fica na comunidade Unidos Venceremos, localizada na rodovia BR-174, que liga os estados do Amazonas e Roraima.

Com mais de dez anos de experiência, ela fala sobre como lida com a sua rotina pessoal e o trabalho como agricultora, cotidiano que tem sido mais trabalhoso nos últimos anos. Segundo Fátima, de dois anos para cá, muito mudou no campo, e ela relaciona isso à crise climática: “não faz aquela fase de sol. È uma mudança que estamos observando, muita chuva, pouco sol, prejudica um pouco nessa parte da agricultura, com o nosso trabalho. Porque tem plantas que não gostam de muita água, e a céu aberto fica quase inviável de produzir, como o alface”, afirma a produtora. 

Maria de Fátima Zuazo (Foto: Acervo pessoal/via Whasapp)

O relatório “A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: As mulheres no contexto da transformação social e ecológica da economia brasileira” publicado em fevereiro de 2021 e organizado pela ONU Mulheres Brasil, Escritório no Brasil da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), e representação no Brasil da Fundação Friedrich Ebert (FES), aponta que as mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas e em condições de pobreza estão mais expostas aos impactos da ausência de combate às mudanças climáticas, o que pode categorizar o racismo ambiental. 

O racismo ambiental se refere à forma como essa parte da população, moradores de zonas periféricas das cidades e de baixa renda sofrem com a degradação ambiental e com a crise climática, que tem sido intensificada por ações humanas, como o desmatamento – que gera aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, resultando em desastres como inundações e secas.

São alguns fatores que põem as mulheres no grupo de vulneráveis, entre eles, o salário menor que o dos homens e, ao mesmo tempo, estarem se tornando as chefes das residências, arcando com gastos e cuidado da casa e dos filhos. De acordo com dados do IBGE, em 2019, o número de lares chefiados por mulheres chegou a 48%, sendo 63% mulheres pardas ou pretas. Conforme um estudo elaborado pela Carbon Brief, são as mulheres que são mais afetadas pelas injustiças climáticas.

Quem observa isso de perto é Vitória Pinheiro, 25 anos, moradora do bairro Zumbi dos Palmares, localizado na zona leste de Manaus. A ativista, como se denomina, conta como a injustiça climática sempre esteve presente na sua vida, sendo a sua família natural do Pará. Moradores de comunidades ribeirinhas viviam da pesca e após perceberem dificuldades em obter alimentos e oportunidades, migraram para Manaus, onde começaram a habitar na periferia da cidade. 

Vitória afirma que entender a injustiça climática é ter dimensão de como isso afeta na vida real e perceber a estrutura desigual nos espaços de tomada de decisão. “Hoje nós temos essa emergência climática como uma coisa latente e que vai prejudicar, principalmente, os povos marginalizados, indígenas, populações negras, por terem essa condição historicamente posta”.

O documento organizado pela ONU ainda menciona que as mulheres em maiores condições de vulnerabilidades socioeconômicas tendem a contar com menos ferramentas e rendas para enfrentar os impactos da crise climática, como afirma: “para mudar para uma residência em área menos suscetível a deslizamentos de terras ou a inundações, dadas as brechas de salário, empregos, acesso a bens e serviços públicos, representação e direitos”.

A realidade contada por dona Fátima tem sido vivenciada não apenas por ela, mas também por outras mulheres que vivem essa realidade, como a artesã Maria Cristina Pereira da Silva, 58 anos, que mora há cerca de 10 anos às margens do igarapé do Gigante, no bairro da Redenção, zona centro-oeste de Manaus. Ela, que é líder comunitária, conta como tem percebido as alterações climáticas onde mora devido às fortes chuvas que a cidade enfrenta durante o inverno amazônico, como é conhecida regionalmente a estação chuvosa, que vai de novembro a maio. “Temos medo do alagamento quando a chuva cai. O igarapé entra com a força das águas na casa das minhas vizinhas, traz animais mortos”, afirma a artesã. 

Além dos danos físicos, a  preocupação com a saúde  é um fator que Maria Cristina pensa diariamente. “A gente já tem uma certa idade e não tem uma saúde boa, então isso afeta tanto psicologicamente quanto fisicamente. Não está sendo fácil para uma mulher amazonense trabalhar dentro de uma comunidade, é muito difícil”, reflete Cristina.

Com as complicações no campo geradas pelas mudanças climáticas, o faturamento cai, sobrando apenas para o combustível e a alimentação; não sobra nada para uma programação além do trabalho. Somando a isso, com a pandemia da covid-19, as feiras foram interrompidas e, mesmo após o retorno, o público ainda não é o mesmo, tornando o trabalho de Fátima ainda mais exaustivo. Ela precisa buscar outros meios de fazer o produto chegar ao consumidor, como as entregas nas residências.

“Dá até um desânimo. Aquela parte psicológica do produtor, nós somos afetados, porque o que produzimos e vendemos tudo hoje sobra. A céu aberto não dá, e para fazer uma plasticultura tem um custo bem elevado por sinal, e da onde tirar esse dinheiro? Onde está esse apoio?”, a agricultora desabafa. 

Muitos dos alagamentos, deslizamentos e desastres que ocorrem nos centros urbanos, como em Manaus, são observados com naturalidade, apesar de fazerem parte da dinâmica da própria terra, quando encontram-se com sistemas sociais mais vulneráveis, expostos, resulta nos desastres socioambientais, onde as vítimas são, principalmente, mulheres. Quem fala sobre isso é Silvia Saito, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Segundo Silvia Saito, por conta do contexto familiar, onde os homens acabam por migrar e sair em busca de outras fontes de renda é a mulher que começa a dar o sustento da casa, muitas vezes com filhos, gerando um imensa sobrecarga de diversas atividades, e acrescenta:

“Mas não é só a questão da pobreza. É porque temos que olhar para a questão de gênero de uma forma diferenciada, a vulnerabilidade é socialmente construída. Isso se destaca na questão de gênero, as mulheres são as maiores vítimas de desastres, e não é de um ponto de vista não só biológico, não é uma questão de fragilidade” afirma a pesquisadora. 

A pesquisadora Silvia Saito mostra receio com a naturalização dessas ocorrências no contexto da crise climática. Ela acredita que grande parte da sociedade ainda não consegue se adaptar e afirma que a ausência de políticas sociais de apoio à mulher, é uma lacuna ainda.

“A mulher está à frente da família. Ao mesmo tempo que não tem acesso à creches para deixar as crianças, e poder sair para o trabalho. Parece algo desconectado, mas está diretamente relacionado. As políticas públicas precisam olhar para essa questão e pensar nessas mulheres desses diferentes contextos”, comenta a pesquisadora.

No segundo volume do sexto relatório de avaliação do Painel do Clima das Nações Unidas (IPCC), divulgado em fevereiro deste ano é pontuado que de 3,3 bilhões a 3,6 bilhões de pessoas vivem em locais ou contextos altamente vulneráveis à mudança do clima. E que os fatores de aumento de vulnerabilidade são: Gênero, etnicidade e renda.

Para Vitória, essas dificuldades são percebidas por ela no dia a dia, e que para falar sobre justiça climática é preciso também falar sobre a qualidade de vida dessas mulheres e a pobreza alimentar. Segundo ela, por ter sido criada em um bairro de periferia que tem muitos marcadores sociais como todas as periferias do Brasil, como violência e exclusão, ela precisou se inserir nesse contexto de ativismo de justiça climática. “No meu entendimento é a mãe das lutas, porque nenhuma construção ou outra é possível se não termos esse lugar, onde você se alimenta, falar de justiça ambiental é falar desse lugar de comunidade”.

Equipe do programa Jornalismo e Território:
Formação: Danila de Jesus e Sanara Santos
Edição e mentoria: Camila Simões
Coordenação: Jessica Mota


Este conteúdo foi produzido com apoio do programa Jornalismo e Território, da Énois Laboratório de Jornalismo. Para saber mais, acesse www.enoisconteudo.com.br ou @enoisconteudo nas redes sociais.

Por: Alicia Lobato, Dirce Quintino, Melissa Almeida
Fonte: Amazônia Real