Mulheres indígenas buscam protagonismo nas eleições 2022

Movimento liderado pelas indígenas busca maior presença feminina nas eleições 2022. Ação é considerada prioritária para que os povos originários defendam, na política, territórios que vão da Amazônia ao Cerrado

Célia Xakriabá no Congresso Nacional em Brasília /foto: crédito: Edgar Kanaykõ/Divulgação

Não é por acaso que a única representante indígena no Congresso é uma mulher, a deputada federal Joênia Wapichana do partido REDE de Roraima.  Ela é exemplo de um movimento que nos últimos anos têm ganhado visibilidade e força. A proposta é que as mulheres indígenas se transformem em uma das principais forças motrizes do movimento em prol dos povos originários e da defesa da preservação de seus territórios. 

Esse movimento é uma quebra de tabu entre os indígenas ainda com grande parte das comunidades brasileiras marcadas pelo patriarcado e com a maioria das lideranças tradicionais ainda homens. Agora, no campo da política, as mulheres articulam-se de modo a garantir o seu protagonismo,  liderando movimentos sociais, marchas e coletivos em todo país e contando com o apoio de lideranças já consolidadas e, também, de suas comunidades. 

Segundo o artigo “Protagonismo feminino nos movimentos indígenas do Brasil” publicado em 2021 pela Antropóloga Josilaine Raquel da Silva em seu mestrado pela Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA), embora o termo feminismo não seja abraçado por todas essas lideranças, os debates e as temáticas priorizados por elas passam por assuntos como empoderamento, participação política,  garantia de direitos das mulheres, saúde indígena, o direito à terra e processos de retomada e  valorização dos conhecimentos tradicionais.

O estudo destaca coletivos em todas as regiões do país, como o Coletivo de mulheres indígenas Lutar é resistir, a Articulação de Mulheres indígenas do norte do Maranhão (AMIMA), o Movimento de mulheres do Xingu, e a Plenária Nacional de Mulheres Indígenas, que faz parte da programação oficial do Acampamento Terra Livre (ATL), além da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIRR). 

Dois nomes já  reconhecidos no cenário político nacional  são destacados pelo estudo.  Joênia Wapichana, que antes de eleita já era voz ativa pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no norte de Roraima, e a líder Sônia Guajajara, que concorreu à vice-presidência ao lado de Guilherme Boulos pelo PSOL nas eleições de 2018.

“Mulheração”

Sônia Guajajara é uma das fundadoras da “bancada do cocar”, um recorte feminino dentro da Campanha Indígena que se organiza para nessas eleições eleger uma bancada indígena no Congresso e nas Assembleias estaduais.

“O nosso objetivo, através da ‘bancada do cocar’ , é de que as mulheres indígenas estejam protagonizando esse  chamado para realizar o processo de aldear a política, em reconhecimento à nossa importância dentro do movimento e das nossas comunidades”, explica Sônia. 

Para ampliar ainda mais a visibilidade de sua ação, a líder, que é do Maranhão, será candidata a deputada estadual por São Paulo. “Nós entendemos que São Paulo, por ser o maior colégio eleitoral e também o centro financeiro do país, é o local mais indicado para favorecer uma candidatura que tem por princípio defender os nossos povos, mas também o meio ambiente como um todo. Essa escolha é estratégica na mesma medida em que faz parte de um processo de conscientização mais abrangente, para que o eleitorado esteja ainda mais atento às questões ambientais”, ressalta.

Já a mineira Célia Xakriabá enxerga na atuação política um passo importante em uma luta que atinge especificamente o seu território, o combate aos malefícios trazidos pela mineração.

Mestra em Desenvolvimento Sustentável e doutoranda em Antropologia na Universidade Federal de Minas Gerais, Célia foi a primeira mulher indígena a integrar a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, onde permaneceu de 2015 a 2017. 

Em 2019, passou a atuar como assessora parlamentar no Congresso Nacional no mandato da deputada federal Áurea Carolina e, em 2021, foi uma das representantes indígenas que compareceram na 26ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática, a COP-26 em Glasgow, no Reino Unido. Nas eleições de 2022, será candidata a deputada federal por Minas Gerais pelo PSOL.

“Eu faço parte do bioma Cerrado e estou saindo candidata a deputada porque nós não aguentamos mais a devastação, a mineração, o estupro aos territórios. Ninguém fica indignado com o fato de que em meio a 513 deputados presentes no Congresso nacional existe apenas uma representante dos povos indígenas. Em Minas Gerais esse placar é pior ainda, porque nós temos 53 deputados estaduais e nenhuma pessoa indígena. E nesse momento, se você olhar para o Congresso, quem é que vai ter condições de enfrentar a bancada ruralista se não a bancada indígena e a bancada do cocar?”, afirma.

Célia considera que nos últimos quatro anos os povos indígenas foram os verdadeiros responsáveis por proteger os biomas brasileiros. “Nós somos menos de 1% da população brasileira, 5% da população do mundo e protegemos mais de 80% da biodiversidade”, explica, citando dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

A líder faz questão de destacar um de seus slogans de campanha: “Contra a mineração, só a ‘Mulheração’! ”.

Outros exemplos de mulheres protagonistas do movimento indígena em seus territórios candidatas a deputadas federais são  Vanda Witoto (REDE/AM), Elaine Xinakalo Bakairi (PT/MT), Val Eloy (de origem Terena, PSOL/MS), Nice Tupinambá (PSOL/PA), Teresa Arapium (REDE/RJ) e Leonice Tupari (REDE/RO).

Já a deputada federal Joênia Wapichana (REDE/RR), considerada inspiração para essas lideranças, será candidata à reeleição.

Por: Débora Pinto
Fonte: O Eco