Mulheres na mira dos homens de farda em Belém

Mulheres na mira dos homens de farda em Belém
Pará detém o maior número de feminicídios na Região Norte e os casos continuam em 2021 (Foto do ensaio “Sobrevivendo” de Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

O Pará é o segundo estado brasileiro que mais matou mulheres durante a pandemia em 2020. A terceira e última etapa do monitoramento Um vírus e duas guerras foi realizada por um consórcio de veículos de mídia independente, permitindo levantar a realidade em 24 estados e mais o Distrito Federal. Na Região Norte, o Pará é, disparado, o que mais registrou casos de feminicídio.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Pará (Segup), foram 65 feminicídios em 2020 contra 45 do ano anterior, um aumento de 44%.  O Mato Grosso teve o maior aumento, em número absoluto, um total de 62 casos frente a 39 em 2019.  Na comparação nos meses da pandemia, de março a dezembro, o monitoramento aponta que o Pará registrou 49 mortes (em 2019 com 42), uma alta de 17%, com isso caindo para segundo lugar, que passou a ser de Pernambuco com 61 feminicídios.

Mapa produzido por Ferando Alvarus#Colabora

Para a mulher paraense, denunciar o agressor não é tão simples. Em Belém, a capital do estado com uma população feminina de aproximadamente 734,3 mil pessoas, só há uma delegacia especializada no atendimento às mulheres vítimas de violência.

Segundo o Anuário do Fórum de Segurança Pública, em 2020, a procura pelo atendimento telefônico 190 aumentou 3,8% nos acionamentos da PM em casos de violência doméstica, foram 147.379 chamados. O que gera uma preocupação adicional. Desde o começo da pandemia do novo coronavírus, o Fórum denuncia a existência de subnotificações dos casos relacionados à violência doméstica. Há muitos relatos de que a vítima não pode sair de casa, e por conta das medidas sanitárias acaba ficando mais tempo com o agressor.

Para a psicóloga clínica, Evelyn Araújo, as mulheres que sofrem violência doméstica são mais propensas a desenvolver problemas como transtorno alimentar, baixa autoestima, ansiedade, depressão. Algumas chegam a cometer suicídio. “Detectar o relacionamento que te coloca num meio agressivo é uma dificuldade que muitas mulheres ainda vivenciam. Acredito que o governo deveria oferecer apoio psicossocial para as mulheres em caso suspeito por meio de programas, oficinas e grupos de apoio”, diz.

Na visão da especialista, mesmo em meio aos riscos de sair de casa durante essa pandemia, permanecer é um risco por conta da desumanização existente naquela relação. “Se não pode sair de casa, que possamos ir até as casas dessas mulheres, com todos os protocolos necessários de higiene. Lembremos que muitas vezes o silêncio e o olhar são gritos por socorro. Algo precisa ser feito e essas mulheres precisam ser conscientizadas de seus direitos.”

Na taxa por 100 mil mulheres de 2020, o Pará ficou no grupo dos 16 estados com mais feminicídios com um índice de 1,48. Em 2019, a taxa foi de 1,05. A taxa média entre os estados estudados foi de 1,18 feminicídios por 100 mil mulheres. Já, em números absolutos, no último quadrimestre do ano passado, entre os meses de setembro a dezembro, o estado paraense teve uma queda nas mortes: 12 ante 20 do ano de 2019.

A Segup registrou 19.154 casos de violência doméstica. De acordo com o Anuário 2020 do Fórum de Segurança Pública, houve uma queda no número de registros nas Delegacias de Violência contra Mulher, em todo o País. Veja o infográfico abaixo.

O feminicídio em níveis tão elevados como no Pará deveria mobilizar a sociedade. Mas não é o que constatou o monitoramento, realizado desde o início da pandemia nas cinco regiões do País com a preocupação de fortalecer a rede de apoio e fomentar o debate sobre a criação ou manutenção de políticas públicas de prevenção à violência de gênero no Brasil. O levantamento é uma parceria inédita entre as mídias independentes Amazônia Real, sediada no Amazonas; Agência Eco Nordeste, no Ceará; #Colabora, no Rio de Janeiro; Marco Zero Conteúdo, em Pernambuco, Portal Catarinas, em Santa Catarina; AzMina e Ponte Jornalismo, em São Paulo.

Os casos continuaram se sucedendo, um ao outro, virando manchetes rápidas e muitas injustiças sendo deixadas para trás. A reportagem da Amazônia Real relatou que o cabo da Polícia Rodoviária Estadual, Andreza, foi assassinada, em  setembro de 2020, após ser baleada pelo marido, o soldado da Polícia Militar, reconhecido como F. Santos.

Encontro das Mulheres Policias da PM do Pará, em 2020 (Foto: Maycon Nunes/Agência Pará)

No Pará, policiais, que deveriam proteger a sociedade e em particular as vítimas da violência doméstica, valem-se da farda para engrossar as estatísticas do feminicídio. No primeiro dia de março deste ano, mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, Liliane Pojo, tornou-se a mais nova vítima do feminicídio no estado paraense. Aos 36 anos, mãe de dois filhos, ela foi assassinada, dentro da própria casa, no conjunto do Maguari, em Belém. O assassino foi Edson Campos Pojo, com quem Liliane foi casada por 12 anos, pai dos filhos do casal e investigador da Polícia Civil. Após cometer o feminicídio, Pojo tirou a própria vida, com um tiro no rosto, em frente ao 24º Batalhão da Polícia Militar.

Outro homem fardado que cometeu feminicídio no ano de 2021 foi Joelson Alves de Souza, militar da reserva da Aeronáutica. Em 30 de janeiro, ele assassinou Jessica Mesquita e a amiga dela, Tamires Abdon, no bairro do Guamá, também na capital paraense. Jéssica estava em um processo de separação e com planos de retornar para a sua terra natal, Pernambuco. Com as malas prontas, Tamires tinha ido ajudar a amiga em uma mudança. As mulheres foram mortas a facadas pelo militar aposentado. Com o sangue das duas vítimas, o assassino escreveu na parede a palavra “sapatão”. Atualmente Joelson aguarda julgamento, em sala especial, na base do Comando Aéreo Regional, em Belém.

Liliane, Tamires e Jéssica

Liliane Pojo foi vítima do feminicídio no Pará (Foto arquivo da família)

O policial Edson Campos Pojo era tido como um homem violento por pessoas do convívio familiar. Uma amiga que pediu para não ser identificada declarou à Amazônia Real que Liliane tinha relatado casos de agressão. “Ela já havia sofrido ameaças, ele não deixava ela trabalhar. Recentemente ela havia falado que estava em processo de separação, de mudança para Mosqueiro, procurando escola para os filhos e um novo emprego”, disse.

Na manhã em que foi morta, Liliane Pojo não estava acompanhada dos filhos, um de cinco anos e outro de dez anos, em casa. Segundo vizinhos, o policial insistiu para entrar e logo depois foram ouvidos quatro disparos. “Eu fiquei muito pensativa, né? Me perguntando como chegou a esse ponto? Será que a família não sabia? Amigos mais próximos? Como ninguém percebeu?”, acrescentou a amiga da vítima.

É o que também questiona a assistente administrativa do Hospital Barros Barreto, Everllyn Passos, assistente administrativa do Hospital Barros Barreto. Ela trabalha no setor de Recursos Humanos e era colega de trabalho de Tamires Abdon e Jéssica Mesquita, as vítimas que foram assassinadas a facadas pelo militar reformado, Joelson Alves. “Quantas Jéssica não vivem perto de nós e nós não sabemos?”

Mestra em farmácia, Jéssica era de Recife e conseguiu passar em um concurso público em Belém como técnica de enfermagem. Com o militar, teve 8 anos de namoro e 3 de casado. “As amigas falavam que ele tinha ciúme. Ela passava um tempão debaixo de uma árvore aqui no hospital ao telefone, era quando ela conseguia falar com amigos e parentes”, conta Everllyn .

Cinco dias antes do crime, Jéssica pediu exoneração do hospital, alegando motivos pessoais. A funcionária do RH lembra que ainda tentaram demovê-la de se desligar. Por serem profissionais assíduas, Jéssica e Tamires tinham horas acumuladas. A primeira pode, então, antecipar a data de término do aviso prévio. 

De acordo com a perícia,  e contrariando a versão do assassino, Joelson não saiu em momento algum do apartamento. Quando as amigas entraram no local para buscarem as malas. O ex-marido que estava ciente da mudança de Jéssica, fechou a porta e desferiu 13 facadas em Tamires e 5 na então ex-companheira.

Jéssica Mesquita foi assassinada a facadas pelo militar Joelson Alves
(Foto: Arquivo da família)

Joelson escreveu com o sangue das vítimas a palavra “sapatão”. E ainda difamou as mulheres alvo do duplo feminicídio, afirmando que as encontrou na cama, em ato sexual. O militar reformado inicialmente foi para o hospital da aeronáutica em busca de tratamento.  Atualmente, segundo Érica Uchoa, a advogada da família da vítima, o acusado encontra-se aguardando julgamento. Ele já contratou um dos melhores advogados de Belém. 

A impunidade do caso levou à criação nas rede sociais da campanha #justiçaporjessicaetamires, com um perfil no instagram. “A ideia partiu de um de um amigo, justamente para pressionar os órgãos quanto a satisfação da punição devida”, explica a advogada. Segundo ela, se em cinco dias o Ministério Público não der um parecer, pode haver um relaxamento da prisão do feminicida. “Por isso a importância da pressão popular, para que o juiz se sinta pressionado e não conceda.”

A família de Jéssica ainda denuncia a Força Aérea Brasileira como corporativista. “Como ele era militar reformado, de acordo com o Código Militar e o Código do Processo Penal, ele aguarda em cela especial no comando. Só quando for condenado em júri popular que ele vai para presídio comum”, diz a advogada. A família está aflita que Joelson possa perder a condição de militar. E isso faria com que ele fosse julgado como um civil. “Só que não é interessante, e eu acredito pelo próprio corporativismo das organizações militares como um todo eles não fazem isso com os seus.”

A manchete sensacionalista

Família de Jéssica e Tamires clamam por justiça (Foto: arquivo pessoal)

O caso de Jéssica e Tamires virou uma manchete sensacionalista e irresponsável de um portal de notícias online da cidade de Belém. O texto insinuava que Tamires e Jéssica tinham um romance. “Ficamos revoltados. Minha chefa ligou para o Diário e falou com uma repórter super arrogante e disse: ‘Você é mulher, como não se importa poderia ter sido você, alguém da sua família?”, conta Everllyn. Só após essa ligação o título da reportagem foi modificado.

Para a pesquisadora, Bianca Lisboa, que estuda a aplicabilidade da Lei Maria da Penha na Divisão Especializada no atendimento à mulher, em Belém, afirma que já presenciou diversas situações de revitimização por parte das instituições. “Mesmo a lei estabelecendo campanha de conscientização muitas mulheres a desconhecem. Por este motivo eu comecei a realizar uma pesquisa de satisfação que acabou tornando-se de conscientização já que a maior parte das pesquisadas desconheciam fatos como a existência da própria DEAM. A maior parte apresentou insatisfação quanto ao atendimento em casos de violência contra mulher”, explica a pesquisadora.

Por: Roberta Brandão
Fonte: Amazônia Real

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