Nós não precisamos plantar soja nem criar gado na Amazônia, diz Lula em sabatina

Nos poucos minutos em que falou sobre meio ambiente durante entrevista ao Jornal Nacional, o candidato defendeu a bioeconomia, o pequeno agricultor e o agro sustentável

Lula no JN. Foto: Ricardo Stuckert/Twitter.

O tema do meio ambiente ficou em segundo plano na sabatina realizada pelo Jornal Nacional na noite desta quinta-feira (25) com Luiz Inácio da Silva, candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Nos poucos minutos em que discorreu sobre o tema, o ex-presidente defendeu a bioeconomia na Amazônia, o pequeno agricultor e o agronegócio sustentável.

Durante os 40 minutos de entrevista, os temas “corrupção” e “economia” dominaram a pauta. O agronegócio e a questão ambiental só foram abordados nos momento finais da sabatina e o candidato discorreu sobre os temas por menos de cinco minutos. A título de comparação, os candidatos Jair Bolsonaro (PL) e Ciro Gomes (PDT) tiveram cerca de sete minutos para falar sobre o assunto.

Ao ser questionado se a ligação de seu partido com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é a razão pela qual parte do agronegócio ainda não demonstrou apoio à sua candidatura, Lula disse que seu governo investiu muito no setor e que a falta de apoio se deve às medidas de proteção dos biomas brasileiros implementadas à época em que ele ocupava o Palácio do Planalto.

“Não tem nenhum governo que tratou o agronegócio como nós tratamos. Eu vou dizer para você, nós fizemos uma Medida Provisória, a 432, se não me falha a memória, de 2008, que fez uma negociação com os produtores rurais de R$ 85 bilhões, senão eles tinham quebrado”.

A MP a que Lula se refere, depois transformada na Lei Federal nº 11.775/2008, de fato instituiu medidas de estímulo à liquidação ou regularização de dívidas originárias de operações de crédito rural e de crédito fundiário.

“[,…] a questão da nossa política em defesa da Amazônia, a nossa política em defesa do Pantanal, a nossa política em defesa da Mata Atlântica, ou seja, a nossa luta contra o desmatamento faz com que eles sejam contra nós”, continuou o candidato.

Indagado pelos entrevistadores se ele estava colocando o agronegócio em oposição ao meio ambiente, Lula disse que se referia apenas aos empresários mais alinhados ao espectro político da direita. 

“O agronegócio que é fascista e direitista [faz oposição ao meio ambiente], porque os empresários sérios que trabalham no agronegócio, que têm comércio com o exterior, que exportam para a Europa, para a China, esses não querem desmatar, esses querem preservar os nossos rios, querem preservar as nossas águas, querem preservar as nossas faunas. Esses não. Mas você tem um monte que quer”, disse.

Em seguida, Lula defendeu a bioeconomia na Amazônia e se mostrou contra a expansão de grandes commodities no bioma. Ele também criticou a famosa expressão “passar a boiada”, usada pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles para se referir ao afrouxamento das leis ambientais no contexto da pandemia de Covid-19

“Você está lembrado que o atual presidente tinha um ministro do Meio Ambiente que dizia que era para invadir com a boiada, para desmatar a Amazônia […] Nós não precisamos plantar milho, soja ou cana nem criar gado na Amazônia. O que nós precisamos é explorar corretamente, cientificamente, a biodiversidade da Amazônia, para que a gente tire daquela riqueza da biodiversidade produtos para a indústria de fábrica ou para indústria de comércio [sic], para gerar emprego para aquelas pessoas”.

Confrontado novamente com pergunta sobre o papel do MST em um eventual governo petista, Lula disse que o Brasil tem espaço para os diferentes tipos de agricultura desenvolvidos no país, e que todos precisam conviver pacificamente. Ele também aproveitou para criticar a política de liberação de armas implementada no governo Bolsonaro.

“O Bolsonaro está ganhando alguns fazendeiros porque está liberando arma […] Para mim, o pequeno produtor rural, o médio produtor rural tem que viver pacificamente com o grande negócio, porque o Brasil tem possibilidade de ter os dois. Um produz mais internamente. O outro produz mais externamente […] O Blairo Maggi, que é o maior plantador de soja do Brasil, talvez ele não crie a galinha caipira que ele gosta de comer. Talvez ele não crie o porquinho orgânico que ele gosta de comer. Talvez ele vá comprar num pequeno proprietário. Então é extremamente importante a convivência pacífica dessa gente. Nós já fizemos isso e vamos fazer novamente”, disse.

Lula foi o terceiro entrevistado da sabatina realizada pelo Jornal Nacional com os presidenciáveis. A próxima, e última, será com Simone Tebet (MDB), nesta sexta-feira (26).

Por: Cristiane Prizibisczki
Fonte: O Eco