O momento das “techs” também no ambientalismo

As “techs” chegaram para ficar. Começaram em vários setores, mas foi no financeiro e bancário que se popularizaram.  Hoje todos conhecem o poder e o potencial transformador das tecnologias digitais. Depois de desafiar e, de certa forma, superar os inabaláveis “bancões”, ninguém mais duvida que essas tecnologias podem ser aplicadas e revolucionar os vários setores da economia brasileira, mesmo aqueles com tradições quatrocentonas, como no caso da agricultura brasileira.

No recém-lançado relatório “A cabeça do agricultor brasileiro na era digital”, elaborado pela consultoria McKinsey, fica claro que as “tech” chegaram para ficar e seu poder transformador será tão grande quanto as ambições dos desenvolvedores e dos agricultores. O estudo mostra os brasileiros como os mais abertos a adotarem novas tecnologias digitais, com um incremento desse interesse, no último ano, maior do que o de seus colegas do EUA e Europa. No Brasil, quase dois terços dos agricultores entrevistados já preferem os canais on-line para suas operações, um campo fértil para que as AgTechs cresçam livremente.

Para além de sites e outros sistemas on-line, a pesquisa mostra que o agricultor brasileiro tem o WhatsApp como o principal e mais utilizado meio para realizar suas transações. Ou seja, mais área fértil para as AgTechs brazucas começarem a cultivar.

Do lado do consumidor essa realidade não é diferente, e em vários países europeus já são amplamente utilizados os aplicativos que ajudam na escolha dos produtos baseada em critérios selecionados pelo consumidor. Os mais utilizados, tanto apps quanto critérios, são aqueles que usam a “pegada de carbono” como proxy para as questões ambientais. Alguns deles já são desenvolvidos e oferecidos pelas próprias redes varejistas, como o caso da rede COOP da Dinamarca, que tem o compromisso de ajudar seus clientes a escolherem os melhores produtos para eles e para o planeta.

É da fusão desses dois exemplos, com mudanças no mindset do agricultor brasileiro e no comportamento do consumidor, que chegamos ao ponto onde as AgTechs, junto com os princípios básicos do socio-ambientalismo e as regras de acordos climáticos como o de Paris, é que surge a grande oportunidade da nova revolução no campo, alinhando produtividade e sustentabilidade ambiental em ferramentas de gestão que apoiem a agropecuária brasileira.

As ONGs brasileiras não estão à parte desse movimento. Pelo contrário, estão assumindo um papel central no desenvolvimento de ferramentas digitais voltadas para o setor agropecuário. Um exemplo já em funcionamento é o MapBiomas. Ao cruzar dados como CAR, mapas de Unidades de Conservação e Terras Indígenas, polígonos de desmatamento do DETER e de áreas embargadas pelo IBAMA, dentre outras informações disponíveis para serem consumidas e/ou analisadas, a plataforma oferece uma combinação gigantesca de informações que podem ser utilizadas para apoiar os agricultores e pecuaristas na gestão de sua propriedade e produção. São informações básicas e qualificadas que já estão acessíveis para todos, e que podem e devem ser utilizadas pelas AgTechs.

A Amigos da Terra – Amazônia Brasileira faz parte do grupo de ONGs que tem apostado nas soluções digitais. Com o apoio da iniciativa britânica Partnership for Forests – P4F e em parceria com a empresa tech SafeTrace e a TNC, desenvolvemos a plataforma de qualificação, controle de origem e transparência CONECTA, que tem como principal função apoiar os criadores de gado na seleção de fornecedores que estejam em conformidade com a legislação florestal, diminuindo o grau de exposição da cadeia ao risco de desmatamento. A CONECTA, que já conta com um app para celulares, disponibiliza ao pecuarista a análise socioambiental da sua fazenda e de sua cadeia de fornecimento, além de informações de gestão do rebanho. A plataforma também facilita a troca de dados segura com os demais elos da cadeia, como frigoríficos e varejistas, utilizando tecnologia blockchain.

A CONECTA entra em funcionamento comercial agora, operacionalizada pela AgTech SafeTrace, e já conta com a participação de uma associação de criadores e de 3 grandes frigoríficos, demonstrando como a digitalização dos processos, alinhada aos princípios do conhecido “tripé da sustentabilidade” ou “tree bottom line”, podem ser os vetores de uma revolução verde tech.

Mauro Armelin é diretor executivo da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

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