Pandemia: Comerciantes protestam contra decreto e gritam “Fora Wilson Lima”, em Manaus

Com a bandeira do Brasil nas mãos, manifestantes querem a reabertura das lojas e shoppings e alegam que votaram no governo, apoiado por Bolsonaro, Foto acima do ato no centro de Manaus

Pandemia: Comerciantes protestam contra decreto e gritam “Fora Wilson Lima”, em Manaus
No final da noite, Wilson Lima voltou atrás e decidiu reabrir o comercio de segunda a sexta-feira, das 8h às 6h, a partir de segunda-feira (28)
(Foto: Edmar Barros/FuturaPress/AE)

Na manhã deste sábado (26), empresários do comércio, empregados e ambulantes fecharam as principais ruas de acesso ao Centro de Manaus em protesto pacífico contra o decreto do governador Wilson Lima (PSC), que restringe por 15 dias as atividades do setor para conter a alta na transmissão da Covid-19 no estado. Com cartazes nas mãos dizendo frases como “Queremos trabalhar” e “Fora Wilson Lima”, os manifestantes exigiam a revogação do decreto e a reabertura do comércio.

O transporte urbano ficou paralisado por mais de seis horas do centro para os bairros a partir da Praça da Matriz. Os manifestantes, a maioria ambulantes, ficaram aglomerados e não usavam máscaras. Com uma bandeira do Brasil nas mãos e cantando o Hino Nacional, alguns comerciários se diziam indignados com o decreto, pois votaram em Wilson Lima (PSC), que é um dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Por que os empresários ganham, e o povo não ganha? É por que somos menores? Por que ele não ajudou o povo antes? Nós precisamos trabalhar! Nós votamos nele, agora ele vem com isso. Por que não ajudou o povo no comércio da pandemia? Tu vai [sic] sair Wilson Lima”, disse Maria José Costa, 57 anos, que trabalha como ambulante vendendo roupas em uma barraca da Praça da Matriz, centro da manifestação.

Segundo a Polícia Militar, não houve registro de detenções no local ou depredações do patrimônio público. A PM não divulgou o número de pessoas presentes na manifestação.

Como efeito do protesto, o presidente da Fecomércio Anderson Frota disse à reportagem da Amazônia Real que o governador Wilson Lima aceitou se reunir com representantes do setor nesta segunda-feira (28) para rever pontos do decreto pandêmico. “Há pontos que precisam ser corrigidos. A entidade quer mudar a visão de que o comércio é o principal fomentador da pandemia. A principal proposta da entidade é de fechamento gradativo do comércio, assim como a reabertura. Outra proposta é a prorrogação do vencimento dos tributos, assim como a prorrogação das parcelas do REFIS (Programa de Refinanciamento de Dívidas)”, disse Frota.

Procurada para se posicionar sobre a reunião mencionada por Anderson Frota, a assessoria de comunicação de Wilson Lima não confirmou, assim como não comentou sobre quais medidas serão tomadas para diminuir o impacto financeiro no comércio.

Antes da manifestação, a Fecomércio do Amazonas tinha se manifestado solidária com a medida de restrição, mas destacou “que fosse analisada a possibilidade de escalonar a interrupção de determinados segmentos em vez da suspensão total”.

Trabalhadores do comércio durante manifestação contra o decreto (Foto: Edmar Barros/FuturaPress/AE)

Conforme publicou a Amazônia Real, o decreto 43.234/2020 começou a vigorar neste sábado (26) e segue até dia 10 de janeiro. Bares, restaurantes, lanchonetes, lojas de conveniência estão fechados. O comércio, incluindo lojas e shoppings, funcionam pelo sistema de drive-thru e delivery até às 21h. Eventos, casamentos e formaturas estão proibidos. Reuniões comemorativas suspensas, assim como feiras e mercados, vão abrir com horários que ainda serão estabelecidos. Os espaços públicos estarão fechados. Quem descumprir as novas regras está sujeito a multas diárias de R$ 50 mil.

O decreto foi baixado na quarta-feira (23), antes do Natal, após o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 do Governo do Amazonas, com base nos dados epidemiológicos da doença no estado apresentados pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), apontar um elevado número de casos do novo coronavírus e ocupação de quase 100% os leitos clínicos e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na rede hospitalar estadual e privada de saúde. Mas a Fiocruz Amazônia vem alertando desde o mês de outubro sobre o aumento dos casos de coronavírus no estado. Wilson Lima admitiu que o relaxamento das medidas nas eleições municipais contribuíram para a lotação de doentes nos hospitais.   

“Todas as medidas têm sido avaliadas junto ao comitê de enfrentamento à Covid-19 para adoção de ações que preservem a vida da população”, disse em nota o governador Wilson Lima.

De 13 de março, quando iniciou a pandemia no Amazonas, até esta sexta-feira (25 de dezembro), 195.806 pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus no estado. Os óbitos somam 5.161, segundo os dados são da (FVS-AM).

O decreto que restringiu as atividades do comércio, que não atingiu as indústrias da Zona Franca de Manaus, provocou uma ação judicial da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). De acordo com o site G1, a instituição ingressou com uma liminar pedindo que os shoppings continuassem abertos ao público durante as medidas restritivas, mas o pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM).


Por volta das 22 h deste sábado, Wilson Lima anunciou a flexibilização do decreto a favor do comércio, shoppings e restaurantes. Leia no final do texto.


Prefeito quer revogação do decreto

Movimentação no cemitério público do Tarumã em Manaus
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Ao responder às perguntas de jornalistas na manhã deste sábado (26), o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disse que o governador Wilson Lima deveria revogar o decreto pandêmico para conter o desemprego no setor do comércio e ambulantes. “O governador deve ser humilde e revogar (o decreto). A humildade não faz mal a ninguém. Só os grandes conseguem ser humildes, os pequenos não conseguem. Então que o governador seja grande e reconheça a precipitação do seu gesto”, disse.

O prefeito avaliou que Wilson Lima poderia ter agido de outra forma desde o mês de junho, quando baixou o primeiro decreto de fechamento do comércio. “Ele podia ter feito muitas coisas durante o tempo [em que fez o primeiro isolamento social]) que nos separou disso (da transmissão)? Ao contrário. Ele cantava vitória que tinha acabado com a Covid e nós aqui acompanhando os sepultamentos e dizendo: ‘não acabou nada; o pior ainda vem por aí!’. Todo mundo sabe que eu falei isso. Então hoje cabe o quê? O que o governador quer é massacrar os comerciantes, que querem vender seus estoques na época das festas? Não é justo”, questionou Virgílio Neto.   

Sobre tomar medidas para apoiar financeiramente os pequenos comerciantes e camelôs, o prefeito disse que a competência não é dele e despachou a tarefa ao prefeito eleito da cidade, David Almeida (Avante), que assumirá o cargo no dia 1o. de janeiro de 2021. “ 

“Estou a dias de deixar a Prefeitura e essas coisas (possíveis medidas) serão avaliadas, certamente, pelo meu sucessor (David Almeida). Não é competência minha, é do governo. Se fosse um decreto meu, eu não faria um decreto desse. A partir de agora vou cuidar da minha vida e dos meus projetos (…)”, afirmou. 

Arthur Virgílio passou oito anos no comando da Prefeitura de Manaus (de 2013 a 2020). Na pandemia, ele determinou a abertura de um hospital de campanha, que foi motivo de polêmica com a empresa Samel. Artur teve Covid-19 e se tratou no hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Neste sábado, o prefeito fez um apelo a Wilson Lima em favor dos comerciantes. “Estou falando de coração: não maltrate desse jeito os comerciantes, não desperdice os empregos dos comerciários, faça com mais cautela, até porque tem muito comércio aberto por aí, a gente sabe disso, o senhor (Wilson) não está fechando tudo. Eu lhe peço com muita humildade que o senhor revogue ou adia e discuta com a sociedade (…)”.

O que diz o governo

Manifestantes fecharam o Terminal da Matriz (Foto: Edmar Barros/FuturaPress/AE)

Em nota enviada à reportagem, o governador Wilson Lima disse que “entende a preocupação dos comerciantes e que vai adotar  medidas fiscais para amenizar as perdas”. Contudo, disse que reforça que as medidas de restrição para conter o avanço da Covid-19 no período das festividades de fim de ano, são  essenciais neste momento.

De acordo com o governo, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) trabalha na terceira fase do Plano de Contingência para o enfrentamento da Covid-19. Nesta fase está previsto o incremento de 63 leitos de UTI e 234 leitos clínicos exclusivos para Covid-19 nos hospitais que integram a rede estadual de saúde e a rede complementar.

O Plano de Contingência, em operação desde novembro, consiste na organização da rede para o momento de recrudescimento da doença e está previsto para operar em cinco fases, de novembro a junho, que coincide com o período sazonal das Síndromes Respiratória Aguda Grave (Srag) no Amazonas.

Ameaças a jornalistas e mais protestos

Durante o protesto na Praça da Matriz, pela manhã, um grupo de manifestantes hostilizou uma equipe de jornalistas do jornal e TV A Crítica, do Grupo Rede Calderaro de Comunicação. Segundo a empresa, as ameaças foram dirigidas às repórteres Priscila Melo e Samara Maciel e aos cinegrafistas Nívea Salgado e Alex Gomes. O motivo das ameaças é que o governador Wilson Lima foi apresentador da emissora quando se candidatou ao cargo em 2018.

Na parte da tarde deste sábado, por volta das 17h, manifestantes (comerciantes e motoristas) foram protestar contra o decreto das restrições em frente daa residência de Wilson Lima, na Avenida Efigênio Salles, no bairro do Aleixo, na zona centro-sul de Manaus. O trânsito na região foi fechado, mas a Polícia Militar negociou a abertura. Em seguida, os manifestantes foram para a frente da sede da Rede Calderaro de Comunicação, na avenida André Araújo, e atearam fogo nas proximidades da TV A Crítica. A segurança foi reforçada no local.

Rodrigo Barros, gerente de marketing da Rede Calderaro de Comunicação, disse à agência Amazônia Real que a Polícia Militar controlou a manifestação em frente à emissora e que os jornalistas, que estavam na rua, retornaram à sede e em segurança. “Em nenhum momento os manifestantes quiseram invadir ou depredar a empresa ou coisa assim. A manifestação se limitou à rua em frente a emissora e a polícia resolveu a situação”.

Com relação aos jornalistas ameaçados na parte da manhã, o gerente afirmou que o setor jurídico da empresa está avaliando os fatos. “As equipes vão continuar fazendo o trabalho, são imprensa. As pessoas associam a TV por conta do governador (Wilson Lima) ter sido apresentador. A gente mantém nosso trabalho. Somos imprensa e temos que cobrir e noticiar”, disse o gerente de marketing da Rede Calderaro, Rodrigo Barros.

Governador volta atrás e decide abrir comércio

Governador do Amazonas, Wilson Lima (Foto: Erasmo Salomão/MS)

Por volta das 22h deste sábado (26), o governador Wilson Lima se reuniu com representantes do comércio e decidiu voltar atrás na decisão de fechar lojas e shoppings. O encontro com lojistas aconteceu cinco horas depois de Lima ter a rua de acesso à sua residência tomada por manifestantes.

“A gente desde sempre tem tentado encontrar um equilíbrio entre a proteção da vida, a ampliação da nossa rede de saúde e também o funcionamento da atividade econômica para garantir emprego e renda para as pessoas. Depois de uma longa reunião que nós tivemos aqui com os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e também com a maior quantidade possível de representantes das atividades econômicas (…), nós chegamos ao entendimento de flexibilização (do decreto)”, explicou o governador.

Em coletiva à 2h da madrugada, Wilson Lima disse que flexibilizou o decreto permitindo a partir desta segunda-feira (28), as seguintes atividades:

Comércio aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h

Shoppings estão liberados de segunda a sexta, das 12h às 20h

*Aos sábados e domingos o setor comercial poderá trabalhar em sistema drive-thru e delivery até às 21h.

Bares, restaurantes (inclusive flutuantes), lanchonetes e lojas de conveniência vão abrir durante seis horas, até às 22h.

*Festas e eventos, em espaços públicos ou privados, continuam proibidos.

Por: Edda Ribeiro e Kátia Brasil
Fonte: Amazônia Real

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