Pandemia no Amazonas: Manaus volta a registrar mortes em casa

Cenas do pico da pandemia se repetem a poucos dias do fim do ano, enquanto governo estadual desiste do lockdown sob pressão dos empresários.

Pandemia no Amazonas: Manaus volta a registrar mortes em casa
Cenas do pico da pandemia se repetem a poucos dias do fim do ano, enquanto governo estadual desiste do lockdown sob pressão dos empresários. A imagem acima mostra funcionários do SOS Funeral retiram corpo de vítima de covid-19 de residência em maio de 2020 (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

A três dias do fim do ano, Manaus, capital do Amazonas, volta a reviver cenas trágicas de 2020. Nesta terça-feira (29), 13 pessoas morreram dentro de casa, sem terem a chance de receber atendimento médico-hospitalar. Os corpos foram recolhidos pelo SOS Funeral, serviço intensificado pela prefeitura de Manaus no pico da pandemia para lidar com o alto número de pessoas mortas pela Covid-19 dentro de seus próprios imóveis. Na segunda-feira (28), foram 14 pessoas mortas na residência e cujos corpos foram retirados pelo serviço funerário da prefeitura.

A prefeitura de Manaus não informa a causa oficial desses óbitos em casa. Mas para o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia, há relação direta com a Covid.

“É impossível que nenhum desses 13 e 14 óbitos não tenha sido por Covid-19”, questiona o especialista.

Segundo o Informe Funerário, houve 63 enterros em Manaus nesta terça-feira, sendo que 12 tiveram como causa da morte a Covid-19 e as demais ocorreram por parada cardíaca e respiratória, além de doenças relacionadas à Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srags).

Segundo o Informe Funerário da Prefeitura de Manaus, houve 52 enterros em Manaus na segunda-feira, sendo que 9 tiveram como causa da morte a Covid-19 e as demais ocorreram por parada cardíaca e respiratória, além de doenças relacionadas à Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srags).

Após chamar a atenção do Brasil e do mundo com as cenas de enterros em covas coletivas, hospitais superlotados e relatos de pessoas morrendo em casa por causa da Covid-19, Manaus assiste ao número crescente de casos confirmados e mortes neste fim de 2020.

Apesar das recomendações de médicos e especialistas para que medidas mais rígidas de distanciamento social tivessem sido adotadas, o governador Wilson Lima (PSC) tem resistido a implementá-las. Exemplo disso aconteceu na semana passada, quando um decreto estadual que determinava o fechamento das atividades não essenciais por duas semanas não durou nem um dia após protestos de empresários.

O Decreto 43.234, de 23 de dezembro, previa que entre 26 de dezembro e 10 de janeiro estaria proibido o “funcionamento de todos os estabelecimentos comerciais e serviços não essenciais e destinados à recreação e lazer”. Só estariam autorizados a funcionar supermercados, farmácias e postos de combustíveis. Um dia após o natal, no sábado, houve protestos nas ruas centrais de Manaus por conta do decreto.

No último fim de semana, após uma reunião com empresários, o governador Wilson Lima decidiu que em vez de um lockdown, Amazonas adotaria regras mais brandas. Os estabelecimentos não-essenciais só poderão funcionar de segunda a sexta-feira entre as 8 e 16 horas. Aos fins de semana, apenas no sistema de entregas (delivery) e drive-thru. As empresas também se comprometeram a adotar outras medidas que serão pactuadas por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o governo e o Ministério Público. A partir da assinatura do TAC, um novo decreto deve ser publicado.

O risco de aglomerações no réveillon

Movimento no centro de Manaus (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

O novo coronavírus voltou a circular livremente com as aglomerações comuns desta época do ano nos comércios populares e shoppings. Festas com grande concentração de pessoas foram realizadas em vários locais de Manaus. A tendência é que o mesmo comportamento se repita nas celebrações de réveillon. A proibição de festas da virada estava prevista no decreto revogado pelo governador.

Nos hospitais públicos e privados de Manaus, a situação crítica do passado volta a se repetir. A taxa de ocupação dos leitos de UTI está em 92,93% – e 84,63% nos leitos clínicos. Em quatro dos sete hospitais privados, já não há vagas disponíveis. Hospitais e profissionais de saúde estão em seu limite de trabalho após nove meses já sobrecarregados pela pandemia.

Na segunda-feira (28), a Secretaria de Estado de Saúde reativou tendas externas de triagem nos Hospitais e Pronto-Socorros 28 de Agosto e Platão Araújo. Em resposta à Amazônia Real, a Secretaria de Estado de Saúde informou que não descarta a ideia de reativar uma unidade de campanha, mas que esse assunto ainda está em análise (Veja no fim do texto outras informações oficiais).

Apenas no domingo (27), a prefeitura de Manaus informou que 49 pessoas foram enterradas nos cemitérios públicos e privados. Dessas mortes, 15 foram confirmadas por Covid-19. As demais ocorreram por paradas respiratória e cardiorrespiratória. Apesar de oficialmente não serem declaradas como decorrentes da Covid-19, elas podem ter relação com a doença já que os sistemas respiratório e cardíaco são os mais afetados pelo SARS-Cov 2.

Jesem Orellana, da Fiocruz, acompanha a situação da pandemia em Manaus desde o começo. Em uma análise nada otimista para o início de 2021, ele comenta que “o pior ainda está por vir, infelizmente”. Para o epidemiologista, dois fatores tornam a crise sanitária na capital do Amazonas ainda mais grave: a falta de estrutura da rede pública hospitalar e a elevada desigualdade social que leva milhares de pessoas a viver na informalidade econômica e a morar em aglomerados urbanos que contribuem para a propagação do vírus.

“Manaus tem um agravante muito pesado que é a questão da desigualdade. Embora seja uma cidade que tenha um dos maiores PIBs do Brasil, ela é uma capital muito desigual, com muita gente vivendo na informalidade”, avalia o epidemiologista. Orellana lembra que muitos moradores da capital ainda vivem em palafitas Isso, somado à ausência de um serviço mais universal de atendimento médico de prevenção e acompanhamento dos novos casos da Covid-19, contribui para um efeito mais devastador da pandemia. Falta, segundo ele, uma estrutura médico-hospitalar e de recursos humanos especializados para lidar com endemias e pandemias por parte da rede pública de saúde.

“Esses fatores são bastante determinantes para a situação sanitária hoje em Manaus. Você tem todo este clima de desprezo pela pandemia, desprezo pela vida. Este movimento antivacina é liderado, por incrível que pareça, pelo governo federal e, de certa forma, indiretamente, incorporado pelo governo do estado”, critica Jesem Orellana, que lembra que o Amazonas já dava sinais de entrar na segunda onda da Covid-19 ainda em outubro, quando o número de mortes havia sido o dobro da registrada em agosto. O epidemiologista critica ainda a inação do governo amazonense de elaborar um plano de imunização.

Flexibilização de medidas

Mercado da Manaus Moderna (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

As aglomerações decorrentes do período eleitoral e das compras de fim de ano foram a “gota d’água”, segundo Orellana, para dezembro repetir o mesmo quadro crítico de abril e maio. Especialistas apontam que a tentativa do governo estadual de adotar um lockdown agora no fim do ano chegou tarde demais. Mesmo se ela tivesse sido cumprida em sua proposta original e não afrouxada pelo governador, os impactos seriam pouco eficazes sobre a rede hospitalar.

Manaus foi uma das primeiras cidades do mundo a retornar com o ensino presencial, primeiro nas escolas particulares. A medida foi vista como resultado da pressão feita pelas instituições de ensino privado. De lá para cá, o afrouxamento de medidas restritivas virou uma forma de governo.

Em meio à flexibilização, operações da Polícia Federal foram desvendando uma série de atos de corrupção envolvendo a alta cúpula da Secretaria de Saúde e do governo do estado com as verbas destinadas ao enfrentamento da pandemia. Uma das denúncias foi a compra superfaturada de equipamentos hospitalares, como os respiradores usados na UTI. A PF chegou a pedir a prisão do governador Wilson Lima, mas o Superior Tribunal de Justiça negou.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, em março, o Amazonas registrou 196.754 casos confirmados da Covid-19, com 5.206 mortes.

A Amazônia Real procurou o governo do Amazonas para comentar a atual situação do estado e informar quais medidas foram adotadas para evitar o completo colapso do sistema público hospitalar, mas até o momento desta publicação as respostas não foram enviadas. A reportagem será atualizada assim que elas chegarem.

Em nota publicada no site do Ministério Público do Amazonas, a Procuradora de Justiça Silvana Nobre Cabral comentou sobre a flexibilização das atividades do comércio por pressão de protestos. Ela, que atua na área da saúde dentro do MP há quase quatro anos, alerta que o Governo do Estado não pode abrir negociação mediante ameaças de violência. A Procuradora cita os argumentos de alguns empresários que, na reunião, disseram que era preciso o Governo flexibilizar as medidas restritivas para que os protestos não ocorressem. “Não se pode abrir diálogo com ameaça de violência. Isso fere o Estado de Direito e a autonomia do Poder Executivo. A negociação envolve questões que não comprimam a autoridade que tem o maior dever, porque os óbitos vão ficar a cargo de alguém e, esse alguém, será o Governador”, afirmou Silvana Cabral.

O que dizem as autoridades

Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz em Manaus (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Procurada, a Secretaria de Saúde informou que a prioridade do governo estadual é a organização da rede e ampliação da oferta de leitos e que estão sendo feitos convênios com a iniciativa privada, com o assinado com o Hospital Beneficente Português, para a oferta de 10 leitos de UTI. A secretaria informa que o estado possui, atualmente, 207 leitos de UTI para Covid-19, ante os 50 de março.

“Só o Hospital Delphina Aziz saiu de 50 para 140 leitos, com a previsão de chegar a 150 até o final desta semana. Em números totais, incluindo leitos de UTI e clínicos, o aumento foi de 43%, saindo de 582 leitos para 832, conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) atualizados na segunda-feira (28/12)”, respondeu à agência.

Prefeito eleito indica remédios sem comprovação

David Almeida durante anúncio de novos secretários na manhã do dia 29/12/2020 (Foto: Divulgação)

Em entrevista à imprensa nesta terça-feira (29), o prefeito eleito de Manaus, David Almeida (Avante), afirmou que uma de suas estratégias para enfrentar o surto da segunda onda da Covid-19 no município é a distribuição de suplementos vitamínicos para a população e, assim, aumentar sua imunidade contra o vírus. Outro medicamento na lista seria a Ivermectina, que caiu no credo popular como eficaz no combate aos sintomas da Covid. Não se tem comprovação científica sobre a eficácia da Ivermectina contra a doença; a medicação é prescrita para o combate a vermes (parasitas), sendo a venda permitida apenas com prescrição médica.

“A nossa intenção é distribuir medicamento. Ivermectina, Vitamina C, Vitamina D, vitamina de A a Z. Todo este complexo vitamínico para aumentar a imunidade da população, melhorar a imunidade da população e diminuir a infecção do vírus”, disse Almeida, que assume a Prefeitura de Manaus em 1 de janeiro. O sucessor de Artur Virgílio Neto (PSDB) também afirmou que realizará testes para detectar pessoas infectadas.

De acordo com ele, um plano municipal de imunização será apresentado já na próxima semana, quando estiver ocupando a cadeira de prefeito. Segundo ele, caberá aos municípios desenvolver essa estratégia, já que são os entes da Federação responsáveis por executar as campanhas de imunização no país. Por conta do governo Jair Bolsonaro, o Brasil ainda não tem uma data certa para o início da vacinação contra o coronavírus.

Segundo David Almeida, o desafio será construir a estratégia para o armazenamento das vacinas, que, a depender do fabricante, requer temperaturas abaixo dos 50 graus Celsius. “Nós vamos trabalhar ao máximo em harmonia com o governo federal e o governo estadual para amenizar os efeitos desta pandemia em nossa cidade”, disse.

“Manaus foi a primeira cidade do Brasil a colapsar [com a pandemia], foi a primeira a sair e, pelo o que está acontecendo, vai ser a primeira a entrar nesta chamada segunda onda, se é que ela existe. O que existe é que se abrandaram as questões de restrição de circulação e a população passou a frequentar muitos locais públicos. Isso fez com que a incidência crescesse e os casos aumentassem, causando grande impacto nos serviços de saúde do estado”, comentou.

Por: Fábio Pontes
Fonte: Amazônia Real

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