Pecuária sustentável traz esperança para a conservação do Pantanal

Tecnologia e manejo aumentam a produção sem abrir mão da natureza e da cultura. Educação é barreira para avanços

A aurora chega com a cantoria estridente de milhares de curicacas, aracuãs, siriemas, tachãs e carões, parte de uma das maiores orquestras de aves do planeta. Ao canto das aves se junta o som do berrante dos peões e o mugido do gado que segue para o pasto. São vozes do Pantanal que todos os dias se fundem, assim como biodiversidade e pecuária se misturam, num arranjo pantaneiro nascido há quase três séculos e de cuja renovação depende o futuro do bioma e da economia da região. 

Uma esperança vem da pecuária sustentável que, com tecnologia e ciência, usa a conservação de áreas naturais para aumentar a produtividade. Para 2022, se espera um aumento de 100% da produção de carne pantaneira sustentável. 

Na Fazenda Santa Fé do Corixinho, em Corumbá, na Nhecolândia (MS), uma das 11 microrregiões pantaneiras, mesmo sob o sol do meio-dia, com o termômetro acima dos 35ºC, o campo de mimoso, um capim nativo pantaneiro, refresca o olhar. 

Paisagem singular

A relva se espalha para além do horizonte e mantém o frescor, a maciez e o verde a despeito do calor. Serve de pasto a vacas, capivaras e a veados de mais de uma espécie. Pastam juntos e em paz. Aqui e ali, buracos de tatu, lobinhos arredios e tamanduás que parecem não se incomodar com mais nada além de formigas. 

É uma paisagem singular, que faz do Pantanal o único bioma do Brasil onde a pecuária, sua principal atividade econômica, é considerada uma das vocações que menos conflito causa com o ambiente. E num futuro sustentável isso deve se manter, concordam cientistas, pecuaristas e ambientalistas. 

“A pecuária é uma vocação do Pantanal. Defendemos a pecuária com boas práticas, para gerar renda sem agredir o meio ambiente. Quem não quer comer carne de desmatamento pode optar pela pantaneira, com uso sustentável do solo”, afirma Gustavo Figueirôa, diretor de Engajamento e Comunicação do Instituto Socioambiental da Bacia do Alto Paraguai SOS Pantanal, organização que participa do monitoramento do bioma.

A pecuária pantaneira tradicional é quase toda ela extensiva e usa as pastagens naturais. Além disso, a fazenda pantaneira segue o ritmo das águas. Na cheia, o gado é levado para áreas não inundáveis e a terra descansa por meses. Com isso, a área fica para a fauna silvestre.

O desafio é evitar a perda de áreas naturais em um bioma onde mais de 95% do território são constituídos de propriedades privadas, em sua maioria grandes fazendas dedicadas à criação de gado. 

A pecuária pantaneira tradicional é quase toda ela extensiva e usa as pastagens naturais. Além disso, a fazenda pantaneira segue o ritmo das águas. Na cheia, o gado é levado para áreas não inundáveis e a terra descansa por meses. Com isso, a área fica para a fauna silvestre.

Porém, o desmatamento tem avançado e se espalha pelo Pantanal a criação intensiva, com mais pastos exóticos (braquiária) plantados, para aumentar a produtividade e facilitar o manejo.

 A área ocupada pela pecuária cresceu quase quatro vezes de 1985 a 2021, segundo o MapBiomas. Nesse período, o Pantanal teve sua cobertura de áreas naturais reduzida de 95,58% para 83,01%, apenas 4,4% de seu território está dentro de unidades de conservação. 

Capivaras se alimentam em pastagem natural na região de Nhecolândia. Foto: Márcia Foletto

A renovação da tradição 

A despeito da redução, permanece o bioma mais conservado do país. Mas para que esse cenário se mantenha, é preciso misturar modernidade e tradição. 

Nas invernadas e currais da Santa Fé do Corixinho, uma das fazendas dedicadas à criação sustentável no Pantanal, se vê em meio aos pastos naturais a multiplicação de cercas elétricas e painéis solares. Pois, sem transformar não se conservará o Pantanal. 

“Aqui experimentamos novas técnicas e tecnologias, investimos no futuro do Pantanal. Há resistência, não é nada fácil, mas é possível. Porém, é preciso apoio tanto por parte de incentivos, quanto técnico, a Embrapa tem sido fundamental”, afirma o engenheiro agrônomo Eduardo Cruzetta, proprietário da Santa Fé do Corixinho e presidente da Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO).

A ABPO tem fomentado o crescimento da produção sustentável pantaneira. Atualmente são 87 associados, que juntos possuem um rebanho de 450 mil cabeças de gado certificado. 

Em 2021, seus integrantes abateram cerca de 40 mil cabeças, ou 10 mil toneladas de carne. Para 2022, a expectativa é o dobro. O aumento de produção se deve, sobretudo, à adesão de mais pecuaristas. A maioria chega atraída por incentivos fiscais criados pelo governo do Mato Grosso do Sul, explica Cruzetta. A meta da ABPO para 2023 é conseguir o selo de indicação de origem geográfica para a carne do Pantanal.

Campos de diversidade

Uma fazenda sustentável no Pantanal tem que conduzir a pecuária em harmonia com a conservação da biodiversidade e seus serviços ecossistêmicos, explica Walfrido Moraes Tomas, do Laboratório de Vida Selvagem, da Embrapa Pantanal. 

Tomas é um dos desenvolvedores da Fazenda Pantaneira Sustentável, um sistema de apoio para a avaliação da pecuária no Pantanal, criado pela Embrapa e que analisa mais de cem indicadores.

Ele destaca que são essenciais à conservação o bom uso das pastagens nativas, principal recurso natural e base da pecuária no bioma.  Nos princípios da pecuária sustentável, diz, estão manejo das pastagens, uso correto do fogo (quando, onde e com que frequência), manutenção da integridade hidrológica (não drenar as áreas úmidas, não fazer diques e construir pontes quando as estradas forem em aterros), além de manter a diversidade de ambientes nas paisagens.

“Este último requisito é importante porque quanto mais diversificada for uma paisagem, maior será a diversidade biológica. Limitar as alterações nas paisagens é fundamental, até porque o Pantanal é um bioma de uso restrito, conforme o Código Florestal”, enfatiza Tomas.

Existem mais de cem espécies de gramíneas nativas. Se o mimoso forma pastos macios, o rabo-de-burro parece um trigal, dourado. E quando o rabo-de-burro fica alto demais para o gado pastar, o fogo abre o campo para o mimoso.

Há muitas outras gramíneas nativas, como o felpudo, o fura-bucho, o barba-de-bode e o arrozal. Este último é comestível pelo ser humano, mas as safras imprevisíveis da planta não domesticada fazem com que seja pouco consumido.

“É o equilíbrio que manterá saudáveis o bioma e a economia”, frisa Tomas.

Existem mais de cem espécies de gramíneas nativas. Se o mimoso forma pastos macios, o rabo-de-burro parece um trigal, dourado. E quando o rabo-de-burro fica alto demais para o gado pastar, o fogo abre o campo para o mimoso.

Vacas orgânicas superpremium

A Santa Fé do Corixinho é uma fazenda média para padrões pantaneiros, tem 11,3 mil hectares, com 4.500 cabeças de gado. Destes, 250 são vacas angus orgânicas. A criação da vaca orgânica segue um protocolo de rigidez muito maior do que o da sustentável. É uma carne superpremium, de produção limitada e cuja produção atende a uma série de exigências e custa até 70% mais caro. 

Na criação das vacas orgânicas não se usa antibióticos, elas tomam homeopatia preventiva. Óleo de nim (extraído de uma árvore de origem indiana) é empregado para limpar parasitas. Nem pensar em usar produtos químicos ou transgênicos. 

Já na pecuária sustentável é feito o manejo de pastagens adequado às condições ambientais, utilizando técnicas que não prejudiquem ou reduzam ao máximo os danos à natureza. Na Santa Fé do Corixinho não se usa transgênicos.

As práticas ecológicas aumentam a produtividade. Porém, dão mais trabalho de início, demandam mão-de-obra mais intensiva e os ganhos chegam no longo prazo. 

“Enquanto uma área de pecuária convencional se paga em cerca de quatro anos, na sustentável leva sete anos. Porém, a sustentável pode produzir de duas a três vezes mais porque se beneficia de serviços oferecidos pela natureza”, explica Cruzetta.

Um desses serviços é a adubagem do solo. A maior biodiversidade promove interações entre as árvores e a biota do solo. O sombreamento permite que os animais andem menos e tenham mais conforto térmico. 

A água ajuda a limpar os campos de plantas invasoras, que atraem parasitas e não são comidas pelo gado. No planalto, se usa agrotóxico na limpeza dos campos. Na planície, a natureza faz esse serviço melhor e de graça.

Peão da fazenda Santa Fé do Corixinho, em Nhecolândia, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. A fazenda tem uma produção de pecuária orgânica e ecológica. Foto: Márcia Foletto

Painéis solares e massagem em bezerro

A energia solar já se espalha pelas fazendas e tem potencial para revolucionar o campo, levando energia para áreas sem acesso à rede elétrica. Graças à energia solar é possível intensificar o uso de internet e seus aplicativos que ajudam na produtividade, eletrificar cercas quilométricas e bombear água para o gado durante a seca. 

Cruzetta planeja substituir todas as suas cercas convencionais por elétricas porque são mais eficientes para manter e proteger o gado, pois ajudam a evitar predação por onças. Ainda são mais sustentáveis, pois sua instalação demanda menos da metade dos mourões de madeira e estes podem ser mais finos. 

A disseminação da tecnologia, porém, esbarra nas deficiências educacionais do pantaneiro. A falta de acesso à educação é um problema crônico no Pantanal devido a uma série de fatores, com destaque para o isolamento e as longas distâncias entre as fazendas e as escolas.

“Uma pequena bateria solar alimenta uma cerca grande. Mas precisa de manutenção e aí é que começam os problemas. Um peão excelente na lida muitas vezes não consegue compreender um manual. É ruim para ele, para a produção e o Pantanal”, diz Rodrigo Sandim, o Coró,  gerente da fazenda. 

O maior desafio do Pantanal é a educação, enfatiza Cruzetta: “Não tem nada mais importante do que isso. Ela é fundamental para implantar tecnologia, fixar as pessoas na terra e manter as famílias unidas”.

A falta de acesso à educação é um problema crônico no Pantanal devido a uma série de fatores, com destaque para o isolamento e as longas distâncias entre as fazendas e as escolas.

Hoje, as mulheres que trabalham nas fazendas precisam ir morar nas cidades quando os filhos chegam à idade escolar. Com isso, depois de um tempo, muitos casais acabam por se divorciar. 

“É uma permanente tensão, ruim para todos”, acrescenta Cruzetta. 

Difundir o novo também é desafiador numa terra onde se respira tradição. Deixando revelar no rosto a incredulidade, peões da Santa Fé do Corixinho escutam Cruzetta explicar que eles devem massagear os bezerros enquanto os tatuam ou vacinam, pois os ajudará a perder o medo do ser humano.

Acostumados com a lida rude do campo pantaneiro, para os peões, a massagem em bezerro parece ainda mais exótica do que o drone que ajuda a monitorar o rebanho.

Na Santa Fé do Corixinho se testa ainda a pastagem ecológica. Ela retira menos vegetação nativa para “formar” o pasto, poupa até dez vezes mais árvores e planta o capim no meio delas.  O método ainda não atingiu um patamar produtivo, mas o fazendeiro acredita que isso pode mudar com o apoio da Embrapa, fazendo com que mais pecuaristas se interessem pela prática. É um projeto de longo prazo.

Do pasto até o prato

O Pantanal tem abundância de beleza e biodiversidade. Mas é um poço de problemas logísticos. Um dos maiores deles o transporte de insumos e do gado. Longo é o caminho do gado, do pasto ao prato. Nos pantanais profundos, quando não há água, há lama. Na seca, areais e atoleiros. 

A Santa Fé do Corixinho, por exemplo, fica a 160 quilômetros da estrada de asfalto – e 60 quilômetros são de areal. Não tem estrada nem trilha, só as bitolas, os antigos caminhos pantaneiros.

Na seca, as bitolas só são trafegáveis por veículos 4×4. Na cheia, se tornam intransponíveis por qualquer veículo automotivo. Se chega na fazenda de avião ou no lombo de cavalo pantaneiro, capaz de nadar longas distâncias. É tão isolada que embora fique em Corumbá, o acesso mais próximo é por Rio Verde. A fazenda não é exceção, mas regra no Pantanal.

O consumidor decide

Há consenso de que é preciso haver incentivos para que os proprietários rurais que adotem práticas sustentáveis sejam compensados pelas restrições.

“A carne pantaneira custa mais caro para produzir e, por isso, o produtor precisa ser compensado pela produção sustentável. Um caminho são as carnes premium e com indicação de origem geográfica”, diz Gustavo Figuerôa.

Outra necessidade, segundo Walfrido Tomas, são critérios quantificáveis e auditáveis de sustentabilidade, para assegurar a credibilidade necessária para atender aos mercados, aos anseios da sociedade e à legislação.

Cruzetta salienta que, no fim das contas, o destino da pecuária pantaneira está nas mãos do consumidor:

“O consumidor é soberano. Ele é que vai decidir se quer a carne sustentável”. 

Sem perder o ritmo

No entardecer da Nenhecolândia, um peão toca o berrante, abre a porteira e o gado passa como onda, levanta uma espuma de poeira que inunda o ar de vermelho. O rebanho e os peões que o guiam seguem seu rumo para os cercados mais próximos da sede da fazenda, como fizeram seus ancestrais por gerações. Cá e lá se escutam garças e quero-queros anunciando o fim de mais de um dia. 

Na fazenda se acendem as luzes alimentadas pela energia solar. A internet funcionará por poucas horas, mas o suficiente para se colocar a vida em dia. 

“O Pantanal quer continuar sendo o mesmo, mas sem perder o pulso do mundo. Sou otimista que estamos no caminho”, afirma o fazendeiro.

Os marruás, o boi pantaneiro

No Brasil, o que não falta é gado. Há 224 milhões de cabeças bovinas para 215 milhões de habitantes, segundo o IBGE. Porém, um dos mais brasileiros dos bovinos, o da raça pantaneira, genuinamente nacional, anda em falta, sob a ameaça de extinção. Restam não mais que 3.000 deles. Mas graças ao esforço de pecuaristas, da Embrapa e de universidades, o pantaneiro não só pode ser salvo quanto virar raça para o mercado gourmet e solução para adaptação a mudanças climáticas e práticas sustentáveis. 

Famosa pelo país afora depois da novela “Pantanal”, que celebrizou os marruás, nome dado aos bovinos pantaneiros selvagens, a raça é bem mais que fera. É bela e cheia de outras virtudes.

“O boi pantaneiro é dessas coisas que só Darwin explica. Surgiu do cruzamento aleatório do gado trazido pelos primeiros colonizadores. É forte, bem adaptado, flexível aos humores do clima. Aguenta cheia, seca, calor, resiste ao carrapato, produz leite saboroso e uma carne que se diferencia pelo marmoreio (gordura intramuscular) e sabor especial, acentuado pelo capim nativo da região”, afirma Raquel Juliano, especialista no bovino pantaneiro e pesquisadora da Embrapa Pantanal, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

De quebra, esse bovino ainda enfrenta onça-pintada e, quando domesticado, é fácil de lidar. Muito bom, mas sem homogeneidade, o pantaneiro viu seus dias de glória ficarem no passado com a chegada do nelore ao Pantanal, em meados do século XX. 

Gados pantaneiros. Crédito: Marcus Ruiz

Pesquisas da Embrapa e da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS) mostram que o rebanho de bovino pantaneiro tinha 3 milhões de cabeças no início do século XX. O nelore chegou em meados do século passado e trouxe vantagens como maior produtividade, seja no peso seja na perda menor de bezerros. 

A raça zebuína indiana já veio padronizada para atender às exigências do mercado e ainda foi aperfeiçoada e adaptada no Brasil, que tem hoje o melhor nelore do mundo. 

O nelore se adaptou bem ao Pantanal e ofereceu vantagens como chifres menores (cabem mais animais no transporte por caminhão). 

O resultado é que nos anos 80 do século passado, o pantaneiro já havia praticamente desaparecido, restavam menos de 500 animais puros, entre gado de fazendas e marruás bravios nas brenhas pantaneiras. Foi então que a Embrapa iniciou um trabalho de resgate da raça. 

A meta é chegar a 2023 com 5.000 cabeças, o que deve tirar o pantaneiro da linha de tiro da extinção, frisa o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Bovino Pantaneiro (ACBP) e criador Thomas Horton.

Busca por reconhecimento

A pesquisadora Raquel Juliano destaca que também se espera conseguir o reconhecimento oficial como raça de bovino brasileira no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Esse gado já foi chamado de tucura, cuiabano e jofreano, mas atualmente os criadores preferem a denominação de bovino pantaneiro porque o termo tucura tomou uma conotação pejorativa, usado para designar animais pequenos, defeituosos ou frágeis.

O boi pantaneiro é resultado da seleção natural. Fruto da miscigenação de 15 raças ibéricas trazidas para a planície pantaneira pelos colonizadores portugueses e espanhóis há quase 300 anos. Ele se desenvolveu num ambiente ora generoso, ora hostil. Se fortaleceu nas pastagens naturais abundantes, mas de clima extremo e infestadas de parasitas. 

Se criou em uma planície que passa parte do ano sob a água e outra quase sem uma gota para beber. Um mundo para os fortes. Não à toa o boi pantaneiro é a materialização da rusticidade. Ele encara a cheia e pode pastar em áreas alagadas até altura da narina. 

Não tem medo de entrar na água – e vale lembrar que as águas pantaneiras são famosas por seus jacarés, piranhas e sucuris. Corajoso, mas não estúpido, o pantaneiro observa antes de se aventurar.

Ele se vira na seca comendo o pouco que há, sejam gramíneas, sementes, coquinhos, frutos e até cipó. 

“Não importa o clima, ele sobrevive. É um gado preparado para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo, as mudanças climáticas”, derrete-se Juliano.

O boi pantaneiro é menor que outras raças taurinas em função do habitat em que se desenvolveu, com período de extrema escassez de alimento. Onde se cria um nelore, se sustenta um pantaneiro e meio. 

O pantaneiro tem estatura mediana, tronco robusto, chifres vistosos e, em geral, longos e uma pelagem com uma cartela de cores que impressiona. Uma cartilha da ACBP lista 30 tipos de pelagem, 12 tipos de particularidades (marcas como “óculos escuros”) e 15 de chifres.

Há padrões de pelagem como amora, uma mistura de pelos brancos e pretos que dá um efeito de púrpura; azeitão, “pelos pretos que em contraste com a luz solar adquirem tom esverdeado”; e flor de guavira (uma complexa combinação de fundo branco com pintas castanhas, chifres claros e mucosas rosas). Mas, o tom mais comum é o castanho e suas variações.

Os chifres podem ser, por exemplo, rococós (enrolados em si mesmos) ou tucandira (“saem para os lados, em seguida vão para cima e para frente, com uma leve curvatura para dentro”).

Há quem diga que o pantaneiro é vira-lata caramelo das vacas, não deixa de ser um pouco de verdade, no que diz respeito à cor, ao bom temperamento e à rusticidade. É um animal soberbo, nativo, com enorme potencial. Essa raça é a cara do Brasil. Fruto de muita mestiçagem e adaptação, maleável, resistente

Raquel Juliano diz que não há comprovação científica de que o boi pantaneiro seja um gado de guarda contra onças.

“Mas ele tem sim um comportamento de rebanho diferente do nelore e que facilita a defesa”, observa.

Quando pressentem perigo, as vacas formam um círculo, com os chifres para fora, e colocam as crias no meio. Os touros raspam o chão e mugem para intimidar qualquer potencial predador. O rugido do touro pantaneiro não fica atrás do esturro da onça-pintada. Feroz com as onças e manso após ser domado, ele acompanhou o homem pantaneiro por mais de 200 anos até ser relegado em favor do nelore.

Resgatado das sombras, caminha para se tornar atrativo turístico, rural e gastronômico. Marcus Ruiz, criador de vacas pantaneiras leiteiras e um dos maiores incentivadores da raça, explica que os pecuaristas têm conseguido estabelecer linhagens e obtido bons resultados. 

Ruiz, pecuarista de Guia Lopes da Laguna, no Mato Grosso do Sul, explica que o boi pantaneiro foi vítima do desconhecimento sobre o potencial da raça. “Há quem diga que o pantaneiro é vira-lata caramelo das vacas, não deixa de ser um pouco de verdade, no que diz respeito à cor, ao bom temperamento e à rusticidade. É um animal soberbo, nativo, com enorme potencial. Essa raça é a cara do Brasil. Fruto de muita mestiçagem e adaptação, maleável, resistente”, afirma o pecuarista.

Ele garante que se trata do único bovino que entra, sem hesitação, no mato. Não tem medo de nada. As vacas escondem os filhotes e os touros vigiam.

Os bezerros pantaneirinhos ficam entocados por até duas semanas. Como o filhote não tem cheiro, o predador não percebe. Quando o bezerro sai do esconderijo, já está forte para seguir a mãe e fugir de onça. Já o nelore é branco, fácil de ver à noite, e fraquinho. O pantaneirinho é forte e bem disfarçado, elogia Ruiz.

“Adoro o boi pantaneiro. Pasta dentro d’água, briga com onça, dá bom leite e boa carne. Eu crio desde 1974. Mas o boi pantaneiro é uma tradição da minha família, desde os tempos da minha tataravó, índia Kadiwéu, povo que montava boi”, conta ele. 

Ruiz declara sua paixão e louva as virtudes das vacas pantaneiras. “Boas de leite”, diz. 

“Sem ração, só com pasto nativo, a pantaneira te dá 6 litros por dia e um bezerro por ano. A girolanda sem ração não produz. As pantaneiras resistem ao carrapato, só me dão lucro. As girolandas tiram. Não quero vacas de fora do Pantanal. Prefiro minhas pantaneiras corajosas, que sabem se virar”, enfatiza Ruiz.

Gado de corte

O negócio do pecuarista Thomas Horton é gado pantaneiro de corte. Desde 2008 ele trabalha no resgate da raça em sua fazenda em Rio Negro, no Pantanal da Nhecolândia (MS), e na presidência da ACBP. Horton tem selecionado linhagens para corte.

“O que destaca o gado pantaneiro de corte é a qualidade da carne, com marmoreio excepcional, mais suculenta e macia. Ainda temos que melhorar para atender a todas as demandas do mercado, mas a raça está num bom momento”, diz Horton.

O boi pantaneiro, surgido da evolução num ambiente rústico, caminha para o mercado de carnes selecionadas. Tem como atrativos a experiência gastronômica (sua origem e história), a identidade geográfica e fato de ser criado de forma sustentável.

Os criadores selecionam animais para ter ainda mais marmoreio. “Não adianta ter um animal excepcional. Você precisa ter linhagens bem estabelecidas, com regularidade de qualidade e quantidade. Em quatro ou cinco anos estaremos no nível de atender a essas condições”, assegura Horton.

Ele e Raquel Juliano já capturaram marruás para formar rebanhos puro-sangue. Não é tarefa fácil. Os bovinos selvagens têm estratégias de defesa, atacam e chifram homens e cavalos. Mas há cada vez menos manadas selvagens. Em Porto Jofre, em Poconé, no Pantanal do Mato Grosso, se estima que ainda existam entre 100 e 150 marruás selvagens.

“Os marruás são muito perigosos, não temem nada e atacam quando se sentem ameaçados”, diz Horton.

Em extinção nos campos, o bovino pantaneiro jamais desapareceu da cultura do Pantanal. É tema de músicas, poemas e em pratos típicos, como o macarrão de comitiva.

Juliano diz que o futuro é auspicioso, mas não se deve ter ilusão. A escala de abate não competirá nunca com a do nelore. A produção de leite é para o mercado gourmet. Mas o pantaneiro tem seu lugar garantido na gastronomia, no turismo, nas tradições e nas lendas.

Onça e boi: o convívio possível

Quando a noite cai no Pantanal, a escuridão parece sem fim. A cantoria de uma multidão de sapos e o zumbido de nuvens de insetos aos poucos dá lugar ao silêncio, só quebrado por uma ou outra coruja ou bacurau. Nos campos, o gado se junta, como se fosse uma coisa só. É chegada a hora da onça. E de testar uma série de estratégias para evitar o conflito entre os grandes felinos, as pessoas e seus animais de criação. 

Embora para as onças não exista horário ruim, são mais ativas à noite, explica o biólogo Fernando Tortato, da Panthera Brasil, uma ONG dedicada à conservação de felinos selvagens. A Panthera possui uma fazenda em Poconé, Mato Grosso, onde estuda não apenas os felinos quanto formas de resolver o conflito entre seres humanos e os grandes carnívoros. 

O conhecimento gerado na fazenda Jofre Velho, uma propriedade de 10 mil hectares às margens do Rio Cuiabá, é repassado a criadores. A Panthera cria na fazenda 500 cabeças de gado nelore e pantaneiro ou tucura. 

As principais presas das onças são as capivaras e os jacarés, mas uma vaca e, principalmente, um bezerro, distraídos podem acabar virando refeição. 

Três métodos são adotados na Jofre Velho. O primeiro é o uso de cerca elétrica. Tem dupla função: evita que a onça entre e que o gado escape e caia nas garras dela. Todo fim de tarde os peões da Jofre Velho levam o gado das pastagens para currais cercados. 

Fazenda Panthera, base de pesquisa da onça-pintada. A propriedade é usada para demonstrar como a onça pode coexistir em uma paisagem de gado. A fazenda fica na região de Porto Jofre e do Parque Estadual Parque das Águas. Na foto, a cerca elétrica que protege o gado da onça. Foto: Márcia Foletto

Lá o rebanho nelore é fechado com dois ou três touros pantaneiros ou búfalos. É o gado de guarda. O pantaneiro ou tucura é famoso não apenas por sua rusticidade quanto pela capacidade de enfrentar e botar para correr as onças, embora seja manso com seres humanos. As onças também evitam os búfalos.

“O gado pantaneiro não tem medo de onça. Os touros as enfrentam e mesmo as vacas com cria são bravas. Eles se protegem e ajudam a evitar ataques ao nelore”, diz Manoel Benedito, funcionário da Jofre Velho.

Um segundo método, complementar ao primeiro, é a instalação de luzes junto aos currais e cercados onde dormem os animais de criação – e não apenas o gado bovino. 

“As luzes espantam naturalmente não apenas as onças, mas outros predadores que se sentem à vontade na escuridão”, explica a bióloga Raíssa Sepúlveda, estudiosa de felinos selvagens e também pesquisadora da Panthera.

O terceiro método é o recolhimento todas as noites dos bezerros para currais maternidade, onde ficam até cerca de um ano de idade. Esses lugares são fechados e os bezerros ficam fora do alcance das onças, diz Sepúlveda.

Um dos desafios é permitir que os métodos possam ser empregados em escala por grandes criadores, com fazendas muito maiores que a Jofre Velho. Também precisam ter custo acessível para os pequenos produtores rurais, para quem a perda de uma única vaca é um grande prejuízo.

“Trabalhamos para transmitir conhecimento capaz de reduzir o conflito. É bom para a conservação das onças e dos felinos de forma geral e para o produtor rural”, salienta Tortato.

Sepúlveda acrescenta que os ribeirinhos guardam um grande temor das onças. Um medo transmitido de geração a geração que, segundo ela, tem raízes mais em tradição do que em fato.

“Vou para o mato sozinha trabalhar o tempo todo e nunca tive problemas com as onças. Já as ouvi esturrar. Mas essa é uma forma de comunicação. As pessoas daqui aprenderam a ter medo da pintada, mas não é para ser assim. É um animal para ser respeitado, mas se pode aprender a viver no mesmo ambiente de forma pacífica”, diz a bióloga.

*Essa reportagem faz parte do especial Pantanal em Foco do ((o))eco e foi realizada em parceria com o jornal O Globo

Por: Ana Lúcia Azevedo
Fonte: O Eco