Perdidos na floresta amazônica: meninos Mura são encontrados vivos

Perdidos na floresta amazônica: meninos Mura são encontrados vivos
Depois de passarem 25 dias perdidos na selva amazônica, os irmãos indígenas Glauco e Gleison são encontrados vivos por agricultor (Fotos: reproduções das redes sociais).

“Vem me buscar”. O apelo, vindo de uma voz triste e distante, salvou as vidas dos irmãos indígenas Glauco, 6, e Gleison, 8, que passaram 25 dias perdidos na floresta amazônica, no município de Manicoré, no sul do estado do Amazonas (e a 331 KM de Maaus). As crianças, pertencentes ao povo Mura, estavam perdidas desde o dia 18 de fevereiro, em plena estação chuvosa na Amazônia, período que dificulta ainda mais as caminhadas e o deslocamento, pois é quando os rios e os igarapés estão mais cheios e a floresta mais úmida.

Os dois meninos foram encontrados em uma área de mata fechada que faz parte da comunidade Nossa Senhora de Fátima, a seis quilômetros de distância da aldeia Palmeira, na Terra Indígena Lago Capanã, onde eles vivem com os pais. Desnutridos e desidratados, os irmãos passaram os últimos quatro dias no mesmo lugar, aguardando ajuda, até serem resgatados na última terça-feira (15) pelo agricultor Manoel Vilkem, de 55 anos.

Os meninos Mura pararam na área da comunidade Nossa Senhora de Fátima porque Glauco, já completamente debilitado, não tinha mais condições de seguir em frente. Quando Gleison sentiu uma movimentação de caminhadas próxima de onde ambos estavam, ele gritou, pedindo socorro, e foi ouvido pelo agricultor.

As crianças Mura sobreviveram 25 dias apenas tomando água da chuva, segundo eles mesmos contaram, nas poucas palavras que pronunciaram, tendo em vista suas condições físicas e mentais. O mês de março é quando ocorre a maior volume de chuvas na floresta amazônica. E o inverno amazônico, período que vai de novembro a maio, dificultou ainda as chances dos meninos Mura.

Amazônia Real optou por não publicar as fotos dos meninos devido às suas condições de extrema desidratação e desnutrição quando foram encontrados.

Nesta quinta-feira (17), as crianças foram transferidas para Manaus em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aérea. Por volta de 11h, elas desembarcaram no aeroporto internacional Eduardo Gomes, e, às 12h, foram internadas no Pronto Socorro da Criança, na zona Oeste da capital. Glauco e Gleison foram trazidos para Manaus porque em Manicoré não há pediatras e nem Unidades de Terapia Intensiva. No hospital em Manaus, eles serão avaliados para saber se ficarão na UTI ou não, durante o tratamento.

Em vídeo que circula nas redes sociais, Claudiono Ferreira, pai dos meninos, comentou como foi o resgate e falou do alívio em reencontrar os filhos. “A primeira busca que nós fomos foi difícil, mas para Deus não foi difícil. Nós éramos muita gente. Nós éramos 261 (pessoas). Tava (sic) muita gente.. PM, Civil, Corpo de Bombeiros e Funai, mas não conseguimos. Eu não consigo nem falar (emociona-se). Meu compadre foi visitar o castanhal dele e encontrou”, descreve ele.

Manoel Vilkem, que é compadre dos pais de Glauco e Gleison, tem o costume de andar naquele lado da mata próximo de sua comunidade. E foi graças a uma “tecnologia” de comunicação tipicamente das populações amazônicas que vivem na floresta, que as crianças puderam ser encontradas: a prática de “cacetar”.

Na última terça-feira, Vilkem estava naquela área de mata fechada e começou a “cacetar” as árvores. “Você usa porrete, que pode ser pequeno, e você fica cacetando as árvores. A utilidade é como se fosse um aviso que você está dando, de onde que você está, se você está longe do outro companheiro, aí você caceta a árvore e aí o outro companheiro que está mais distante sabe onde você está, e responde. É como se fosse o celular que você usa para falar com seu amigo ou amiga que está em algum lugar”, explica  o agricultor e servidor público do ICMbio, Manoel de Oliveira Rego, de 61 anos, que é amigo de Vilkem e tio de Rosa Carvalho, que é mãe das crianças desaparecidas

Gleison ouviu uma das cacetadas. Foi quando veio o primeiro pedido de socorro.“Ele (Vilkem), quando ouviu o primeiro grito, parou para ficar prestando atenção. Depois repetiu a cacetada (na árvore) e eles chamaram: ‘Vem me buscar’”, conta.

De acordo com Manoel Oliveira Rego, Vilkem seguiu a voz das crianças e as encontrou no chão já bastante debilitadas. “Eles já estavam muito fraquinhos. Sem condições de andar. Penso que se demorasse mais dois ou três dias, eles não teriam sobrevivido”, conta.

Da mata fechada, Vilkem levou as crianças até a sua canoa, e partiu em direção à comunidade indígena Palmeira, onde Glauco e Gleison reencontram os pais depois de ficarem 25 dias desaparecidos.

“O pai das crianças simplesmente não acreditava. Ele se emocionou bastante ao reencontrar os filhos”, conta o chefe de polícia do município de Manicoré, Everaldo Ribeiro, para quem, o resgate das crianças com vida é um verdadeiro milagre. “Essas crianças não foram encontradas em uma busca. Elas foram encontradas por acaso. As buscas já haviam sido encerradas, e elas conseguiram sobreviver por quase 30 dias. Em busca, isso é quase impossível, em se tratando de desaparecimento em matas, porque tem a insolação, os animais peçonhentos, e os animais selvagens, fora a desidratação. Fica difícil sobreviver na selva, no nosso ecossistema”, explica o policial.

Quadro clínico

Pessoas se aglomeram na porta do hospital em Manicoré (Foto: reprodução redes sociais)

Antes da transferência para Manaus, as crianças indígenas foram levadas para o Hospital Regional Doutor Hamilton Cidade, e quem deu as primeiras informações sobre o quadro clínico das crianças foi a diretora clínica, Suzy Sertafy. “As crianças chegaram com um quadro de desnutrição e desidratação grave, esse quadro acaba agravando a questão renal. Eles chegaram com uma pré-insuficiência renal devido à falta da ingestão adequada de líquido”, explica a médica.  As crianças apresentavam também muitas lesões na pele, por conta de picadas de insetos. 

A situação mais complicada é a do caçula Glauco. “Ele chegou com um quadro de desequilíbrio hidroeletrolítico, além dos outros quadros interiores, e bem mais descompensado. O Glauco, inicialmente, preocupava mais”, conta a médica.

Mas é surpreendente que, ainda assim, eles tenham chegado respirando o ar ambiente e estavam lúcidos. “Eles conversam o tempo todo, contando as histórias (…) Eles apresentam uma melhora clínica muito boa, já estão melhor da questão inflamatória, que estava muito grave também, principalmente o menino Glauco”, relata a médica Suzy Serfaty.

O desafio agora é segurar o ímpeto dos meninos Mura pois, devido à grave desnutrição, não podem comer qualquer coisa, afirmou a médica.  “Tem que ir com calma, não podem receber uma caloria muito aumentada devido ao período em que eles ficaram sem se alimentar”, aponta Suzy.

“Eles não tinham como se alimentar, então é uma forma difícil de eles entenderem que eles não podem comer hoje um pedaço de bolo, um peixe, como eles querem. Eles estão com essa ansiedade. Por isso a gente necessita do apoio psicológico para conseguir explicar para eles que isso não é possível neste momento, mas que, provavelmente, daqui a alguns dias isso vai ser possível”, explica.

Operação de resgate

Equipe de resgate procurava as crianças na mata (Foto: reprodução redes sociais)

Depois que as crianças desapareceram no dia 18 de fevereiro, uma grande operação de resgate foi montada, envolvendo pelo menos 140 homens, entre policiais militares, soldados do corpo de bombeiros, indígenas e mateiros. O Corpo de Bombeiros do Amazonas deu as buscas por encerradas no dia 24.  O caso foi então entregue para a Polícia Civil. As buscas passaram a ser feitas de forma independente, pela família.

Na ocasião, o coronel Orleilso Ximenes Muniz, do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, disse à reportagem de Amazônia Real, que nenhum vestígio das crianças havia sido localizado. “Nada foi encontrado durante o período de buscas, agora o caso passará para investigação da Polícia Civil do Amazonas”, disse à época.

As buscas aconteceram nos arredores da aldeia Palmeira, localizada na TI Lago Capanã, nas proximidades da Reserva Extrativista Capanã Grande. “A reserva extrativista só faz cercar a área indígena, demarcada e homologada, que é a comunidade Palmeira, que segue até a BR-319. A área indígena Palmeira tem 5.250 hectares. É bem pequena. É tudo parente”, explica Manoel de Oliveira Rego, do ICMBio.

Apesar do final feliz na história dos irmãos Glauco e Gleison, o chefe de polícia de Manicoré conta que as investigações sobre o caso vão continuar. “Eles saíram de casa para caçar passarinhos, porque eles gostam, só que isso me intriga.  Não estamos satisfeitos com essas informações. Essa resposta (sobre o que aconteceu) a gente ainda não tem, mas a gente vai chegar lá”, afirma o policial, lembrando que, tão logo as crianças estejam reabilitadas, elas serão submetidas à escuta especializada. O delegado não explicu por que o caso o intriga.

“Primeiramente, restabelecer a saúde corporal e psíquica, e depois vamos fazer esse procedimento, requisitar uma junta especializada, para ouvir o depoimento deles, que é um procedimento do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescentes). Aí sim, vamos ter condições de desvendar o mistério”, explica o chefe de polícia.

Outros casos

Não é a primeira vez que crianças ou adolescentes indígenas se perdem nas matas da floresta amazônica. Em 2008, Jonathan dos Santos Alves, 18, se perdeu uma área de difícil acesso, no município de Presidente Figueiredo, quando saiu para caçar. Ele ficou 50 dias perdido e morreu logo depois que foi encontrado pelo pai, o agricultor e mateiro Edilson Avelino dos Santos, 40.

Em fevereiro deste ano, Amazônia Real noticiou o caso dos indígenas Alberto Tenharin, de 24 anos, e Puré Juma Uru-Eu-Wau-Wau, de 20 anos, que foram resgatados depois de passar dois dias perdidos perdidos em uma região de difícil acesso da floresta amazônica no entorno da Terra Indígena Juma, em Canutama, no sul do Amazonas. Os jovens se perderam durante uma caçada de subsistência. Um total de 17 homens, entre lideranças indígenas de diversas etnias e funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) participaram da operação de resgate.

Equipe de resgate dos meninos (Reprodução redes sociais)

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real