Peru faz apelos para Brasil receber imigrantes haitianos na fronteira

Autoridades de Iñapari, no Peru, passaram a fazer apelos para que o governo brasileiro receba um grupo de 162 imigrantes haitianos (124 homens e 34 mulheres) que ocupa o coreto da praça de armas da cidade de 1,2 mil habitantes.

Jeanelus e a filha Belizaire. Foto: Altino Machado

Ao relento, sem apoio de grupos de defesa dos direitos humanos, os haitianos que estão em território peruano padecem de fome, não têm onde beber água e dormem sentados no chão, recostados na bagagem ou nos corpos de seus compatriotas.

– Nós não temos nada, mas aqui está melhor do que no Haiti.  Perdemos tudo em nosso país, onde tudo permanece no chão desde o terremoto – afirmar Jeanelus Eslande, de 37 anos, enquanto capta água da chuva com uma garrafa de plástico.

Ex-empregada domésticca, Jeanelus deixou na casa de parentes um filho de seis anos de idade e se aventurou na longa viagem com esperança de ingressar no Brasil acompanhada da filha Belizaire Mirmathe, de 13.

– No Haiti, estamos morrendo de fome, doenças, e não temos trabalho.  Querem nos mandar de volta para lá, mas o que vamos fazer no Haiti se vendemos tudo o que tínhamos para chegar até aqui?  – indaga a mulher, que dormiu com a filha, ambas escoradas na mala que carregam.

Iñapari é separada pelo Rio Acre do município de Assis Brasil, a 345 quilômetros de Rio Branco, a capital acreana.  Na quarta-feira (18), quando havia apenas 120 haitianos do lado peruano, os imigrantes tentaram atravessar a Ponte da Integração, mas foram barrados por agentes da Polícia Federal, que pedi reforço da Força Nacional para enfrentar a situação.

Os 162 imigrantes que estão em Iñapari saíram do Haiti antes do dia 12, quando o governo brasileiro decidiu pela emissão limitada de vistos de trabalho para haitianos e determinou o reforço policial na fronteira com a Bolívia, Perua e Colômbia.

O visto terá caráter especial e será concedido pelo Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da embaixada do Brasil em Porto Príncipe, capital do Haiti.

No coreto de Iñapari, haitianos sonham com o Brasil. Foto: Altino Machado

Uma resolução do Conselho Nacional de Imigração prevê que poderão ser concedidos até 1,2 mil vistos por ano, correspondendo a uma média de 100 concessões por mês.

O governou brasileiro alega que o objetivo da medida é regularizar a situação dos imigrantes haitianos que têm entrado no país pelo Acre e pelo Amazonas.  Segundo o Ministério da Justiça, foram quatro mil no ano passado.

O grupo que se encontra na praça de Iñapari já estava em viagem quando o governo brasileiro decidiu praticamente fechar a fronteira.  Na quarta, em carta enviada ao prefeito de Iñapari, os haitianos deixaram claro que o destino deles é o Brasil.

– Nós estamos de passagem somente, porque nosso objetivo é chegar ao Brasil, em busca de melhores condições de vida, já que nosso país está devastado pelo terremoto.  Não temos nem água para tomar banho nem para beber e já estamos adoecendo por causa disso.

Na carta, os haitianos pediram aos peruanos hospedagem, comida e água como ajuda humanitária.  Depois que os imigrantes foram barrados e enviaram a carta, autoridades brasileiras e peruanas se reuniram em Iñapari no dia seguinte.

Segundo informações da Direção de Migrações de Puerto Maldonado, uma da regiões mais pobres do Peru, mais haitianos estão a caminho de Iñapari, onde as autoridades não contam com recursos financeiros nem infraestrutura para ajudá-los.  A presença dos haitianos já é considerado um problema social na pequena cidade.

O superintendente da Polícia Federal no Acre, José Calazane, participou da reunião junto com o delegado Edilson Barbosa.  A PF permitirá apenas o ingresso de haitianos que apresentarem passaporte com visto obtido na Embaixada Brasileira em Porto Príncipe.

– Nós temos que cumprir uma decisão de estado.  Não estamos autorizados a permitir o ingresso de imigrantes que deixaram o Haiti antes da decisão do governo brasileiro.  Dependemos agora de uma decisão da presidente Dilma.  Só ela para resolver o impasse – disse o superintendente Calazane.

As autoridades peruanas informaram que todos os haitianos presentes em Iñapari são considerados imigrantes legais, pois ingressaram no Peru com vistos de turistas.  Eles poderão permanecer no país até um ano.

Os peruanos pediram com insistência para que a Polícia Federal permita o ingresso dos haitianos em território brasileiro.  Eles também defenderam que a diplomacia dos dois páises devem buscar um solução humanitária para o problema.

– Com homens e mulheres impedidos de passar para o Brasil, porque na ponte está a Polícia Federal vigiando, está criada uma crise humanitária na fronteira.  Esperamos que as negociações com o governo do Brasil prosperem e os haitanos possam ingressar no país – comentou o padre peruano René Salizar, de Iberia, que atua num grupo de defesa dos direitos humanos na fronteira.

Os haitianos têm agido com honestidade ao tentarem passar pelas barreiras policiais, especialmente quando alcançam a fronteira brasileira.

Existem centenas de caminhos dentro da floresta que conduzem às margens do Rio Acre.  A Polícia Federal jamais vai dispor de homens suficientes para garnecê-los.

A partir de qualquer um desses pontos, bastaria os haitianos atravessarem o rio para alcançarem o território brasileiro.

Brasiléia

Café dos imigrantes em Brasiléia. Foto: Altino Machado

Ainda existem 550 imigrantes haitianos no município de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia.  Diferente dos que estão em Iñapari, estão abrigados, se alimentam três vezes ao dia e várias empresas passaram a disputar a contratação dos imigrantes.

Nesta semana, a construtora Odecrecht levou 40 haitianos para uma obra no Mato Grosso.  Entre eles estava um jovem de 24 anos que fala fluentemente cinco idiomas e que nos últimos meses lecionava português para os compatriotas nos finais de semana.

A Romena, uma indústria de massas de Gravataí (RS), contratou 14 haitianos.  A empresa pagou as passagens aéreas dos imigrantes do Acre ao Rio Grande do Sul.  Tem sido cada dia mais frequente a presença de empresários ou seus representantes selecionando haitianos para o trabalho.

O fazendeiro Antonio Carlos Franganiello Melhem e o filho, Thadeu, agrônomo, se destacam na praça central de Brasiléia, que passa o dia ocupada por homens e mulheres haitianos.  Pai e filho conversaram com dezenas de imigrantes ávidos por informações.

– Saiba que sou primo do Wálter Fanganiello Maierovitch, que também escreve em Terra Magazine.  Vivo em Sete Barras, perto de Registro, a 200 quilômetros de São Paulo.  Estou aqui porque quero sangue novo trabalhando comigo – disse o fazendeiro em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia.

Fonte: Altino Machado
Fonte: Blog da Amazônia

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