Pioneiro na atuação com indígenas isolados lamenta falta de sensibilidade com povos originários

Décadas de experiência com grupos isolados ensinaram “outra forma de ver o mundo” ao indigenista Wellington Figueiredo

Figueiredo (à dir. de camiseta branca) conversa com integrantes de grupo isolado do povo Arara em 1982 – Acervo pessoal

O oeste do Amazonas é o lugar do planeta com maior concentração de indígenas isolados, aqueles que optaram por não manter contato com a sociedade formada pelos colonizadores. Dos 26 povos que habitam a Terra Indígena Vale do Javari, 19 deles vivem em isolamento voluntário, segundo a plataforma Terras Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA). 

Poucas pessoas conhecem os habitantes dessa região como o sertanista Wellington Figueiredo, de 70 anos. Ele esteve na linha de frente de dezenas de expedições da Fundação Nacional do Índio (Funai) que estabeleceram contato com povos habituados a viverem de maneira autônoma na floresta. De lá para cá, a política da Funai mudou, e o contato passou a ser perseguido apenas quando há risco de extermínio. 

Ele ressalta que os isolados estão cada vez mais ameaçadas pelo avanço do desmatamento, mas lamenta que a situação desses povos desperte pouca empatia na opinião pública. O pano de fundo dessa dessensibilização, para o sertanista, é a ideia de que indígenas não contribuem para girar a roda da economia capitalista. 

“Os isolados formam uma sociedade complexa, com regras, obrigações de grupos e indivíduos. São pessoas que sentem prazer, que sentem ódio, que têm amor, que fazem festa igual a gente. E o contato acaba com tudo isso”, afirmou Figueiredo. 

Quando ajudou a criar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai, nem imaginava que os grupos estariam correndo ainda mais perigo três décadas depois. Com a experiência de quem já chefiou a CGIIRC, ele critica os atuais ocupantes do departamento, acusado de negligenciar o risco de genocídio de povos autônomos sob o governo de Jair Bolsonaro (PL). 

“Tem pessoas lá [na CGIIRC] que não deveriam estar nessas funções. São pessoas que trabalham contra os índios, contra os isolados. É necessário que na Funai tenha pessoas que estejam do lado dos índios, do lado do Brasil, do lado do ser humano. Essas que estão hoje ou não sabem o que estão fazendo ou não têm comprometimento com o trabalho”, afirma. 

:: Força Nacional é chamada para atuar na proteção de indígenas isolados no Mato Grosso ::

Mesmo assim, Figueiredo acha que a tempestade vai passar. Aposentado, diz imaginar como seria um Brasil fundado a partir da cooperação entre europeus e povos originários. Um sonho que, para ele, pode até se tornar realidade no futuro, caso os não indígenas aprendam as lições que os isolados têm para ensinar. 

“O contato às vezes dá uma euforia. Você vê um povo diferente, que tem outros valores. Eu aprendi que a forma que me ensinaram a viver não é a única. Isso para mim foi uma coisa maravilhosa. Existem outras formas de se estar nesse mundo. E eu consegui enxergar isso”, diz Figueiredo. 

Leia a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Para os indígenas isolados, que estão fugindo da sociedade criada pelos colonizadores, o que significa a experiência do contato com não indígenas?

Welington Figueiredo: Historicamente, pelas informações minhas e de outras pessoas, podemos dizer que o contato se resume num ato prejudicial aos índios. Mas que não precisava ser necessariamente assim. Podia ser bem melhor. Houve algumas experiências que foram melhores, outras piores e algumas trágicas. Mas podia ser tudo melhor. Além de você ter um respaldo político da Instituição [Funai], é preciso que estejam envolvidas pessoas preparadas para isso. Não é só boa vontade. 

Hoje o malefício que pode decorrer do contato talvez possa ser até mais forte do que no passado. Porque as coisas ocorrem com uma rapidez muito grande. Em alguns contatos anteriores, às vezes levava anos para chegar uma gripe ou um resfriado. Hoje isso ocorre em questão de horas. Você pega uma voadeira [pequena embarcação motorizada] e em poucas horas chega ao território do grupo isolado. 

Ainda mais com a pandemia de coronavírus…

Ainda tem esse agravante. E tem outras doenças que se propagam com maior rapidez e menos conhecidas, então fica bem difícil para os índios. Eu posso dizer a partir de experiências pessoais. Para quem está lá fazendo contato, na hora é uma emoção muito grande. Mas eu tenho na memória muito forte o contato na época da aproximação com os Matis [habitantes do oeste do Amazonas], o primeiro grupo com o qual tive a experiência de aproximação. 

Como eu havia passado pelos Ticunas [na mesma região dos Matis], eu fiquei a imaginar como seriam os Matis de uns anos após. Eu via os Matis na sua integridade cultural, nos seus valores, no seu orgulho. E depois de um tempo eu fiquei a imaginar que eles estariam, talvez, como estavam os Ticunas. Ou seja, na dependência e em desarranjos sociais, o que é terrível. 

As comunidades indígenas isoladas são sociedades estáveis e complexas. Há um preconceito de que, por estarem lá “pelados”, não fazem parte de uma sociedade complexa. Mas não é assim. É uma sociedade com regras, com obrigações de grupos e indivíduos, conforme o local que cada indivíduo ocupa nessa sociedade referente a segurança, alimentação e religiosidade. E o contato acaba com tudo isso. É muito triste. 

Se antes eu era jovem e me entusiasmava pelo contato, pela aventura, por estar lá com os índios, hoje eu fico muito pesaroso. Porque vai passar o tempo e tudo isso vai ser jogado ao chão. Os valores, a religiosidade, tudo mesmo… Eu não tenho um remédio, uma fórmula mágica. Mas em cima de erros e acertos que nós já cometemos, por que não pensar uma coisa que possa ser menos sofrida para esses povos? Por que não podemos aprender com o nosso passado e fazer coisas boas de agora para frente? 

Hoje a Funai é acusada de ignorar a confirmação de um novo grupo de isolados no sul do Amazonas. O setor responsável por cuidar desses povos, dentro da Fundação, é a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), que você ajudou a criar e chefiou. Desde então, como você vê a evolução da CGIIRC?

Historicamente houve erros e acertos por parte das pessoas que estiveram à frente da CGIIRC. Mas o que se observa agora – e o que me contam – é que tem pessoas lá que não deveriam estar nessas funções. É como você ter um engenheiro fazendo cirurgia. São pessoas que trabalham contra os índios, trabalham contra os isolados. Mais argumento eu não tenho. É necessário que na Funai tenha pessoas que estejam do lado dos índios, que estejam do lado do Brasil, que estejam do lado do ser humano. Essas que estão hoje ou não sabem o que estão fazendo ou não têm comprometimento com o trabalho.

Mas voltando ao passado, quando começamos o trabalho na CGIRC em Brasília, éramos eu, o Sidney [Possuelo, ex-presidente da Funai], uma antropóloga, a Hilda, que era minha esposa, e uma secretária. E quando começamos a buscar as informações que vinham das áreas, houve um trabalho de divulgar entre todas as unidades da Funai que se tivesse alguma informação sobre isolados deveriam ser repassadas à Brasília. 

Figueiredo com indígena do Alto Quixito, no Vale do Javari / Acervo pessoal

Eu, pessoalmente, achava que depois de uns 10 anos, no máximo, essas questões já estariam resolvidas. Passaram mais de 30 anos, e continua a mesma coisa. Grupos estão desaparecendo e outros desapareceram nesse intervalo, sem que tivessem a mínima oportunidade de sobreviverem. Tem um atraso do estado brasileiro, de todos os governos que passaram por aqui. Todos eles têm responsabilidade nisso. Essa questão, não era mais para estarmos conversando sobre ela, se tem ou não tem índios isolados. Mas continuamos andando a passos de tartaruga.

E a mata está sofrendo com trator, com motosserra. Cada dia tem uma motosserra mais eficiente, um trator mais eficiente. Mas também tem drone para ver se tem se não tem índio. Eu vejo hoje pessoas correndo atrás deles para ver se identificam… seres humanos! Pai, mãe, tio, avó, amigo… É uma tristeza. São pessoas que sentem prazer, que sentem ódio, que têm amor, que fazem festa igual a gente. Que coisa…

Você acha que os grupos isolados despertam pouco empatia na opinião pública? Como se fosse mais fácil se solidarizar com mortes de pessoas mais parecidas com a gente…

O que você disse está certo também. Mas criou-se também uma mentalidade de que o que não é progresso, não é humano. Índio produz o quê? Quanto que ele representa na produção nacional? Então não é gente. Parece que para ser gente, você precisa apresentar um comprovante de que você contribuiu para o PIB [Produto Interno Bruto]. O índio não consome, não vai no shopping, não compra o tênis que vale “tanto”, não desconta INSS. Ou falta, ou perdemos essa sensibilidade de ver as pessoas como todas iguais. Todos merecem respeito, todos têm os nossos sentimentos. A luta deve ser por todos e mais ainda pelos menos favorecidos.

Quem tem mais tecnologia deve oferecer ao outro. E se o outro não quiser, deixa ele lá. Traz desconforto para alguém saber que um grupo vive feliz? Será que é isso, um desconforto pelo outro se sentir bem? Por existir uma sociedade organizada que supre suas próprias necessidades das suas formas. Isso causa uma estranheza? 

O avanço desenfreado da fronteira agropecuária no Brasil pode aumentar a exposição dos isolados ao contato com não indígenas?

Esses grupos tendem a se subdividirem para sobreviverem. É mais fácil escapar com 50 pessoas do que com 100. A mobilidade e a facilidade de arrumar alimentação para 100 é diferente de fazer isso para 50. A existência de um determinado grupo pode ser pulverizada. Daí, talvez, é possível que apareçam outros grupos. 

Por exemplo, nos Araras da região de Altamira [no Pará] aconteceu isso. Eles eram um grupo grande, mas com a construção da rodovia Transamazônica e com a exploração de minério na região, eles se subdividiram. Os Paracanã [também no Pará] são outro exemplo. Com os Guajá no Maranhão, a mesma coisa. Então isso pode ocorrer também aí no sul do Amazonas, onde foram confirmados os novos isolados.

avanço do desmatamento e da agropecuária é grande, com essa frente que vem de Porto Velho e Humaitá. Os caras vão ter que se subdividirem para sobreviverem. Então que podia ser um grupo isolado acaba sendo três ou quatro.

A dinâmica desse movimento é bem parecida com a da colonização. O que estamos vivendo hoje é uma continuidade do processo que começou há 500 anos?

Eu vejo uma diferença. Porque, além de ocorrer hoje em uma velocidade muito mais rápida, eu vejo que hoje nós temos tecnologia e valores mais humanos. Tecnologia para desviar uma estrada, para desviar o núcleo de ocupação. Essas adaptações não seriam prejudiciais a nada, não influiriam em nada na economia brasileira. Dizem que o índio ocupa as terras que têm mais produtividade… Conversa fiada, não existe isso!

Dizem que o índio é a causa do nosso subdesenvolvimento… Conversa fiada! O Brasil teve uma montanha de ouro e não teve progresso para ninguém. Olha o caso de Serra Pelada, de Minas Gerais. O que me deixa chateado é que dá para fazer tudo. Dá para fazer exploração de madeira e ouro sem afetar os índios. E quando tiver que fazer uma estrada, por que não dar uma volta de 50 quilômetros? O índio não é empecilho para desenvolvimento da nossa sociedade dominante. Isso é conversa fiada, é balela. 

Tem alguma experiência com isolados que tenha te marcado?

Cada uma é uma experiência diferente. A dos Matis me marcou muito porque foi a primeira vivência com os isolados. Essa me deixou três dias sem dormir. Porque, além da emoção, eu ficava imaginando como é que seriam eles depois [do contato]. Eles não sabiam disso, mas eu era capaz de saber. A experiência dos Araras também foi muito boa porque, apesar de algumas mortes que houve, foi a experiência de um salto no meu trabalho. Descobri que às vezes a aproximação pode significar o salvamento de um grupo. Se você puder deixá-los isolados, é a melhor coisa. Mas, às vezes, se você não toma a iniciativa do contato, pode significar a sobrevivência deles.

Índio Matis. Igarapé Boeiro, rio Ituí, Terra Indígena Vale do Javari. Amazonas, 1985 / Isaac Amorim Filho

O contato às vezes dá uma euforia. Você vê um povo diferente, que tem outros valores. Eu aprendi que a forma que me ensinaram a viver não é a única. Isso para mim foi uma coisa maravilhosa. Existem outras formas de se estar nesse mundo. E eu consegui enxergar isso. Essas experiências me trouxeram muitas tristezas, muitas angústias e muita luz. Foram experiências maravilhosas na minha vida. Quando olho para o passado, fico alegre por ter tido essa oportunidade de conhecer esses grupos isolados.

Para você, existe a esperança de um dia vivermos em uma sociedade harmônica entre indígenas e não indígenas?

Uma vez imaginei o que teria acontecido se, quando os portugueses chegaram, tivesse um grande acordo entre os chegantes e os que estavam aqui para construir uma sociedade diferente. Eu fico divagando, pensando nos caminhos que teríamos percorrido depois de 500 anos. Nós olharíamos nosso passado e veríamos que houve um acordo respeitoso. Fico imaginando todos sentados na beira do fogo, planejando, construindo essa sociedade… Bem diferente do que é hoje, né?

Essa harmonia ainda é possível? Ou é só devaneio, o sonho de um velho sertanista (risos)?

É devaneio (risos)! Mas dá para fazer coisas boas ainda… Dá sim… Eu acredito. 

Por: Murilo Pajolla
Fonte: Brasil de Fato