Produção de madeira com ipês pode triplicar na Amazônia, aponta pesquisa

Especialistas pedem cautela na aplicação dos dados para que uma exploração insustentável ou ilegal não avance em áreas preservadas da floresta equatorial

Trabalho de órgão ligado ao Ministério da Agricultura contraria avaliações anteriores e aponta uma enorme quantidade de ipês adultos na floresta. Especialistas sugerem cautela no uso dos dados para evitar a exploração insustentável ou criminosa da mundialmente valorizada espécie, desde 2020 não mais listada como em extinção. 

Há mais de 40 milhões de ipês amarelos e roxos aptos para produzir madeira apenas no Acre e em Mato Grosso, aponta a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O estudo pesou os estoques em 950 km2 já manejados e em outros 264 mil kmde florestas públicas. A área somada é um pouco menor que a do Tocantins.

“A floresta não manejada poderia fornecer 3,5 vezes a produção total atual na Amazônia de forma sustentável. Somente os dois estados poderiam triplicar, de forma perene, a produção atual”, destacou Evaldo Muñoz Braz, pesquisador da Embrapa Florestas, em Colombo (PR), e principal autor do estudo sobre os ipês amazônicos. 

Os estoques foram estimados com bancos de dados, literatura especializada, avaliações em campo, dados sobre regeneração natural da espécie e de inventários florestais, usados em planos de manejo autorizados por órgãos ambientais. Os inventários – conduzidos por madeireiras – apontam quantas árvores há por hectare de floresta.

Aí mora um perigo, pois tais balanços podem inflar o número de espécimes para esquentar madeira removida de áreas protegidas ou sem autorização de manejo. O crime foi registrado em trabalhos como do Greenpeace Brasil e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo (USP).

Para Marco Lentini, coordenador de Projetos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), os inventários são um “tendão de Aquiles”, o ponto fraco. “O relatório da Embrapa se baseia em métodos e áreas que provavelmente não representam a realidade [da oferta de ipês] em toda a Amazônia”, completou.

Lentini comentou, ainda, que o número de árvores estimado pela empresa pública é de “certo modo um choque” frente a estudos publicados desde 2008. “O debate técnico e científico está aberto. [Acreditamos] que a peça que foi publicada não é um parecer consolidado dentro da própria Embrapa”, acrescentou o engenheiro florestal. 

O cenário é ainda mais cinzento, pois um relatório deste ano da Forest Trends, ONG estadunidense que valoriza globalmente o manejo para conservação florestal, descreveu que as populações de ipês despencaram nos últimos 30 anos e podem sumir da Amazônia brasileira. As causas são os crescentes desmate e procura mundial por pisos e móveis com a nobre madeira.

Mas para Humberto Navarro, coordenador de Inventário e Informação Florestais no Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a análise focou nas perdas e no comércio e desprezou os estoques e a capacidade de regeneração dos ipês. “Não é uma espécie rara. Dados do Inventário Florestal Nacional, atualizados constantemente, já indicavam sua abundância na Amazônia”, disse.

Com mais de 100 tipos catalogados, o ipê cresce no país todo. As maiores reservas estão na Amazônia. Não há plantios. Toda a extração depende de árvores crescidas naturalmente. Planos de manejo federais somam hoje cerca de 1 milhão de hectares, quase todos na floresta equatorial e com retiradas graduais da espécie.

“O manejo associa uso e preservação da floresta, mantém a biodiversidade e ajuda a captar carbono pela regeneração da vegetação após cada extração, ao longo de ciclos com 30 anos. Quase todo (98%) o ipê legalmente extraído vem de planos de manejo e o restante de cortes autorizados”, afirmou Navarro, do SFB. 

Ipê em meio à floresta amazônica. Foto: Fabio Thaines / Embrapa

Livre de Ameaças?

A incidência de ipês indicada para o Acre e Mato Grosso indicaria que a espécie está à salvo da extinção. Segundo pesquisadores da Embrapa, isso precisa ser reforçado justamente com manejo e combate ao “corte raso” e criminoso da floresta equatorial que domina o norte do país, comumente seguido pela queima de toda a vegetação. 

Desde 2020, o ipê está no centro de investigações federais baseadas na maior apreensão de madeira ilegal da história. Na ocasião, cerca de 44 mil árvores foram confiscadas desde a região dos rios Mamuru e Arapiuns, no município de Santarém (PA). O ex-ministro Ricardo Salles foi exonerado em junho de 2021 por suspeita de facilitar a exportação criminosa de madeira.

“O que extingue espécies é gado e soja, não o manejo”, ressaltou Evaldo Braz, da Embrapa Florestas. “Planejamento e critérios técnicos fazem o manejo gerar renda e conservação”, reforçou o engenheiro florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (RS). A agropecuária responde por 98% do desmate da Amazônia, mostrou o MapBiomas.

Para reforçar uma economia que não acabe com a floresta, a efetividade do manejo de ipês é testada em áreas concedidas na Floresta Estadual Mamuru-Arapiuns, no oeste paraense. No local, o verde tem se regenerado favoravelmente após cada extração pontual de espécimes. Dependendo da tecnologia disponível, árvores de maior ou menor porte podem ser exploradas. 

“Ipês com 60 cm a 70 cm de diâmetro têm mais madeira, depois crescem mais lentamente. A produtividade depende de clima, solo e da competição por espaço. Os ipês se reproduzem quando chegam ao dossel [topo da floresta], quando alcançam a luz do sol”, explicou Lucas Mazzei, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental que conduz os estudos. 

Os testes são apoiados pela Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Pará (Aimex). O estado é um dos maiores produtores e exportadores no país de madeiras nativas da Amazônia. Ano passado, exportou quase 212 mil m³ de madeiras, sobretudo aos Estados Unidos e União Europeia. As vendas movimentaram em torno de US$ 200 milhões de dólares, hoje cerca de R$ 1 bilhão.

Conforme a Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO, sigla em Inglês), o m³ do ipê é atualmente comercializado no Exterior por até US$ 1.715, ou cerca de R$ 9,2 mil. Além do Pará, a economia madeireira é forte no Acre, Mato Grosso e Rondônia. Os dois últimos também são líderes históricos no desmate da Amazônia. 

Segundo Mazzei, da Embrapa Amazônia Oriental, para ampliar o manejo e manter mais árvores na floresta é preciso vencer “a cadeia produtiva da ilegalidade”. “Devemos reforçar o produto legal, a fiscalização e as punições para tornar o ilegal cada vez mais caro”, defendeu o doutor em Ciências Florestais pela École Nationale du Génie Rural (França). 

Para evitar mais exploração ilegal ou insustentável de ipês, Marco Lentini, do Imaflora, pede cautela no uso das análises de governo e análises criteriosas em toda a Amazônia. “Não entendemos que o relatório [da Embrapa Florestas] define os parâmetros que guiarão manejo, conservação e produção de espécies no médio e no longo prazos na região”, disse o mestre em Economia de Recursos Florestais pela Universidade da Flórida. 

Precaução é peça-chave diante do cenário. Afinal, os estoques de ipês podem ser bem menores em outros pontos da floresta equatorial e o atual governo afrouxou regras de exportações. No fim de 2020, o ipê deixou uma lista global que protege espécies ameaçadas. A medida foi adotada após uma reunião do presidente do Ibama, Ricardo Bim, com madeireiros. 

Desde então, o ipê pode ser exportado como uma espécie comum, sem maior controle governamental. Antes e pelos crescentes corte e venda ilegais de madeira, ele era listado na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites) e precisava de licença para deixar o país. 

“Retornar a espécie à Cites, como se estivesse sob algum grau de ameaça de extinção, pode prejudicar as exportações nacionais e inviabilizar financeiramente os planos de manejo. Endurecer demais as regras pode sufocar essa estratégia de conservação”, ressaltou Humberto Navarro, do SFB. 

Enquanto isso, a oferta e o potencial madeireiro de outras espécies são testados, inclusive para reduzir a pressão sobre árvores mais visadas. A lista tem Apuleia leiocarpa (garapeira), Hymenolobium spp. (angelim-pedra), Astronium spp. (muiracatiara) e Peltogyne spp. (pau-roxo). “Não saber que espécie ocorre em determinado local é tão grave quanto explorá-la até a exaustão”, arrematou Braz, da Embrapa Florestas.

Por: Aldem Bourscheit
Fonte: O Eco