Projeto de telemedicina garante acesso à saúde reprodutiva na ilha do Marajó

A iniciativa do Fundo de Populações das Nações Unidas realiza também a entrega de itens de higiene pessoal para mulheres

Letícia Souza, 21 anos, mora em Santa cruz do Arari e está gravida do terceiro filho. Ela recebeu o kit do projeto, que contém produtos de higiene pessoal. – Melina Marcelino/Assessoria de imprensa

Os desafios para os moradores da ilha do Marajó, no Pará, são muitos e com a pandemia isso se agravou ainda mais. Preocupados, sobretudo, com mulheres em idade reprodutiva nasce o projeto “Saúde das Manas”, que levará atendimento de ginecologia e obstetrícia, por telemedicina, a mais de 80 mil mulheres residentes nos municípios de Santa Cruz do Arari, Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Melgaço e Salvaterra.

A iniciativa é fruto de uma parceria do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) com o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Pará (Cosems/PA). Além do atendimento virtual, as mulheres receberão kits, chamados “Dignidade”, contendo material de higiene pessoal e também contracepctivos.

Segundo dados do projeto, até o momento foram entregues 600 kits. Letícia Souza Melo, de 21 anos, foi uma das pessoas que recebeu os insumos. Ela está grávida do terceiro filho e mora de Santa Cruz do Arari.

A cidade tem pouco mais de 10 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2016, o município estava na 102ª posição, entre 144 cidades paraenses, no que diz respeito a taxa de mortalidade infantil. Em 2017 – último dado disponível no IBGE – saltou para 25ª posição com mais de 22 óbitos a cada criança nascida. 

A falta de um pré-natal adequado ou até mesmo o acesso a métodos contraceptivos são rotina na vida das mulheres e homens dos municípios. 

A Unidade Mista de Saúde da cidade, onde a sala de telemedicina será instalada, conta, atualmente, com um clínico geral para atender toda a população. Ele trabalha 10 dias por mês. No entanto, se o morador da cidade precisar de uma consulta com um médico especialista, ele precisa ser encaminhado para a capital do Pará, Belém. 

Com a instalação da sala, as mulheres que necessitam de um ginecologista ou obstetra não precisarão mais se deslocar até a capital.

Quatro filhos sem pré-natal

Tânia Cabral tem 26 anos, três filhos, e mora na zona rural de Santa Cruz do Arari. Ela teve filho pela primeira vez aos 14 anos e agora está, novamente, grávida. 

Por não ter feito o pré-natal, ela não sabe se está ou não esperando gêmeos e conta que em nenhuma das suas gestações contou com atendimento médico.

“É muito difícil, porque a pessoa precisa ter moto ou carro para vir. Como eu não tenho nenhum dos dois fica bem complicado. No inverno é fácil por causa da embarcação, mas no verão é moto ou carro e eu não fiz pré-natal. Por isso, vou ter que viajar, porque ficou uma gravidez bem delicada, porque é meu quarto bebê e como eu não fiz ultrassom fica difícil saber quantos bebês eu tenho, provavelmente eu tenho dois bebês na barriga”, afirma.

Tânia Cabral está em sua quarta gestação. Como não fez pré-natal terá que se deslocar para Belém, capital do Pará, pois pode estar esperando gêmeos. / Melina Marcelino/Assessoria de imprensa

Atualmente, quem faz o atendimento de pré-natal das mulheres em Santa Cruz do Arari são os enfermeiros e enfermeiras da unidade de saúde.

A importância de proteger as mulheres mais vulneráveis

A oficial de Programa para Segurança de Insumos em Saúde Sexual e Reprodutiva do Fundo de Populações das Nações Unidas, Nair Souza, explica que ele está presente no Brasil desde a década de 70 e que tem enfatizado o atendimento de mulheres e adolescentes neste período de pandemia da covid-19.

“Para além dos prejuízos relacionados a mulheres como a questão da gravidez indesejada, também podem haver grandes impactos na questão do pré-natal, o que pode ocasionar o aumento da mortalidade materna e é isso que motiva o UNFPA a apoiar o Cosems/PA. Os serviços de saúde reprodutiva têm que ser mantidos, os insumos têm que chegar às destinatárias e as mais vulneráveis têm que ser protegidas e apoiadas”, reforça Souza.

O projeto entregará ainda material informativo direcionado para as mulheres da Ilha do Marajó e conteúdos radiofônicos em rádios comunitárias, redes sociais e grupos de trocas de mensagens dos municípios envolvidos na ação.

No total, foram investidos cerca de R$ 1,6 milhão. Parte do dinheiro foi empregado na compra de equipamentos de TV, notebooks e acessórios para a montagem das salas de telemedicina nos municípios. Também foram compradas bicicletas e tablets para ajudar no trabalho dos agentes comunitários de saúde e coordenadores da atenção básica, que irão atuar no projeto.

A esses profissionais também foram entregues luvas, máscaras e outros Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para proteção contra o novo coronavírus.

Em contrapartida, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Pará (Cosems/PA), contratou duas médicas e assegurou a contratação do serviço de internet banda larga para realizar as teleconsultas.

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato

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