Queimadas na Amazônia: Podcast Papo de Floresta discute as origens e consequências do fogo 

A temporada de seca está apenas começando na Amazônia, mas no mês de julho já foram registrados 4.977 focos de calor no bioma, totalizando 11.367 ao longo dos sete primeiros meses do ano. Para entender os impactos desses dados e o que podemos fazer pela floresta, o Podcast Papo de Floresta trouxe uma série especial sobre as queimadas, fazendo um panorama geral sobre o assunto conversando com especialistas, brigadista voluntário e uma produtora rural. 

O primeiro episódio discute justamente a origem do fogo. Como pode uma floresta tropical ter índices tão altos de queimadas? Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM) explica: “Para ter uma ocorrência de fogo precisa ter três condições principais: a primeira é um clima favorável, quente, seco, com a pressão do ar ideal para que esse fogo comece e se espalhe. A segunda condição é o material combustível para queimar, em quantidade e qualidade. A terceira, que eu acho no caso da Amazônia o mais importante dos fatores, é a fonte de ignição: precisa ter quem ou o que comece o fogo. O conjunto desses três fatores é que faz com os focos registrados pelo INPE sejam muito altos ou muito baixo”.

No caso da Amazônia, chama ainda mais atenção que o fator “ignição” seja humano, ou seja, as pessoas estão colocando fogo na floresta. A falta de fiscalização, punição e de incentivos para conter os altos índices de queimadas e desmatamento tem causado impactos na economia brasileira, e tem feito surgir pressões internacionais para que o país adote medidas efetivas contra a degradação ambiental. Carlos Ritll, senior fellow do Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade de Potsdam, Alemanha, explicou no segundo episódio do Podcast, como as queimadas contribuem para as mudanças climáticas e quais as consequências para o Brasil nas negociações com o mercado e investidores internacionais.

“Essas imagens [das queimadas e desmatamento] chegaram no mundo inteiro e foi em setembro e outubro de 2019, que vimos as primeiras grandes manifestações de grupos de investidores, de cadeias de supermercados, de empresas que têm negócios com produtores de commodities no Brasil levantarem mensagens de alerta dizendo ‘eu não quero os meus negócios associados à destruição florestal, não quero meus negócios associados ao aumento do desmatamento, associados à queimadas e incêndios florestais’”, relatou. 

Em agosto de 2019, a VF Corporation, empresa dona de 18 marcas, confirmou que não utilizaria couro vindo do Brasil até que tivessem segurança da origem dos produtos. Celebridades e mesmo o presidente da França, Emmanuel Macron, levantaram preocupações em relação à Amazônia. Nos meses seguintes, empresas se apressaram a ressaltar que não compravam produtos sem controle de origem e outros boicotes ganharam escala. A Tesco, multinacional britânica, veio a público informar que não comprava carne do país por causa do desmatamento. Em dezembro, um grupo de 87 empresas europeias, entre elas Carrefour, a Associação Belga de Alimentos (BFA) e o Consórcio Britânico de Varejo (BRC) divulgaram uma carta aberta demonstrando preocupações com o futuro da Moratória da Soja e em junho deste ano, fundos de investimentos que juntos gerenciam um ativo de quase US$ 4 trilhões pediram ao governo brasileira o fim do desmatamento.

O olhar dos povos da floresta

Os dois últimos episódios da série sobre queimadas aprofundaram o tema trazendo a experiência daqueles que vivem na floresta. Maria Josefa, agricultora familiar e presidenta da Associação das Mulheres Produtoras de Polpas de Frutas de São Félix do Xingu, no Pará, falou como produtora narrando sua experiência de quando perdeu totalmente sua produção por causa de um incêndio iniciado em uma propriedade vizinha.

Após recomeçar sua produção, Maria Josefa se aproximou de movimentos e associações e atualmente usa sua experiência para falar sobre técnicas de produção que não incluam o fogo com vizinhos e parceiros estrategiscos. “O fogo enfraquece a terra. Muita gente diz ‘vamos queimar porque dá força para a terra’, não é. Ele faz é enfraquecer!”, afirma. 

O último episódio foi ao ar dia 11 de agosto e conversou com Divino Marcos Alves Teixeira, brigadista voluntário que vive e atua na região de São Félix do Xingu, no Pará. Apesar de fazer parte de uma brigada de pessoas que ajudam o corpo de bombeiros quando ocorrem grandes incêndios florestais, Divino relata que o maior desafio não é o enfrentamento ao fogo, mas sim conscientizar a população. “Somos filhos aqui da cidade, e estamos vendo a nossa mata, os nossos rios se acabarem. Estamos tentando fazer algo, não só por nós, mas pela própria natureza”, relata. 

Sobre o Papo de Floresta 

O Papo de Floresta é um podcast que traz informações e conteúdos especiais sobre tudo que vem e que se faz ou que se pode fazer pelas florestas brasileiras. Cada episódio traz convidados especiais que ajudam a entender a nossa relação com a biodiversidade e como podemos contribuir para a conservação. A produção é feita por Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e Imaflora!

Fonte: Amazônia.org