Quem perde a roça tem pressa: campanha pede apoio a indígenas afetados pelas cheias recordes no Amazonas

“Rio Negro, Nós Cuidamos”, campanha de enfrentamento à Covid-19 liderada por mulheres indígenas, lança apelo por 500 cestas básicas para comunidades prejudicadas pela enchente histórica no noroeste amazônico

Quando as águas estão agitadas, os povos do Rio Negro dizem que o “banzeiro tá forte”. É o que podemos dizer dos anos de 2020 e 2021, seja pelas ondas em série de Covid-19 ou pela enchente histórica que agora afeta as comunidades indígenas de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Para levar alimentos para as famílias indígenas que perderam suas roças na enchente, a campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), lançou um apelo para arrecadar 500 cestas básicas até o dia 31 de julho.

A Foirn está fazendo um levantamento das comunidades afetadas e as lideranças indígenas estão enviando relatos à sede da federação dos estragos causados pela maior cheia já registrada na região. De acordo com o último boletim de monitoramento hidrometeorológico da Amazônia Ocidental, do dia 18 de junho, São Gabriel da Cachoeira ultrapassou em 20 cm — a maior marca havia sido registrada em 2002.

Articulação e adaptação

Desde segunda-feira (21/6), o Departamento de Mulheres da Foirn está fazendo a entrega de 570 cestas que já foram captadas em uma primeira ação via Rede de Cooperação Amazônica (RCA) e Makira-Êta Rede de Mulheres Indígenas.

A entrega das cestas é uma ação emergencial. A Foirn também se preocupa com a sustentabilidade dessas comunidades no longo prazo e com a preservação dos hábitos alimentares locais e das roças. Por isso, as mulheres já estão pensando em ações de adaptação a esses eventos extremos relacionados à emergência climática.

Casas alagadas no Rio Papuri, afetado pelas cheias recordes no Amazonas|Janete Desana/Foirn

“Temos que procurar formas de adaptação. Isso se mostra cada vez mais necessário. A gente não queria que acontecesse essa enchente e agora temos que buscar estratégias de alimentação, fazer roças em locais mais altos, casas em lugares mais protegidos também. É uma preocupação nossa como indígenas do Rio Negro, mas deveria ser de todo mundo. Se a gente não cuidar do nosso meio ambiente, vamos sofrer ainda mais os impactos das mudanças climáticas. Por isso, de agora em diante, nós mulheres indígenas temos que discutir e agir mais sobre esses assuntos dos impactos ambientais das mudanças climáticas”, afirmou Dadá Baniwa, uma das coordenadoras do Dmirn e da campanha Rio Negro, Nós Cuidamos.

Rio Negro, Nós Cuidamos: em ação até à fronteira

Numa área de atuação de 13,4 milhões de hectares que engloba nove terras indígenas, o desafio logístico da Foirn e demais instituições que atuam na região é enorme para conseguir acessar as comunidades.

Além dos principais rios, há muitos igarapés e cachoeiras perigosas, cheias de pedras, correnteza e redemoinhos.

Janete Alves, do povo Desana, diretora da Foirn, fez uma viagem entre os dias 24 de abril e 7 de maio para as comunidades do Médio e Alto Uaupés, indo até Querari, na fronteira com a Colômbia, e também no Rio Papuri.

Acompanhada de Larissa Tukano, coordenadora do Departamento de Mulheres, da comunicadora Eucimar Aires Desana, e dos conselheiros do Conselho Diretor da Foirn, Arsênio Costa Ferraz, do povo Wanano, e Jonni Carlos Valencia Dias, Tukano, a diretora constatou os estragos causados pela enchente.

A equipe também instalou duas novas estações de radiofonia para ampliar e fortalecer a comunicação, ainda mais neste momento de emergência. Um ponto foi colocado em São José, no Médio Uaupés, e outro em Arara Cachoeira, no Alto Uaupés. Janete conseguiu ir até a última comunidade indígena, Querari, na fronteira do Brasil, com a Colômbia, onde também existe um pelotão do Exército brasileiro.

“Fico emocionada de poder ver a situação em cada comunidade e poder repassar para os parentes na nossa língua Tukano o trabalho que estamos fazendo tanto na pandemia, como agora na enchente. Eu também queria escutar deles quais são os desafios agora e como podemos ajudar as comunidades”, disse Janete, que fez sua primeira viagem como diretora eleita da Foirn.

Veja trecho de relato enviado por Janete ao Instituto Socioambiental (ISA), parceiro da Foirn e apoiador da campanha Rio Negro, Nós Cuidamos:

Janete Desana na fronteira Brasil-Colômbia|Eucimar Aires/Foirn

“Tem famílias que estão perdendo casas e tem famílias que estão perdendo roças. Então, uma roça é planejada por uma família para se manter dois, três anos ou até quatro anos.

Mas, veio essa enchente e as famílias tiveram que arrancar tudo. Ou perderam sem arrancar mesmo. E essas pessoas já estão passando por necessidades.

Então, queremos ajudar essas famílias urgente doando cesta básica para elas se manterem por um tempo.

Alagando o terreno, a mandioca estraga toda porque não tem como as mulheres trabalharem dia e noite para torrar farinha e fazer beiju. É muita roça perdida, perderam muitas frutas também. Vimos também casas alagadas e os parentes estão se ajudando e acolhendo as famílias.

Pela visão dos jovens daqui temos muitas mudanças climáticas e um desequilíbrio total. Agora está demais mesmo. Estamos vendo os impactos. Nossos conhecedores e benzedores já sentem o que vai acontecer no futuro também. E agora estamos vendo que tudo mudou, o clima mudou. O verão tá exagerado, a enchente tá exagerada.

Pela Foirn, estamos fazendo levantamento maior de quantas famílias vamos precisar ajudar nas comunidades. E essa ação do DMIRN está fazendo muita diferença porque atua rapidamente em uma necessidade emergencial. Porque sabemos que as famílias vão ter que esperar a cheia passar para fazer novas roças. Isso vai demorar, vai ter que esperar. A gente se preocupa com essa situação porque eles vão ter que esperar muito tempo para se organizar. Não é de um dia para o outro que se faz roça.”

Por: Juliana Radler
Fonte: ISA