Rede Xingu+: somos maioria na defesa das nossas florestas e dos nossos territórios!

Reunidos na Aldeia Khikatxi, do Povo Khisetje, lideranças de 25 Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais reafirmaram a luta contra os ataques do governo e de invasores; leia a carta-manifesto

encontro da rede xingu+
Lideranças indígenas históricas se reuniram em encontro da Rede Xingu+|Lucas Landau/Rede Xingu+

Lideranças de 25 Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da Rede Xingu+ se reuniram na última semana para defender seus direitos e territórios. O encontro aconteceu na Aldeia Khikatxi, do Povo Khisetje, do Território Indígena do Xingu.

Foi um momento de escutar as lideranças desses povos, realinhar as prioridades e reforçar a união pela defesa da floresta em toda a Bacia do Xingu. 

Oito organizações se juntaram à luta da Rede Xingu+, que se expande em um momento crucial de ataques aos direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. Também, foi um espaço de troca entre os mais velhos e a juventude, onde lideranças mais antigas apresentaram ao coletivo as mais novas e mostraram que a luta seguirá viva e ativa. 

Ao final do encontro, foi escrita conjuntamente uma carta-manifesto sobre os principais pontos abordados no encontro e sobre as principais definições da rede. 

Leia o documento:

Manifesto da Rede Xingu+
Pela quinta vez em 11 anos, representantes dos 25 povos indígenas e comunidades
tradicionais da Bacia do Rio Xingu estiveram reunidos para defender seus direitos e territórios.
Desta vez, o encontro da Rede Xingu+ foi na Aldeia Khikatxi, do povo Khisedje, do Território
Indígena do Xingu, Wawi. Fomos recebidos com muita generosidade por nossos parentes e
voltamos para nossas casas animados para seguir nossa caminhada.
A pandemia levou muitos dos nossos parentes. Aqui prestamos nossas homenagens a
esses grandes líderes, homens e mulheres que nos deixaram, e honramos suas memórias
seguindo na luta pela proteção de nossas vidas. Se não bastasse a pandemia, ainda
enfrentamos quatro anos de um governo genocida que promoveu a invasão dos nossos
territórios e desrespeitou nossos direitos.
Parece até que estamos revivendo a época do contato, quando invasores e doenças
quase acabaram com nossos povos e territórios. Mas aprendemos com nossos antepassados.
Mesmo sem falar português, eles se uniram e costuraram alianças para demarcar nossas terras
e garantir que hoje estejamos aqui, vivos e orgulhosos de nossas culturas. Isso é a Rede
Xingu+: a união dos povos da floresta na luta pela vida, por nossos territórios e nossos direitos.
Depois de quatro anos de desgoverno e dois anos de pandemia, estamos ainda mais fortes:
oito organizações se juntaram à Rede Xingu+ neste encontro. Não vamos abaixar nossas
cabeças!
Neste ano de eleição, estamos trabalhando para derrubar o governo atual e nos
preparando para ajudar na reconstrução do país durante o próximo governo. Nossos povos e
organizações estão prontos para eleger seus representantes e gerir as políticas públicas que
nos interessam. Vamos derrubar, uma por uma, as ameaças que pairam sobre nós, como o PL
191, PL 490, PL 337 (que visa a retirada do Mato Grosso da Amazônia Legal), o Pacote do
Veneno (PL 6.299), a tese do Marco Temporal e outras propostas que pretendem limitar
nossos direitos e entregar nossos territórios para a exploração de mineradoras, madeireiras e
grileiros.
Vamos também ampliar nossos projetos e mostrar para a sociedade brasileira que
temos boas propostas para o futuro do país. Já provamos que é possível se desenvolver e viver
bem sem derrubar a floresta. O mundo inteiro está de olho no Brasil e cada vez mais países
apoiam nossas iniciativas, pois toda a humanidade se beneficia com a preservação dos nossos
territórios. A maioria das pessoas já entenderam que sem floresta e água limpa não haverá
futuro em canto nenhum do mundo.
A Rede Xingu+ está mostrando a força das mulheres, que hoje assumem um papel de
liderança e protagonismo no movimento dos povos da floresta, junto com os homens. São
advogadas, gestoras, deputadas e guardiãs de saberes e culturas milenares. São lideranças das
aldeias, preparadas desde criança para defenderem seus povos.
Nos orgulhamos, também, dos jovens que somam na luta. Com orientação, formação e
apoio, os jovens se tornaram fundamentais na defesa dos nossos direitos. São comunicadores,
cineastas, tradutores, gestores das nossas organizações que mostram para o Brasil e para o
mundo a força das nossas culturas, denunciam violações de direitos e promovem nossos
projetos para um desenvolvimento justo e sustentável.
Queremos falar também sobre os nossos parentes que estão ajudando os invasores a
destruírem nossos territórios com garimpo, roubo de madeira e desmatamento. Eles são uma
pequena minoria, mas o governo divulga a fala deles, tira foto do lado deles e faz parecer que
eles nos representam. Isso não é verdade. O governo tem que respeitar nossas organizações
representativas, nossos Protocolos de Consulta e a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho.
Mas nós não desistimos deles, pois são nossos parentes. Queremos entender porque
estão fazendo isso e tentar ajudá-los de alguma maneira. Os verdadeiros criminosos são os
donos do dinheiro e os que hoje governam o país, que aliciam nossos parentes com promessas
e mentiras. Nossa história é mais forte, nosso futuro é mais importante.
A Rede Xingu+ manifesta seu apoio à Aliança Contra o Garimpo dos povos Yanomami,
Munduruku e Kayapo. Eles estiveram conosco esses dias e ouvimos deles o sofrimento e
graves crimes que têm sido cometidos em seus territórios com a omissão do governo. Exigimos
que os invasores sejam expulsos e que os financiadores do garimpo e compradores do ouro
ilegal sejam investigados e punidos. Agradecemos, também, a participação dos nossos
parentes Xavante, Bororo, Terena, Bakairi, Suruí, Uru-eu-wau-wau e outros que nos alegraram
com sua presença e nos deram força para seguir lutando. A Rede Xingu+ está de braços
abertos para receber todos que estejam do lado da vida e da floresta.
A Rede Xingu+, portanto, está mais forte que nunca. Estamos conscientes dos nossos
desafios e preparados para enfrentá-los, com alegria e com firmeza. Os mais velhos estão
cansados ou já se foram. Mas nunca serão esquecidos. Encerramos com uma fala do grande
cacique Raoni, que não pode estar conosco, mas segue iluminando os nossos caminhos.
“Respiramos todos o mesmo ar, bebemos todos a mesma água, vivemos todos na
mesma terra. Temos todos o dever de proteger a nossa Terra!”

Fonte: ISA