Região Norte possui pior cobertura vacinal completa

Procura por vacinas específicas contra a Covid-19, falsificação das carteirinhas e desinformação explicam por que estados como Roraima, Amapá, Acre, Rondônia e Pará estão bem atrás da média nacional.

No momento em que o país apresenta as menores médias móveis de casos de Covid-19 nesta pandemia, provando que a imunização é a forma mais eficaz para conter o coronavírus, milhares de pessoas continuam recusando a vacina. E é em seis estados da Amazônia Legal que figuram com as piores médias nacionais: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Maranhão e Pará. 

“Tem pessoas que chegam no posto de saúde perguntando: ‘não tem a da Pfizer?’. Isso porque tomaram determinado imunizante na primeira dose, como por exemplo a AstraZeneca, tiveram a reação física esperada da vacina e, quando chega o momento da segunda dose, querem tomar outro imunizante”, relatou a enfermeira Lidiane Assunção de Vasconcelos, de 39 anos, que coordena o posto de vacinação montado no câmpus da Universidade Estadual do Pará, localizado na Avenida Almirante Barroso, centro de Belém.

Professora da mesma instituição, Lidiane explicou à Amazônia Real que, além das possíveis reações dos imunizantes, como febre, dores locais e de cabeça, muitos recusam a vacinação com determinados imunizantes por considerá-los menos eficazes. “A culpa é das fake news. Neste momento não tem como escolher vacinas, é preciso escolher não ficar doente e ser mais uma vítima da Covid-19. E isso só vem com a imunização, e a imunização completa, com duas doses, para quem não tomou a vacina da Janssen”, explica a enfermeira.

Como alguns locais públicos, como estádios, casas de show e eventos religiosos, passaram a solicitar o comprovante de vacinação com o esquema vacinal completo, assim como algumas empresas para os seus funcionários, as equipes de vacinação começaram a perceber que as pessoas estão retornando fora do calendário de vacinação. “Tem tido essa procura, e ela vem agressiva. As pessoas chegam exigindo a vacinação, sendo que existe toda uma programação estabelecida pelas Secretarias de Saúde”, contou Lidiane.

Mas os baixos números de imunização completa no país podem ser explicados por um outro fator, que é criminoso. Segundo a enfermeira Lidiane, já há casos de pessoas falsificando as carteirinhas de vacinação ou comparecendo aos postos de saúde para solicitar segunda via, mesmo não tendo recebido nenhuma dose das vacinas. Isso tem deixado os profissionais em alerta, já que há também casos de pessoas que chegam aos postos de vacinação, preenchem a carteirinha e, na hora de irem para a fila da vacinação, fogem do local.

A situação paraense

Ponto de vacinação vazio na Igreja Assembléia de Deus, bairro Maguari, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Igreja laberedas de fogo, Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Templo Labaredas de Fogo, da Igreja Quadrangular do Reino de Deus, um dos principais pontos de vacinação do município de Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Hospital de Campanha Hangar, o principal do estado do Pará, cujas atividades serão encerradas sábado (16). (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Dona Maria Iracema Gomes da Costa, 81 anos, tomando o reforço da vacina no Posto de vacinação localizado no Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Estadual do Pará, em Belém. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Enerli Araujo, 43 anos, enfermeira responsável pelo posto de vacinação localizado no Templo Labaredas de Fogo, em Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Eliene Baltazar, 57 anos, técnica de enfermagem ligada a Secretaria de Saúde de Ananindeua. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Praça do CAN, em Belém do Pará. Fiés se reunem para ver a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, exposta por ocasião das festividades de Círio de Nazaré. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Praça do CAN, em Belém do Pará. Fiés se reunem para ver a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, exposta por ocasião das festividades de Círio de Nazaré. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

O estado do Pará possui a sexta pior cobertura vacinal no país, segundo levantamento feito pela Amazônia Real utilizando dados dos Vacinômetros das Secretarias Estaduais de Saúde. O fracasso se estende também à grande evasão para a segunda dose, que completa o esquema vacinal da maioria dos imunizantes disponíveis.

Apenas 35,6% da população paraense se encontrava com a imunização completa até 20 de outubro. Isso significa dizer que dos quase 8,8 milhões de habitantes do Pará, 3.384.338 tomaram a primeira e a segunda dose dos imunizantes disponíveis, ou a dose única da Janssen – imunizante da farmacêutica Johnson & Johnson. O estado possui atualmente cerca de 5 milhões de pessoas vacinadas com pelo menos uma dose.

“Quanto mais as pessoas vierem se vacinar, mais rápido as coisas vão voltar ao normal. A gente não pode botar tudo a perder e correr o risco de toda aquela desgraça acontecer de novo, aquele monte de mortes que a gente já viu. Não custa nada, é uma ‘furada’ [no braço] para salvar a nossa vida e a dos outros”, recomendou José Roberto de Melo, de 31 anos, que aproveitou a folga no trabalho para tomar sua segunda dose.

Não havia filas quando José chegou ao posto de vacinação improvisado na Igreja Assembleia de Deus, na estrada do Maguari, em Ananindeua, região metropolitana de Belém. Mais de 15 profissionais aguardavam pelo público na manhã do dia 9, quando a reportagem visitou o local. As cadeiras vazias e o silêncio no interior do templo, antecipavam o balanço da imunização daquele dia.

Katia Barros, enfermeira responsável pelo posto, explicou que a demanda tem oscilado e que “as pessoas continuam achando que não precisam se vacinar”. Ela contou também que as pessoas constantemente se confundem com o calendário de vacinação, normalmente dividido entre primeira e segunda doses de cada imunizante, grupo etário e, quase sempre, distintos entre as cidades da Grande Belém.

“As pessoas fazem confusão entre os calendários de Belém,  Ananindeua  e Marituba, que não são iguais. A gente avisa, passa na televisão, está nas redes sociais das prefeituras, mas não adianta”, disse a coordenadora.

Há alguns quilômetros dali, em outra igreja evangélica, o Templo Labaredas de Fogo, o auxiliar de padeiro, Thiago Duarte Melo, 28 anos, contou à reportagem que algumas pessoas têm tido dificuldades em pedir liberação do trabalho para se vacinar. “Tem muita gente também que não conseguiu vir se vacinar por conta do trabalho. Não é fácil pedir uma licença para o patrão, tem uns que não entendem e que estão correndo atrás dos prejuízos da pandemia”, disse Thiago que teve a compreensão de seu chefe.

Não faltam vacinas no Pará. Mais de 11 milhões de doses foram distribuídas até agora, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sespa), para os 144 municípios do estado. Mas nas cidades a procura pela vacina não obteve a adesão que se esperava.

São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, por exemplo, recebeu 113.128 doses de vacina e aplicou apenas 24.363 (21,5%), segundo a Sespa. É o município paraense mais atrasado na vacinação vacinou até agora. A média nacional da imunização completa é de 49,78%. Outro dado preocupante expresso no Vacinômetro do estado, diz respeito à faixa etária de 18 a 59 anos, que compreende cerca de 4,3 milhões de pessoas e alcançou uma cobertura vacinal de 2ª dose de 20,1% – cerca de 874 mil indivíduos. 

Em nota, a Sespa disse que trabalha para que as vacinas cheguem aos municípios e que a aplicação dos imunizantes é de responsabilidade das prefeituras. A reportagem não conseguiu contato com a prefeitura de São Félix do Xingu.

O dano do negacionismo

Posto de vacinação Shopping Phelippe Daou em Manaus no dia 18 de fevereiro de 2021 com cadeiras vazias pela baixa procura por vacinas (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

“Infelizmente, essa baixa adesão reflete o negacionismo impulsionado por políticos populistas como o presidente Jair Bolsonaro ou por alguns grupos evangélicos que associam as vacinas ao diabo ou a supostos danos físicos. As consequências são óbvias: novas infecções, internações e mortes plenamente evitáveis”, explicou o epidemiologista Jesem Orellana, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/Amazônia).

O pesquisador ressaltou ainda que, mesmo a região Norte apresentando desaceleração da pandemia, é preciso estar atento ao fato de como a crise sanitária foi administrada nos Estados, e de como é complexa e deficitária a estrutura da saúde nesta parte do país. 

Os dados computados pela Sespa até 20 de outubro mostravam a população privada de liberdade com 14,1% de cobertura vacinal; pessoas com deficiências permanentemente graves com 9,0%; gestantes com 5,6%; puérperas com 13,1%; pessoas com comorbidades, 40,9%; população quilombola, 24,4%, e pessoas em situação de rua, 37,2%. Já as Forças Armadas (47,3%), população indígena (54,3%) e profissionais da educação (57,2%) estão entre os grupos mais adiantados na imunização.

De acordo com o último boletim epidemiológico, expedido no dia 19 de outubro, o Pará já havia registrado 595.995 casos confirmados de Covid-19 e 16.713 óbitos relacionados à pandemia. 

Por conta da queda registrada nas últimas semanas, o governo estadual anunciou o fechamento de um dos principais hospitais de campanha em atividade no Pará. Localizado na capital, Belém, e montado nas dependências do Hangar Centro de Convenções desde abril de 2020, o hospital foi oficialmente desativado no sábado (16). No local, será construído um memorial em homenagem às mais de 2 mil vítimas da Covid-19 que morreram no local. Durante os 19 meses em que esteve em atividade, o hospital atendeu 7.351 infectados com o coronavírus. A Sespa informou que os pacientes de Covid-19 serão encaminhados para a rede hospitalar já existente. 

Até o dia 20 de outubro, o Brasil registrou 21.664.879 casos de infecções por coronavírus e 603.855 mortes por Covid-19. O Pará já iniciou a aplicação da dose de reforço, mas estes dados ainda não estão computados no vacinômetro.

Menos restrições sanitárias]

Fiéis se aglomeraram na procissão do Círio de Nazaré em 10 de outubro
(Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Desde o início de agosto, por meio de um decreto do governador Helder Barbalho (MDB), todas as cidades paraenses estão sob o bandeiramento verde, que flexibiliza as restrições sanitárias contra a disseminação do coronavírus, e libera o funcionamento de bares, casas de show, estádios de futebol, eventos religiosos e outros. 

No último dia 13, Barbalho anunciou a liberação de público de 50% nos estádios de futebol, decisão acompanhada pela prefeitura de Belém, município que sedia as arenas dos principais clubes paraenses. No mês passado, o prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL), renovou o decreto de calamidade pública do município, estendendo-o até março de 2022.

A falta de fiscalização e o relaxamento do público com relação às medidas de proteção contra a disseminação do vírus, tais como o uso de máscara, álcool em gel e o distanciamento social, têm sido comuns em locais de grandes aglomerações, como casas de show, bares, festas de aparelhagem e eventos religiosos. O Círio de Nazaré, considerada a maior manifestação religiosa do Brasil e declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, que ocorre sempre no segundo domingo de outubro, reuniu nas ruas de Belém cerca de 500 mil fiéis neste ano, segundo dados da Cruz Vermelha. O evento pode ter sido a maior aglomeração já registrada no país desde o início da pandemia.

O pesquisador Jesem Orellana classificou o evento como uma “imprudência sanitária”, já que as multidões, mesmo com máscaras, acabam por facilitar a dispersão viral. “Muitas medidas foram relaxadas, o que era esperado em um país como o Brasil que lidou tão mal com a pandemia. Apesar da franca desaceleração da epidemia, o ideal seria manter suspensos os eventos sociais e esportivos que geram aglomeração”, orientou Orellana.

“A vacinação é a única arma eficaz que nós temos contra a Covid, mas ela não significa a eliminação da doença. Primeiro porque as pessoas estão deixando de tomar a vacina, segundo porque é preciso dar tempo para que a imunização de fato aconteça no organismo”, ressaltou Lidiane Vasconcelos.

Piores coberturas no Norte

Barreira feita pelos indígenas para o enfrentamento da covid na TI Raposa Serra do Sol em Roraima (Foto: Caique Souza/ ASCOMCIR )

Segundo levantamento feito pelo Consórcio de Imprensa, atualizado até o dia 13 de outubro, Roraima é o estado com pior ciclo de vacinação, com apenas 25,6% da população imunizada com duas doses ou dose única que fazem parte do Plano Nacional de Imunização (PNI). Em seguida, vem Amapá (27,1%), Acre (36,0%), Maranhão e Tocantins, ambos com 37,6%, e o Pará (38,6%). Rondônia vem na oitava posição (39,6%) e o Amazonas na décima (40,1%) no ranking dos estados com a população totalmente imunizada.

O Consórcio de Imprensa, considera a população geral dos estados e o número de doses aplicadas. É isso que gera disparidades com os dados fornecidos pelos Vacinômetros das Secretarias de Saúde, que utilizam outras referências, como o número de doses recebidas do governo federal e distribuída aos municípios. 

“Como tivemos uma das mais avassaladoras experiências epidêmicas, tanto na primeira como na segunda onda, é possível que com o avanço da vacinação, ao menos nos próximos 3 ou 4 meses, não tenhamos graves problemas em relação a colapsos médico-hospitalares ou a explosiva mortalidade, embora nada possa ser descartado quando se trata do novo coronavírus”, ressaltou Orellana.Em nota, o governo de Roraima reconheceu a baixa adesão do público às campanhas de vacinação e disse que tem “reforçado com cada município a importância do cumprimento das diretrizes no PNI e adotado estratégias de comunicação a fim de sensibilizar a população sobre a importância de se vacinar”. O governo estadual explicou também que possui quatro hospitais de retaguarda para Covid-19, com o total de 159 leitos, dos quais 126 estão disponíveis.

Por: Cicero Pedrosa Neto
Fonte: Amazônia Real