Revista Nature classifica Bolsonaro como “ameaça” em editorial

Publicação científica cita riscos à ciência, saúde e instituições e diz que reeleição pode representar dano “irreparável”

Presidente Jair Bolsonaro, na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro. Foto: Alan Santos/PR

A revista Nature, prestigiada publicação científica inglesa, publicou nesta terça (25) um editorial intitulado “Só há uma escolha nas eleições do Brasil – para o país e para o mundo”. Nele, o periódico defende que a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) no próximo domingo poderia representar uma “ameaça à ciência, à democracia e ao meio ambiente”. O texto cita uma série de ações de Bolsonaro contra a legislação ambiental, a saúde pública e a pesquisa científica do país, sustentando que “se Bolsonaro tiver mais quatro anos, o dano pode ser irreparável”.

A revista começa relembrando um outro editorial, de 30 de outubro de 2018 (dois dias após o segundo turno das eleições daquele ano), onde dizia que o futuro governo Bolsonaro se somava à “ameaça global à ciência”. Analisando a prática desde aquele momento, a Nature diz que o mandato do ex-militar tem sido “desastroso para a ciência, o meio ambiente e o povo do Brasil e do mundo”. O editorial relembra que, sob a liderança de Bolsonaro, “o meio ambiente foi devastado enquanto ele revogava proteções legais e menosprezava direitos dos povos indígenas”. Os índices de desmatamento na Amazônia, que quase dobraram desde 2018, são citados como resultado dessas ações.

A publicação compara ações de Bolsonaro às de Donald Trump, ex-presidente dos EUA, como ignorar alertas de cientistas sobre os perigos da COVID-19, os questionamentos à efetividade e segurança das vacinas e as tentativas de minar o Estado de Direito, resultando nas mais de 685 mil mortes na pandemia e a crise econômica que veio em seguida. Além disso, a Nature lembra que os investimentos em ciência e inovação, que já “minguavam”, continuaram a cair durante o governo Bolsonaro, “ao ponto que diversas universidades federais têm dificuldades em manter as luzes ligadas e os prédios abertos”.

Na comparação com os mandatos anteriores de Lula (PT), a revista cita a queda de 80% no desmatamento entre 2004 e 2012, os “grandes investimentos” em ciência e inovação, as “fortes proteções ambientais”, a expansão das oportunidades educacionais e o aumento da renda dos mais pobres. “Por um tempo, o Brasil quebrou a relação entre desmatamento e produção de commodities como carne e soja”, mas “muito desse progresso foi desfeito”, afirma a publicação.

A revista diz que, ao contrário de Bolsonaro, Lula “não procurou lutar contra pesquisadores”, citando as promessas de alcançar o desmatamento líquido zero e de proteger as terras indígenas, caso seja eleito. “Nenhum líder político chega perto de ser perfeito”, diz a Nature, mas “os últimos 4 anos são um lembrete do que acontece quando aqueles que elegemos ativamente desmantelam as instituições feitas para reduzir a pobreza, proteger a saúde pública, impulsionar a ciência, salvaguardar o meio ambiente e promover a justiça e a integridade das evidências”. O editorial conclui dizendo que “os eleitores brasileiros têm uma oportunidade valiosa de reconstruir o que Bolsonaro destruiu” ao longo de seu mandato.

Por: Gabriel Tussini
Fonte: O Eco