Secas recorrentes afetam a capacidade de recuperação da Floresta Amazônica, alerta estudo

  • Nas últimas duas décadas, a Floresta Amazônica tem sido impactada por secas cada vez mais intensas e frequentes. As mais severas ocorreram em 2005, 2010 e 2015.
  • O estudo apresentado nesta reportagem revela que trechos de floresta afetados pela estiagem têm levado de 12 meses a três anos para recuperar seu ritmo de crescimento.
  • Diante dos resultados, pesquisadores alertam que os esforços de estabilização climática dependem do combate ao desmatamento da Amazônia.

Pesquisadores brasileiros e portugueses detectaram que secas severas têm afetado a capacidade de recuperação da Floresta Amazônica nas últimas duas décadas. Segundo o estudo, trechos de floresta impactados pela estiagem têm levado de 12 meses a três anos para recobrar seu ritmo de crescimento habitual.

O trabalho se concentrou na análise da chamada produtividade primária, que é a quantidade de matéria orgânica produzida pela vegetação, um parâmetro comumente utilizado para avaliar a capacidade de regeneração de um ecossistema. Em situações de seca, a absorção de gás carbônico pelas plantas para a produção de oxigênio tende a ser mais lenta.

De acordo como o estudo, os impactos foram particularmente graves nas secas de 2005, 2010 e 2015, tidas como as piores do século e um alerta de que eventos como esses estão se tornando mais frequentes, agora com cinco anos de diferença.

Os resultados da pesquisa mostraram que a absorção de carbono durante o período de recuperação de uma seca foi 13% menor quando comparada a níveis anteriores à estiagem ou a trechos de floresta que não sofreram impacto.

“A gente nota que em 2005, 2010 e 2015 houve um aumento do déficit de resiliência da floresta”, explica o biólogo Fausto Machado-Silva, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) e principal autor do estudo.

“Quanto mais intensa e ampla foi a seca, maior foi a dívida para a floresta se recuperar”, afirma o cientista. “O nosso trabalho mostra que o déficit de resiliência pode aumentar por dois cenários: por uma intensidade maior de seca, como foi 2010, em que a queda foi maior, ou pelo alongamento do processo de recuperação, como foi em 2015”.

De acordo com Machado-Silva, os resultados são preocupantes, sobretudo, pelas sinalizações das principais referências em climatologia global. “Os cenários do IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] mostram que teremos aumento da temperatura na Amazônia cerca de três a quatro vezes o aquecimento médio do planeta”, alerta.

Um quadro, segundo ele, ainda mais crítico se levarmos em consideração o aumento crescente do desmatamento na região, problema que influencia na alteração dos níveis de precipitação e na capacidade de retenção de carbono. “O atual cenário vai causando interferência no ciclo hidrológico. Mais porções de terras desmatadas significam menos água que volta para a atmosfera”, observa.

Seca no Rio Negro em 2015. Foto: Defesa Civil do Amazonas.

Amazônia como sumidouro de carbono em risco

Ao comentar sobre as contribuições do artigo publicado, o climatologista Jose Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), afirmou à Mongabay que, enquanto estudos anteriores demostraram que durante as secas houve queda na produtividade florestal, o novo levantamento indica a tendência de redução desse parâmetro nos anos pós-seca, “questionando o fato de que as florestas são resilientes.”

Para o climatologista, as florestas “talvez tenham sido [resilientes] no século 20, mas no século 21 as secas mudaram esta figura e os bosques apresentam baixa resiliência num cenário de secas mais intensas e frequentes, num planeta cada vez mais quente”.

Em “cenário hipotético, mas não descartado”, diante de condições ambientais desfavoráveis, Marengo alerta que “a floresta pode colapsar, afetando o clima regional e global”. Considerando os riscos associados à perda de resiliência da maior floresta tropical do mundo, Marengo conclui: “Temos que zerar o desmatamento, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, limitar o agronegócio em terras amazônicas e proteger a floresta que vale mais em pé do que cortada.”

Luiz Aragão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirmou à Mongabay que, além de trazer novas nuances, como os cenários de perda de produtividade pós-secas, o artigo recém-publicado contribui para reforçar algumas mensagens já divulgadas na literatura especializada sobre o tema. “Nós corremos grande risco de a Floresta Amazônica perder a capacidade de contribuição como sumidouro de carbono”.

Considerando o papel central da Amazônia no equilíbrio climático regional e global, ele destaca que os resultados da publicação são importantes para a gestão ambiental brasileira. “A remoção de vegetação nativa não se justifica. A floresta atua como reguladora do clima e sustenta áreas produtivas que são importantes para a economia nacional”, afirma.

Por: Elizabeth Oliveira
Fonte: Mongabay

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