Sensível, curioso e sagaz: relato de uma reportagem com Lilo Clareto no Pará

Sensível, curioso e sagaz: relato de uma reportagem com Lilo Clareto no Pará

Céu estrelado na aldeia Tukayá, na Terra Indígena Xipaya (PA) na V Semana do Extrativismo
Céu estrelado na aldeia Tukayá, na Terra Indígena Xipaya (PA) na V Semana do Extrativismo – Lilo Clareto /ISA/Direitos Reservados

Foi com espanto e tristeza que recebi a notícia do falecimento do fotojornalista Lilo Clareto, aos 61 anos, na manhã desta quarta-feira (21), vítima da covid-19.

Tive a felicidade de conhecer Lilo em 2018, durante uma reportagem sobre os extrativistas da comunidade Rio Novo, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Iriri, na estação ecológica Terra do Meio, em Altamirá, no Pará.

Naquela semana, cheguei em Altamira sem fotógrafo, e a equipe do Instituto Sociambiental (ISA), que me acompanharia até a reserva, chamou Clareto para fazer as imagens.

Lilo Clareto durante reportagem na comunidade Rio Novo, em Terra do Meio (PA) / Leandro Melito

Feito o contato na véspera, ele se juntou à equipe que partiu em direção à área protegida da Terra do Meio, trajeto de cerca de 300 quilômetros, percorrido de carro em sete horas.

Clareto havia se fixado em Altamira desde 2017 e conhecia a comunidade do Rio Novo. Francisca da Chaga Araújo, a dona Chaga, e seus filhos Raimunda Araújo Rodrigues e Marlon Sandro Araújo Rodrigues, responsáveis pela usina de beneficiamento de castanha, já estavam familiarizados com o fotógrafo.

Eu, que estava pisando ali pela primeira vez, tive a sorte de contar com a presença de Lilo para estabelecer a confiança necessária com a comunidade e, assim, colher os relatos para a reportagem.

Tive a sorte de contar com a parceria e o trabalho de um fotógrafo com o talento e a experiência de Lilo Clareto. Com a sagacidade de perceber o caminhão carregado de madeira retirada ilegalmente a tempo de fotografá-lo de dentro do carro, durante o trajeto até a Terra do Meio.

Caminhão carregado com toras trafega pela estrada Trans Iriri / Lilo Clareto/ISA/Direitos reservados

Em uma nota publicada em seu site, o ISA aponta Lilo como “mais uma vítima da omissão das autoridades em frear a pandemia, permitindo o avanço descontrolado da doença pelo país e redundando no atual colapso do sistema de saúde e na escalada inaceitável do número de mortes”.

“A alegria, a paciência e o acolhimento de Lilo diante de seus personagens – muitas delas pessoas pouco acostumadas com tantos cliques, criadas na beira de um rio, no meio da mata e que, por vezes, ficam intimidadas com as lentes e equipamentos de fotografia -, sempre nos inspiraram e nos relembraram da postura correta que devemos ter – e garantir que todos tenham – quando entramos na casa de alguém. Inclusive quando essa casa é a própria floresta. Lilo, sempre presente, vai seguir nos inspirando”.

A família de Lilo continua com a campanha de arrecadação para pagar a conta do hospital privado em São Paulo (SP), para onde o fotógrafo foi transferido e esteve internado durante um mês porque não havia vagas nos hospitais públicos de Altamira.

“Lutamos de todas as formas para salvá-lo e agradecemos a todas e todos que estiveram, estão e estarão conosco!”, diz o comunicado da família.

Lilo tinha 61 anos, deixou esposa e 4 filhos.

Por: Leandro Melito
Fonte: Brasil de Fato