Servidores da Funai ameaçam greve por “inverdades” sobre caso Bruno Pereira e Dom Phillips

Grupo de quatro entidades pede retratação e reivindica outras medidas do órgão para evitar paralisação nos trabalhos

Servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) ameaçam entrar em greve nesta terça (14) caso a presidência do órgão não se retrate por “difamação” e “inverdades” atribuídas ao órgão no caso que apura o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.

A decisão foi tomada em assembleia na tarde desta segunda (13), quando dezenas de servidores se reuniram em frente à sede do órgão, em Brasília (DF). O comunicado oficial veio no final da tarde, pelas mãos de quatro entidades: Assembleia Unificada entre Indigenistas Associados (INA), Associação Nacional dos Servidores da Funai (Ansef), Sindicato dos Servidores Públicos do Distrito Federal (Sindsep-DF) e Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef).

Os servidores apontam que, se não houver um atendimento às demandas apresentadas pelo coletivo à Funai até a noite desta segunda (13), haverá deflagração de greve por 24 horas a partir das 9h da manhã de terça. Nesse caso, também está previsto um ato em frente ao Ministério da Justiça, na Esplanada dos Ministérios. Na noite desta segunda, o secretário-geral da Condsef, Sérgio Ronaldo da Silva confirmou ao Brasil de Fato que “a Funai não se posicionou com relação ao pleito dos servidores, portanto, a greve por 24h está mantida”.

O grupo pede que o presidente do órgão, Marcelo Augusto Xavier da Silva, faça uma retratação pelas declarações públicas que deu a respeito do caso, especialmente pelo que disse na última sexta (10), quando uma nota oficial chamou de “inverídicas” as informações da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

O repórter Dom Philips (esquerda) e o indigenista Bruno Pereira (direita) – Foto: Divulgação/Funai

“No caso do indigenista, foi emitida autorização em âmbito regional para que ingressasse em terra indígena, com vencimento em 31/05/2022, sem o conhecimento dos setores competentes na sede da Funai, em Brasília, o que será apurado internamente. Quanto a Dom Phillips, não há sequer menção ao nome dele na solicitação de ingresso citada pela Univaja”, disse a Funai, contrariando informações divulgadas pelo segmento.

A Univaja sustenta que a autorização dada a Bruno Pereira seria válida atualmente e que foi assinada pela coordenadora substituta da Funai na região, Mislene Metchacuna Martins Mendes, cujo despacho teria saído em 15 de maio.

“Ressaltamos que a retratação pública deve conter o reconhecimento das inverdades e criminalização relatadas publicamente sobre o servidor Bruno da Cunha Araújo Pereira, a Univaja e servidores da Coordenação Regional do Vale do Javari”, exigem as entidades.

“Igualmente, considerando que não há quaisquer irregularidades legais na conduta do servidor Bruno Pereira, bem como servidores da CR-VJ e representantes da Univaja, a retratação deve admitir os equívocos de falsas argumentações sem nenhum embasamento legal dentro da política indigenista brasileira”, acrescenta a nota, em que o grupo coloca ainda outros pontos de pauta.

Também é exigido o envio imediato de tropas das “forças de segurança pública específicas para garantir a integridade física dos servidores da Funai em Todas as Bases de Proteção do Vale do Javari (Quixito, Curuçá e Jandiatuba), bem como as sedes das CRs [coordenações regionais] do Vale do Javari e CFPE-VJ”.

As entidades também pedem envio imediato de uma força-tarefa para apoiar servidores e suas atividades no âmbito das coordenações regionais da Funai em Alto Solimões e Vale do Javari e afirmam que os servidores desses locais “desde o começo do incidente de proporção internacional estão sozinhos para desempenhar suas funções”.

Contexto

A decisão das entidades que reúnem servidores da Funai vem após uma nova rodada de negociações com o órgão, ocorrida na manhã desta segunda (13), ocasião em que, de acordo com servidores, o presidente não compareceu à agenda nem enviou interlocutores. 

A mobilização dos funcionários inclui uma vigília que ocorre na noite desta segunda em frente à sede do órgão para simbolizar o monitoramento político do caso. 

“Isso significa que os servidores não vão mais aceitar esse processo de mentiras que o governo faz na política indigenista. Os servidores não vão mais aceitar essa ingerência. A gente está sendo maltratado, humilhado, ameaçado, e essa ameaça chegou a um ponto de fato: aconteceu exatamente o que a gente previa e a gente não aceita que isso se repita”, disse ao Brasil de Fato Gustavo Peixoto, do Sindsep-DF. 

Funai disse ter acionado MPF contra organização indígena que procura desaparecidos no Vale do Javari / Foto: Funai/Divulgação

Nas tentativas de negociação entre o segmento e a Funai, teve destaque, por exemplo, a exigência colocada pela presidência do órgão na semana passada de que as tratativas seriam interrompidas caso os funcionários deflagrassem greve. 

“É porque eles sentiram a pressão que o nosso movimento de servidores causou, e a gente vislumbra que isso foi uma tentativa de desarticular essa mobilização. Se eles ameaçam que vão fechar a negociação, a gente leva isso pras outras esferas, mas a gente não vai diminuir a pressão”,  afirma Luana Almeida, do Conselho Executivo da INA. 

Funai

O Brasil de Fato procurou ouvir a Funai por meio de sua assessoria de imprensa, mas as ligações não foram atendidas. Também foi feito contato via e-mail, mas ainda não há resposta. O espaço segue aberto para manifestações.

Até o momento de publicação desta reportagem, o órgão não se pronunciou publicamente a respeito da ameaça de greve comunicada nesta segunda pelas entidades de servidores.

Por Cristiane Sampaio
Edição: Felipe Mendes
Fonte: Brasil de Fato