Sesai diz que Aruká Juma tem melhora no quadro clínico da Covid-19

Sesai diz que Aruká Juma tem melhora no quadro clínico da Covid-19
Internado com Covid-19, o único guerreiro entre os Juma foi transferido para uma UTI em Rondônia. Acima, díptico com as imagens do Aruká fotografado por Odair Leal em 2014.

O líder indígena Aruká Juma apresentou no domingo (7) uma melhora no seu quadro clínico, que continua grave, porém estável, segundo boletim médico informado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Internado com Covid-19 há quase uma semana no Hospital de Campanha Regina Pacis, em Porto Velho (RO), Aruká responde bem aos antibióticos para combater a infecção de uma pneumonia, já foi desentubado e recebe agora uma ventilação mecânica. Segundo a Sesai, o líder deixou de ser sedado na sexta-feira (5) e “apresentou movimentos na cabeça, braços e mãos” no domingo.

“Eu fiquei mais alegre. A gente espera que ele melhore mais ainda”, respondeu Mandeí Juma à equipe da Amazônia Real ao ser informada sobre a saúde do pai. Ela e a irmã Borehá Juma estão na Casa de Saúde Indígena em Porto Velho, onde recebem informações sobre o estado de saúde de Aruká. Borehá é a cacica do território Juma, localizado no município de Canutama, no sul do Amazonas.

Os Juma é um povo que durante décadas resistiu a ataques e massacres. Aruká é o único guerreiro da etnia e está em idade avançada, algo entre 86 e 90 anos. Ele tem três filhas que se casaram com indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, povo que vive em território localizado em Rondônia, e tem netos que, para manter os Juma vivos, adotaram em seu sobrenome o nome das duas etnias.

O contágio por Covid-19 em Aruká mobilizou organizações parceiras, lideranças indígenas e indigenistas, Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Ministério Público Federal. Primeiramente, ele estava internado no hospital Sentinela, no município de Humaitá, no sul do Amazonas, vizinho de Canutama. Com a piora em seu estado de saúde, ele precisou ser transferido para Porto Velho, capital mais próxima do sul do Amazonas, no dia 2 de fevereiro, por via terrestre.

No hospital em Rondônia, para onde foi transferido, o líder Juma está sendo acompanhado também por um neurologista que solicitou uma tomografia de crânio.

Líderes acompanham preocupados

Ivaneide Bandeira (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/2020)

“Nós, enquanto povo Kawahiva, somos muito solidários com o povo Juma. Fico bastante preocupado e ficamos à disposição de qualquer coisa que possa acontecer, pois é um povo que precisa da gente”, diz Angélisson Tenharin, liderança indígena e funcionário da Fundação Nacional do Índio em Humaitá (Kawahiva). Ele é do mesmo tronco linguístico (Kawahiva) de Aruká Juma. “É uma situação muito complicada, estamos preocupados com todos os parentes também”, afirma o líder Awapu Uru-Eu-Wau-Wau, chefe da vigilância no território indígena. 

Ivaneine Bandeira, fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização indigenista que atua junto aos Juma, afirma que Aruká é o guardião da cultura desse povo e símbolo para todos os povos indígenas de resistência. “Diante de tantos massacres por ataques físicos, a vida de seu povo [Juma] e território, sejam por pandemias e doenças levadas por não indígenas que também contribuíram para a morte de muitos indígenas, a gente torce pela recuperação do Aruká. Hoje tivemos notícias que o Aruká teve uma ligeira melhora e ficamos muito felizes e esperançosos que ele vença a Covid-19”, diz a indigenista. 

Em sua rede social, o líder Elivar Karitiana, vice-presidente do Conselho de Saúde Indígena, também de Rondônia, pediu orações nas redes sociais em prol da saúde do último homem da etnia Juma e disse temer que o ancião seja mais uma vítima da Covid 19. ”Ele está sendo mais uma das vítimas da Covid. Ele é o único homem da etnia Juma. Todas as lideranças de Rondônia estamos com medo de perder o cacique Aruká, cacique tradicional nato dessa etnia”, afirmou Elivar à Amazônia Real.

Aruká é o guardião dos Juma

A mãe das Juma, Mborehá ou Mariná, em 1993 (Foto: Adolpho Kilian Kesselring/ISA)

O indigenista Adolpho Kilian Kesselring, 66 anos, é ex-funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai), um dos poucos que fala a língua Tupi-Guarani (Kawahiva) dos Juma. De 1986 a 1994, ele foi o responsável pelo mapeamento da demarcação do território dos Juma, em Canutama, região do Purus que enfrentava ameaças de extinção das etnias isoladas e de recente contato pela construção da rodovia BR 364 (Porto Velho/Brasília). Durante aquele período ficou muito amigo de Aruká Juma. 

“Até hoje tenho no braço [a braçadeira artesanal] que ele me deu. Faz 40 anos isso. Quando eu o conheci, era ele que trazia o gavião-real, o kwandu na língua Tupi Kawahiva, que representa a alma e o todo dos Juma”, diz o indigenista.

O indigenista destacou a resistência aos massacres enfrentados pela etnia. “A luta de sobrevivência dos Juma é maior do que qualquer relação humanística que eu conheço. Não existe coisa igual de sobrevivência humana, do que a sobrevivência desse povo. Lamento muito eu não ser homem suficiente para ficar [trabalhando] com ele, pois eu fui muito perseguido. Depois daquilo [da demarcação e dos casamentos interétnicos] me fizeram abandonar a Funai”, conta.

Sobre a saúde do líder dos Juma, o indigenista enviou uma mensagem para a filha mais nova, Mandeí Juma. “Mandei, Aruká vai viver, tu vai ver. Também não é o tempo de chorar, nós já choramos muito. O kwandu (o gavião-real) não vai deixar ele morrer. O espírito do kwandu cuida de todos e do todo”, afirma Kesselring.

A luta de Aruká contra a Covid-19

Aruká (Foto: Odair Leal/Amazônia Real-2014)

O ancião Aruká Juma apresentou sintomas de Covid-19 na primeira quinzena de janeiro. Na aldeia Juma, o primeiro teste para o novo coronavírus deu negativo, no dia 17 do mês passado, mas ele passou mal e foi encaminhado para a  Casai em Humaitá. Neste mesmo dia, 19 pessoas da aldeia foram submetidas a testes e houve 12 confirmações para a doença, mas não precisaram de internação. Dois dias após, Aruká foi transferido da Casai para a internação no Hospital Sentinela, ficando em observação com sintomas de gripe e febre .

Em 22 de janeiro, o quadro de saúde do ancião apresentou melhoras e ele foi transferido do Hospital Sentinela para a Casai. Quatro dias depois, o ancião passou mal de novo e foi novamente internado no Sentinela, apresentando um quadro de pneumonia e problemas respiratórios. Na ocasião, o exame para o novo coronavírus foi confirmado. No dia 27 de janeiro, os problemas respiratórios se agravaram e Aruká foi transferido do Sentinela para o Hospital Regional de Humaitá.

No dia 1º de fevereiro, o estado de saúde de Aruká se agravou, com falta de ar, febre e necessitando de oxigenoterapia. Também tinha dificuldades de aceitar a dieta hospitalar. Diante do agravamento, na madrugada de 2 de fevereiro, o boletim informava da necessidade da transferência de Aruká Juma para outro hospital com UTI.

Aruká Juma é o pai também de Maitá e da cacica Boreha. Os quatro indígenas são as únicas pessoas da etnia Juma. Na metade da década de 1960, esse povo quase foi à extinção devido aos massacres que os demais parentes sofreram nas décadas anteriores de seringueiros, madeireiros e pescadores no território, que fica margeado no rio Assuã, em Canutama (AM).

Nos anos 1990, os Juma chegaram a viver em situação de vulnerabilidade sociocultural, sofrendo com o abandono dos órgãos públicos. Para evitar a extinção do grupo, casamentos interétnicos foram formalizados entre os Juma e os indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, na Aldeia do Alto Jamari, em Rondônia. 

Por volta do ano de 2013, às famílias dos casamentos entre Juma e Uru-Eu-Wau-Wau retornaram da Aldeia Jamary ao território Juma em Canutama, pois era um desejo do guerreiro Aruká. Atualmente, como relatou um de seus netos, Puré Juma-Uru-Wau-Wau ao Blog Jovens Cidadãos da Amazônia, “na Aldeia Juma vivem cinco famílias. Minha mãe Boreha Juma é a cacique. Meu pai é Erowak Uru-Eu-Wau-Wau e tenho quatro irmãos, além do meu avó, minhas tias, meus tios e primos”, disse Puré.

Aruká com as filhas e descendentes (Foto: Odair Leal/Amazônia Real/2014)

Por: Luciene Kaxinawá
Fonte: Amazônia Real

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