Sob protestos, Bolsonaro vem a Manaus, cidade que é alvo da CPI da Pandemia

Sob protestos, Bolsonaro vem a Manaus, cidade que é alvo da CPI da Pandemia
A concessão de um título de cidadão amazonense ao presidente gerou revolta. A deputada Nejmi Aziz, mulher do senador Omar Aziz, presidente da CPI, negou que votou a favor da homenagem, mas seu nome constou em lista oficial.

O presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) visita nesta sexta-feira (23) Manaus para inaugurar obras num centro de convenções e entregar cestas básicas a famílias carentes, mas a viagem é cercada de polêmica pois ele deve receber o título de cidadão amazonense concedido por 13 dos 24 deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). O estado foi o primeiro a enfrentar a tragédia sanitária da pandemia do novo coronavírus e, em janeiro, mais de 40 pessoas morreram por falta de oxigênio nos hospitais públicos. Na ocasião, Bolsonaro declarou que “não é competência nossa levar e nem atribuição nossa, levar o oxigênio para lá, damos os meios”, ao defender o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, acusado por omissão na crise no Amazonas.

Ao anunciar a homenagem a Bolsonaro, a Aleam  divulgou os nomes dos deputados que votaram a favor do PL. A lista com os nomes viralizou nas redes sociais com notas de repúdio de várias pessoas. Consta na lista de votantes o nome da deputada estadual Nejmi Aziz, mulher do senador Omar Aziz, ambos do PSD. Ele foi indicado à presidente da CPI da Pandemia, que vai investigar as denúncias de omissão do governo federal no Amazonas. No dia seguinte à divulgação da honraria, em 21 de abril, Nejmi divulgou uma nota à imprensa dizendo que estava ausente do plenário naquele momento e negou que votou a favor do título ao presidente da República.

O título de cidadão amazonense a Bolsonaro foi apresentado em Projeto de Lei de autoria do deputado estadual Delegado Péricles (PSL). Dos deputados presentes ao plenário da Casa, apenas Serafim Corrêa (PSB) votou contra ao PL.

No projeto, com apenas seis páginas, o deputado Péricles, policial da Civil, não expõe ações de Bolsonaro para receber a honraria no Amazonas. Também errou o nome da cidade onde nasceu o presidente. “Nasceu em Campinas/SP no dia 21 de março de 1955”, diz o projeto. O presidente da República é natural de Glicério, município no noroeste do estado de São Paulo.

Em 2015, o então deputado federal Jair Bolsonaro esteve em Manaus (Fotos Alberto César Araújo/Aleam)

Em outro ponto do PL, o deputado Péricles descreve a carreira política de Bolsonaro até as eleições presidenciais de 2018 e cita que ele, “em 1986,  liderou um protesto contra os baixos salários dos militares. Escreveu um artigo para uma revista de grande circulação no país, intitulado “O salário está baixo””. 

Em 2020, o Delegado Péricles tentou cassar o título de cidadão amazonense ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005 sob o argumento de que “é condenado, criminoso e ex-presidiário”. A ideia não prosperou.

Protestos contra título

Homenageados devolveram títulos concedidos pela Assembleia (Foto reprodução rede sociais)

Péricles não avaliou que a honraria causaria revolta nos movimentos sociais e em parte da população de Manaus. Também não divulgou o local onde será homenageado: se no centro de convenções ou na Assembleia Legislativa. As reações ganharam corpo nesta quinta-feira (22). Os movimentos sociais anunciaram que farão protestos nas ruas. O ex-diretor do Departamento de Legislação e Normas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), advogado Aloncio de Oliveira, ingressou com uma Ação Popular preventiva com pedido de liminar para tentar barrar a homenagem.

O Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FPPM) ingressou na Assembleia Legislativa do Estado com um pedido de revogação da aprovação do Projeto de Lei que concede o Título de Cidadão do Amazonas ao presidente Jair Bolsonaro. O ofício foi encaminhado ao presidente da Aleam, deputado Roberto Cidade (PV).

Em protesto pelo título à Bolsonaro, oito pessoas devolveram homenagens concedidos pela Aleam: Antonia Barroso, Luzanira Varela da Silva e Neila Gomes dos Santos, todas do  Fórum Permanente das Mulheres de Manaus; Francy Júnior, da Articuladora do Movimento de Mulheres Negras da Floresta (Dandara); a historiadora Gleice Antonia de Oliveira; os professores Yan Leitão e Bibiano Simões Garcia Filho; e o médico Menabarreto Segadilha França. 

“Nós devolvemos as homenagens que recebemos como forma de repudiar o ato da Assembleia Legislativa de titular o genocida Jair Bolsonaro como cidadão amazonense. É um ato de revolta. Esta pessoa é responsável por mais de 12 mil mortes aqui no nosso estado. Então, não daria para nós, que somos ligados aos movimentos sociais, os movimentos organizados de luta pelos direitos humanos estar aplaudindo esse projeto de lei o qual os deputados e deputadas aprovaram em um dia, em caso de urgência”, afirmou à Amazônia Real Francy Júnior, que integra também a  Articulação das Mulheres Brasileiras (AMB).

O advogado Aloncio de Oliveira disse à reportagem que, assim como milhares de amazonenses, se sentiu ultrajado e indignado com a homenagem a um presidente que, desde que assumiu, tem tratado o Amazonas, segundo ele, a “pão e água”.

“Agora com a pandemia, o Amazonas padeceu e praticamente serviu de Laboratório para as experiências com o chamado ‘Kit Covid’ do ex-ministro (Eduardo) Pazuello e, pior, deixou faltar oxigênio na hora que mais se precisava, mesmo tendo conhecimento prévio da situação. Por essa brincadeira de governar de Bolsonaro, nesse período perdi um irmão, dois primos, três sobrinhos e inúmeros colegas advogados”, dispara.

O advogado, que nasceu em Porto Rolim, Distrito de Forte Príncipe da Beira, município de Guajará-Mirim, estado de Rondônia, foi agraciado com o título de cidadão amazonense em 17 de julho de 2019. “Tenho orgulho de dizer que fui aprovado por unanimidade pelos deputados da Aleam. Ontem [21] fui dormir 2h30 da manhã. Mas dormi satisfeito pois, não pretendia ir hoje (quinta-feira) na ALEAM fazer a devolução do título que mais amo e tenho orgulho na vida. Meus conterrâneos amazonenses não merecem a representação vergonhosa que temos hoje naquela casa legislativa. Por isso, preferi esse caminho que a Constituição Cidadã oferece para a participação popular e o exercício da cidadania”, completa.

O pedido de revogação do título a Bolsonaro enviado à Aleam pelo Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FPPM) conta com a adesão de 27 organizações, entre elas, o Fórum de Movimentos Sociais de Lésbicas Gays Bissexuais Travestis e Transexuais do Amazonas – Fórum LGBT/AM; Movimento de Mulheres Camponesas – MMC; Movimento Feminista Maria sem Vergonha;  Macha Mundial das Mulheres – Núcleos Amazonas e Parintins; Rede Grito pela Vida; e União Brasileira de Mulheres – UBM.

No ofício encaminhado, às entidades ressaltam que a maior tragédia vivenciada pela população amazonense – a crise do oxigênio, que eclodiu em Manaus -, no dia 14 de janeiro deste ano, poderia ter sido evitada “se o Presidente da República tivesse agido de forma efetiva no combate à epidemia”.

“O que vimos do presidente eleito foi negacionismo, incentivo à aglomeração e, que ao contrário de socorrer o Amazonas, fez daqui um celeiro de testes da cloroquina e não prestou socorro com o oxigênio medicinal, além de atrasar a imunização!  Isso justifica um outro título, o título de genocida, carnificina, portanto, manifesto aqui o meu total desprezo, vergonha por essa atitude dos deputados e deputadas estaduais que votaram por esse título de honra!”, disse a assistente social e feminista  Luiza de Marilac Moreira, do Fórum Permanente das Mulheres de Manaus e da AMB.

Quem votou pela homenagem

Votaram à favor do PL 187/2021, que concedeu o título de cidadão do Amazonas ao presidente Jair Bolsonaro, além do deputado Delegado Péricles, os deputados Adjuto Afonso (PDT), Belarmino Lins (PP), Carlinhos Bessa (PV), Dr. Gomes (PSC), Felipe Souza (PATRIOTA), João Luiz (REPUBLICANOS), Ricardo Nicolau (PSD), Roberto Cidade (PV), Saullo Viana (PTB), Therezinha Ruiz (PSDB), Tony Medeiros (PSD) e Wilker Barreto (PODEMOS).

Além de Nejmi Aziz, estiveram ausentes os deputados Angelus Figueira (DC), Sinésio Campos (PT) e Joana D’Arc (licença maternidade) (PL). Dermilson Chagas (PODEMOS) se absteve de votar. Outros cinco deputados não explicaram o motivo de não participarem da votação; se continuavam na Assembleia no momento em que estava sendo votada a proposta do deputado Péricles, ou se, sequer, chegaram a ir ao plenário naquele dia.

O Palácio do Planalto confirmou a viagem de Bolsonaro a Manaus, pela manhã. Na agenda do presidente não há visitas a hospitais, onde médicos continuam a salvar vidas na pandemia da Covid-19. Na  parte da tarde, ele participará da entrega de cestas de alimentos do programa Brasil Fraterno, em Belém (PA).

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real