Técnicos que reverteram apagão no Amapá são demitidos da Eletronorte 40 dias depois

Ao todo, 300 trabalhadores serão demitidos; empresa está sendo sucateada para justificar privatização, diz sindicalista

Técnicos da Eletronorte em São Luís (MA); Jorge Luís Lima de Jesus [2º da esq. Para a dir.] recebeu carta de desligamento na semana passada após 39 anos de trabalho – Arquivo Pessoal

Ao menos seis técnicos da Eletronorte que se deslocaram do Pará e do Maranhão ao Amapá para restabelecer a energia após o apagão de novembro de 2020 integram a lista de 194 demissões divulgada pela estatal na semana passada.

Os desligamentos estavam previstos em um acordo coletivo assinado junto ao sindicato em 2019, em meio ao processo de desmonte do sistema Eletrobrás – que está na lista de privatizações do governo Bolsonaro (sem partido). O nome dos trabalhadores, no entanto, só foi conhecido na semana passada.

Jorge Luís Lima de Jesus, de 64 anos, de São Luís (MA), é um deles. Entre as memórias dos 39 anos na empresa, o período em que passou em Macapá (AP) ocupa um lugar especial.

“Eu me sensibilizei muito com o povo amapaense. Os caras pediam até pelo amor de Deus, que Deus abençoasse o nosso trabalho, para voltar a energia”, lembra o técnico de manutenção.

Foram cerca de 25 dias de trabalho incansável, longe da família, para reverter o apagão, causado por uma empresa privada.

“Trabalhamos dia e noite. No sol, na chuva, de madrugada. A gente almoçava duas da tarde e jantava a uma da madrugada”, completa Jorge. “Quando dava seis horas da manhã, a gente já estava no ponto, com a farda novamente. A gente limpava a mão na própria farda para não perder tempo”, detalha.

Como as agências bancárias não estavam funcionando, as despesas de viagem eram pagas pelos próprios trabalhadores – reembolsados, em seguida, pela Eletronorte. Durante uma semana, os trabalhadores sequer tiveram comunicação com a família.

“Sempre com responsabilidade, conseguimos cumprir o que a empresa estava querendo”, lamenta o trabalhador. “Para minha surpresa, depois dessa dedicação toda, recebi essa carta de desligamento. É muito doído. É como se eu fosse um objeto qualquer”, desabafa.

Jorge Luís Lima de Jesus em ação em Macapá (AP), trabalhando para restabelecer o sistema após apagão que deixou parte do estado sem energia durante quase todo o mês de novembro / Arquivo pessoal

Demissões em São Luís

Somente na subestação de São Luís, cinco dos oito técnicos de manutenção foram demitidos no último dia 4.

“Não vai ter mão de obra qualificada para fazer o serviço”, prevê Jorge, chamando atenção para o risco de apagões cada vez mais frequentes.

Quatro dias após a divulgação dos nomes dos 194 demitidos, em 8 de janeiro, a capital maranhense ficou sem luz por três horas.

“Mesmo o pessoal que já estava com a carta de desligamento, todos foram para a linha de frente restabelecer o sistema. Ninguém se negou, e todos vestiram a camisa”, acrescenta o trabalhador.

Os 194 desligamentos ocorreram em nove estados diferentes: Pará (59), Maranhão (49), Brasília (46), Roraima (15), Amapá (9), Mato Grosso (8), Acre (5), São Paulo (2) e Tocantins (1).

O critério usado pela Eletrobrás ao definir quem seria desligado foi idade e avaliação. Integram a lista, basicamente, trabalhadores aposentados ou próximos da aposentadoria.

Fabíola Latino Antezana, diretora do Sindicato dos Urbanitários do Distrito Federal (STIU-DF), analisa que o sistema Eletrobrás e os Correios estão na linha de frente das privatizações do governo brasileiro. Os desligamentos, segundo ela, fazem parte de um processo de sucateamento para justificar a venda à iniciativa privada.

Jorge Luís Lima de Jesus concorda: “Eles atacaram mais no setor de manutenção, para desequilibrar todo o sistema elétrico e eles poderem privatizar.”

Acordo coletivo

Ao todo, o acordo coletivo prevê 300 desligamentos, que deveriam começar em janeiro de 2020. Devido à pandemia, o STIU-DF conseguiu suspender as demissões, por meio de articulações políticas e ações judiciais, utilizando a pandemia como argumento.

“É um desligamento sem justa causa, sem verba rescisória e sem plano de saúde”, ressalta a sindicalista, lembrando que o alvo das demissões são justamente trabalhadores mais velhos, muitos dos quais integram o grupo de risco da covid-19.

Antezana enfatiza que a Eletronorte é a maior geradora e transmissora do país em área territorial. O último concurso público foi realizado em 2007, e o número trabalhadores era insuficiente mesmo antes das demissões.

“Nosso sistema é antigo, não foi modernizado, e não temos pessoas mais novas para repor, e que conheçam esse sistema”, lamenta. “O que se desenha é a falência total do sistema no norte do país.

O Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria de comunicação da Eletronorte e expôs os questionamentos, mas não houve retorno.

Por: Daniel Giovanaz
Fonte: Brasil de Fato

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