“Temos medo de ser assassinados em nossa própria casa e deixar de existir como povo”, denuncia liderança Karipuna à ONU

A denúncia foi realizada por Adriano Karipuna, durante a 21ª Sessão do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, em Nova York

Adriano Karipuna no Fórum Permanente da ONU sobre Assuntos Indígenas, em 2018. Foto: Luiz Roberto Lima
Adriano Karipuna no Fórum Permanente da ONU sobre Assuntos Indígenas, em 2018. Foto: Luiz Roberto Lima

Pela quarta vez, Adriano Karipuna, liderança do povo Karipuna, se dirige ao Fórum Permanente das Nações Unidas para as Questões Indígenas (UNPFII), para denunciar a invasão do território tradicional e genocídio dos povos originários no Brasil. “Venho ao Fórum Permanente da ONU [Organização das Nações Unidas] para denunciar o Estado brasileiro por invadir nosso território indígena Karipuna”, destacou a liderança Karipuna, em declaração escrita e entregue à 21ª sessão do UNPFII, na quinta-feira, 28 de abril, em Nova York/USA, onde ocorre o evento.

Ao Fórum, Adriano também denuncia que “desde 2017, a terra indígena Karipuna vive sob ataques de invasores que desmatam e tiram toda a riqueza de nossa terra e também ameaçam nossa integridade física, cultural e territorial”.

“A TT Karipuna vive sob ataques de invasores que desmatam e tiram toda a riqueza de nossa terra e também ameaçam nossa integridade física, cultural e territorial”

Invasores no interior da TI Karipuna, flagrados em fevereiro de 2019. Foto: Chico Batata/Greenpeace
Invasores no interior da TI Karipuna, flagrados em fevereiro de 2019. Foto: Chico Batata/Greenpeace

A denúncia vai de encontro ao monitoramento feito pelos indígenas, pelo Greenpeace Brasil e pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na Terra Indígena (TI) Karipuna, no qual identificou uma nova frente de desmatamento naquela região. Numa incursão a campo, realizada no segundo semestre de 2021, foram encontrados novos 850 hectares de desmatamento ilegal no interior da TI, revelando um aumento de 44% em relação ao ano anterior.

A pecuária, com a produção de carne, e o agronegócio, com avanço da soja, são apontados como os principais responsáveis pela pressão sobre as florestas e os povos que vivem nela e dela. Por diversas vezes, a invasão do território tem sido denunciada pelos indígenas, tanto no Brasil como nos espaços da ONU. Os Karipuna alertam para a ação organizada dos invasores: “estamos sofrendo ameaças de morte do crime organizado”, destaca Adriano.

“Estamos sofrendo ameaças de morte do crime organizado”

Na avaliação dos povos originários e das organizações de apoio à causa indígena, as invasões aumentaram, especialmente, “com o discurso do governo brasileiro de facilitar a mineração e os projetos de lei [PLs] 191/2020 e o 490/2007, assim como, outros projetos criminosos que ameaçam os direitos dos povos garantidos pela Constituição”, listou.

Os projetos e medidas administrativas, listados por Adriano, buscam liberar a exploração econômica dos territórios indígenas, como as Instruções Normativas (IN) 09/2020, da Funai, e a 01/2021, publicada conjuntamente entre Funai e Ibama, e o Projeto de Lei (PL) 191/2020, de autoria do governo Bolsonaro.

Preocupados, “temos medo de sermos assassinados a qualquer momento em nossa própria casa e deixar de existir como povo”, denunciou à ONU a liderança Karipuna, em maio de 2021. Em seguida, o povo processou a União, Funai e o estado de Rondônia por invasões e pela devastação da terra indígena. Em dezembro, do mesmo ano, a situação continuou a se repetir: novos episódios de invasão de madeireiros e pecuaristas, roubo de madeira e grilagem de terra na TI Karipuna, já demarcada, foram denunciados pelos indígenas ao Ministério Público Federal (MPF) e à Policia Federal (PF).

Frente às denúncias, ao concluir sua contribuição nesta edição do Fórum Permanente, Adriano apelou: “estamos pedindo socorro, nos ajudem!”.

“Temos medo de sermos assassinados a qualquer momento em nossa própria casa e deixar de existir como povo”

Karipuna denunciaram venda de lotes em sua terra indígena ao ministro da Justiça, Torquato Jardim. Foto: Tiago Miotto/Cimi
Karipuna denunciaram venda de lotes em sua terra indígena ao ministro da Justiça, Torquato Jardim. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Sobre o UNPFII 21

Com o tema “Povos indígenas, negócios, autonomia e os princípios de direitos humanos da devida diligência, incluindo o consentimento livre, prévio e informado”, a 21ª sessão do Fórum Permanente das Nações Unidas para as Questões Indígenas (UNPFII 21), ocorre na sede do órgão em Nova York, Estados Unidos, de 25 de abril a 6 de maio de 2022.

Esta edição de 2022 é aberta à participação presencial e online, com transmissão ao vivo pelos canais oficiais (webtv.un.org). As lideranças e organizações sociais têm contribuído com o evento tanto presencial como por meio de videoconferência.

A Aty Guasu Kaiowá e Guarani, a Associação do Povo Karipuna, a Organização de Mulheres Indígenas Mura de Autazes/AM, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Rede Iglesias e Minería e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) retornam ao espaço para denunciar a política anti-indígena do atual governo brasileiro.

“Com o discurso do governo brasileiro de facilitar a mineração e os PLs 191 e o 490 ameaçam os direitos dos povos garantidos pFela Constituição”

Sobre o UNPFII 21

Com o tema “Povos indígenas, negócios, autonomia e os princípios de direitos humanos da devida diligência, incluindo o consentimento livre, prévio e informado”, a 21ª sessão do Fórum Permanente das Nações Unidas para as Questões Indígenas (UNPFII 21), ocorre na sede do órgão em Nova York, Estados Unidos, de 25 de abril a 6 de maio de 2022.

Esta edição de 2022 é aberta à participação presencial e online, com transmissão ao vivo pelos canais oficiais (webtv.un.org). As lideranças e organizações sociais têm contribuído com o evento tanto presencial como por meio de videoconferência.

A Aty Guasu Kaiowá e Guarani, a Associação do Povo Karipuna, a Organização de Mulheres Indígenas Mura de Autazes/AM, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Rede Iglesias e Minería e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) retornam ao espaço para denunciar a política anti-indígena do atual governo brasileiro.

“Com o discurso do governo brasileiro de facilitar a mineração e os PLs 191 e o 490 ameaçam os direitos dos povos garantidos pFela Constituição”

Terra Indígena Karipuna. Foto: Rogério Assis/Greenpeace
Terra Indígena Karipuna. Foto: Rogério Assis/Greenpeace

Confira a denúncia de Adriano Karipuna na íntegra:

Meu nome é Adriano Karipuna, liderança do povo indígena Karipuna, de Rondônia, Brasil.

É pela quarta (4ª) vez que venho ao Fórum Permanente da ONU para denunciar o Estado brasileiro por invadir nosso território indígena Karipuna. Desde 2017, a terra indígena Karipuna vive sob ataques de invasores que desmatam e tiram toda a riqueza de nossa terra e também, ameaçam nossa integridade física, cultural e territorial. Nós, do povo Karipuna, temos feito inúmeras denúncias no Brasil e na ONU, denunciando esse crime organizado.

Estamos sofrendo ameaças de morte do crime organizado. As invasões aumentaram com o discurso do governo brasileiro de facilitar a mineração e os projetos de lei [PLs] 191/2020 e o 490/2007, assim como outros projetos criminosos que ameaçam os direitos dos povos garantidos pela Constituição.

Temos medo de sermos assassinados a qualquer momento em nossa própria casa e deixar de existir como povo. Estamos pedindo socorro, nos ajudem!

Muito obrigado.

Por: Adi Spezia
Fonte: Cimi