Txai Suruí denuncia criação de gado em cemitério indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia

Na ultima quinta-feira, 25/11, em seu Instagram, a jovem indígena ativista Txai Suruí denunciou (em seu perfil no Instagram) a invasão de uma área que abrigava um antigo cemitério na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, para criação de gado.

No post, em que mostra imagens impactantes dessa área, Txai contou que o fogo tocado pelos invasores dias antes foi tão intenso, que foi possível ver de aldeias distantes:

“Em 6 de Setembro, o satélite da NASA apontou um incêndio gigante na região do Burareiro, dentro da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Apesar de distante das aldeias, o fogo foi tão grande que a fumaça chamou a atenção dos indígenas. Poucos dias depois, fui averiguar o local junto com a Equipe de Monitoramento da Associação Jupaú e o que encontramos foi um absurdo: invasores queimaram a floresta para colocar milhares de cabeça de gado em cima de um antigo cemitério indígena!”.

No dia seguinte, publicou mais imagens e escreveu: “Essa é a triste realidade da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, aqui em Rondônia: muitas invasões, ataques, madeireiros, garimpeiros e grileiros”.

Como se não bastasse a violência que representa uma invasão como essa – sucedida por queimadas e muita destruição -, os criminosos ainda desrespeitaram uma terra sagrada para os indígenas, como salientou Neidinha Suruí, mãe de Txai e presidente da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, ao G1.

“Estão desmatando, queimando e colocando gado dentro, o que para os indígenas é pisotear a vida dos ancestrais deles. É como se alguém fosse lá no Cemitério dos Inocentes (cemitério histórico da cidade de Porto Velho, no mesmo estado), tocasse fogo em tudo e colocasse boi em cima. Ninguém ia gostar”.

A Associação Kanindé denunciou o caso à Funai (Fundaçao Nacional do Índio), sem retorno.

Vale lembrar que a Txai foi a única representante do Brasil a discursar na Cúpula de Líderes na abertura da COP26, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, realizada em Glasglow recentemente. E que, nesse discurso, destacou o assassinato de um amigo de infância, Ari, da etnia Uru-Eu-Wau-Wau (contamos aqui, no Conexão Planeta).

“Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza”. 

Txai integra o grupo Guardiões da Floresta, do qual faziam parte Ari (acima, morto em abril de 2020) e Paulo Paulino Guajajara, assassinado em novembro de 2019 – leia aqui –, cuja morte ganhou grande repercussão mundial.

No ‘Roda Viva’ com seu pai, o cacique Almir Suruí
A participação de Txai Suruí na COP26 causou grande impacto no mundo e rendeu grande visibilidade para os povos indígenas, mas também perseguição e intimidação, como contamos aqui.

Logo que terminou o discurso, Txai Suruí foi assediada por um funcionário do Ministério do Meio Ambiente – “você não devia falar mal do Brasil”. Depois vieram as ofensas de Bolsonaro, em seu cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, e as agressões virtuais de bolsonaristas. Ela chegou a temer sua volta para o Brasil.

A jovem indígena conhece a dinâmica que perpetua e espalha o ódio e a impunidade, desde garota. É filha de dois importantes ativistas, muitas vezes ameaçados: o cacique Almir Suruí e a indigenista Neidinha, sobre a qual comentei acima (contamos sua história em entrevista publicada em outubro de 2019, aqui no Conexão Planeta).

Hoje, 29/11, Txai Suruí participará do programa Roda Viva, da TV Cultura, junto com o pai, a partir das 22h, com transmissão ao vivo pelo site da emissora, no canal do YouTube e pelas redes sociais: Twitter e Facebook.

Estudante de direito, ela trabalha na assessoria jurídica da Associação de Defesa Etnoambiental, organização que atua em defesa dos direitos dos indígenas. Também é fundadora e coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, que promove ações em defesa da demarcação de terras e da garantia de direitos aos povos originários. 

Almir é reconhecido no mundo por denunciar o desmatamento na Amazônia e buscar alternativas sustentáveis para a exploração e convivência com a floresta. Nascido em Rondônia, ele já coordenou o movimento indígena do estado e discursou na Assembleia Geral da ONU.

Vale destacar que, este ano, Almir e Sonia Guajajara, coordenadora da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil foram perseguidos pela Funai e denunciados à Polícia Federal. Os dois casos foram arquivados pela PF, como contamos aqui sobre Almir e aqui, sobre Sonia.

Eis os entrevistadores que farão parte da bancada do Roda Viva: Alice Pataxó, comunicadora e ativista indígena; Natalie Unterstell, presidente da Talanoa, colunista da Reset e articulista da Americas Quarterly; Iury Lima, correspondente da revista Cenarium e repórter da TV Cultura; Daniela Chiaretti, repórter especial do Valor Econômico; Luana Genot, empresária e CEO do Instituto ID_BR.

Ema Watson apresenta Txai, em seu Instagram

Txai Suruí conheceu a atriz e ativista Emma Watson – a eterna Herminone de Harry Potter – durante a COP26, em Glasgow. As duas participaram de um debate promovido pelo jornal New York Times. Foi o que bastou para que se manifestasse uma admiração recíproca.

Há três dias, Watson publicou post (veja abaixo) no qual apresenta Txai para seus seguidores, com uma linda imagem da indígena do povo Suruí e uma frase que diz: ‘A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo”. E escreveu: “Ativista Indígena do povo Paiter Suruí . Indigenous Activist of the Paiter Suruí people.

Txai retribuiu a gentileza ‘repostando’ a mensagem em seu perfil.

Por: Mônica Nunes
Fonte: Conexão Planeta

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