Um ano de pandemia: teve até troca de corpos no Amapá

Um ano de pandemia: teve até troca de corpos no Amapá
Erro na liberação de vítimas da Covid-19 revelou os terríveis bastidores do necrotério do hospital universitário. Imagem da vacinação de idosos (Foto da Prefeitura de Macapá)

No Amapá, a troca por duas funerárias dos corpos de duas vítimas da Covid-19 revelou cenas que dificilmente sairão da memória das famílias. “Uma sala onde simplesmente eles jogam os corpos, porque nem necrotério tem, todos jogados juntamente do lixo hospitalar, sem preparo nenhum. O paciente morre, eles levam para essa sala. Do jeito que está, eles só fazem pegar o corpo e colocar dentro do caixão”, descreveu Joseferson Pereira, sobrinho do  assessor parlamentar Sivaldo Farias, 49 anos, falecido no dia 16 de março. “E assim foi feito tanto com meu tio quanto com o Paulo. Sabe-se Deus com quantos mais eles fizeram isso.”

Paulo Queiroga é o empresário José Paulo Batista de Souza, de 63 anos, que morreu de Covid-19 no mesmo dia em que Sivaldo. Ambos estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Centro Covid do Hospital Universitário (HU), unidade de referência no estado amapaense.

Na tarde de 16 de março, Rubia Morais chegava em casa, quando recebeu a ligação que parentes jamais gostariam de receber. Um funcionário do HU apenas pediu que ela comparecesse ao local para falar sobre Sivaldo, seu marido. Acompanhada de Joseferson e da cunhada Sandra, irmã de Sivaldo, ouviram de uma médica que o assessor parlamentar não havia resistido e teriam de providenciar o enterro. Receberam ainda um prazo, de três horas, e um cartão de uma funerária, na saída do HU.

“Após a confirmação do óbito, fui até a funerária e conversei com o funcionário que me disse que só conseguiria entrar no HU para pegar o corpo com a Declaração de Óbito. Como solicitado, entreguei para buscarem o corpo enquanto íamos para a casa esperar o horário do cortejo”, lembrou Joseferson Pereira, sobrinho de Sivaldo Farias, em entrevista à Amazônia Real.

Como não haveria velório, a família combinou um ponto de encontro para iniciar o cortejo até o cemitério São José, em Macapá. Ao chegarem, perceberam algo diferente. “Quando abriram o carro funerário para gente tirar o caixão, estranhamos o peso, porque estava pesado além da conta, Sivaldo não pesava tudo aquilo. Mas tudo bem, a gente pensou que poderia estar inchado devido à medicação. Também não podia abrir o caixão e não tinha janelinha de vidro para ver o corpo”, disse Joseferson.

Depois do sepultamento, ao cuidar dos trâmites burocráticos, o sobrinho foi informado de que haviam enterrado “o corpo errado”. Mensagens começaram a chegar no celular. A história estava viralizando nas redes sociais. A família do empresário estava na frente do hospital com a imprensa, querendo o corpo de Paulo Queiroga.

A funerária já havia ligado para pedir que os funcionários do cemitério exumassem o corpo de Paulo e devolvessem-no para o HU. A família  de Sivaldo acompanhou todo o processo até a volta do corpo do empresário ao HU. Eles questionaram de quem foi o erro? De acordo com Joseferson, o funcionário da funerária disse que o erro foi do hospital. “A funerária chegou com a Declaração de Óbito e disse que foi buscar o corpo do Sivaldo e o funcionário do HU só fez apontar: ‘É esse aí, pode levar’.”

O funcionário da primeira funerária não conhecia Sivaldo e levou o corpo. “E alegou que não tinha identificação nenhuma, não tinha pulseira, não tinha sequer um papel em cima com o nome. Tinham mais de dois cadáveres, todos sem identificação”, acrescentou o sobrinho.

O erro só foi detectado porque o responsável pela segunda funerária conhecia o empresário Paulo Queiroga. “Teve um funcionário que chegou ao cúmulo de dizer: ‘Leva esse aí, ninguém vai ver o corpo mesmo’, se referindo ao outro rapaz que havia falecido”, afirmou Conceição Queiroga, irmã de Paulo, para o Diário do Amapá.

Um dia depois do fato, que ganhou repercussão na imprensa, a secretaria de estado de Saúde do Amapá divulgou nota, afirmando que instaurou processo administrativo junto à Polícia Civil para apurar e responsabilizar os agentes responsáveis. E dizia que a secretaria estava prestando solidariedade às famílias.

“Nem a nossa família nem a do Paulo recebeu uma ligação deles em momento algum. Ambas as famílias registraram BO (Boletim de Ocorrência), vamos entrar com uma ação civil. Em uma audiência que teve previamente na delegacia, o delegado intimou o HU e as duas famílias, porém, nesta audiência não foi nenhum responsável do HU, somente as famílias. A gente não está tendo apoio nenhum do poder público e de ninguém, a não ser nós mesmos que estamos passando por tudo isso”, lamentou Joseferson.

Sivaldo Farias ficou 23 dias no HU, sendo 17 dias entubado. Deixou sua esposa Rúbia, de 42 anos, e duas filhas, Antonela, 7, e Emanuela, 10. Em mensagem no Facebook, a vereadora Janete Capiberibe lembrou do trabalho comunitário do assessor parlamentar, uma das lideranças do Partido Socialista Brasileiro no Amapá, junto a regiões periféricas do estado. “Jaz um grande homem.”

Ainda no período de internação de Sivaldo, a mãe dele estava numa enfermaria de Covid e o irmão seguia entubado também em uma UTI do HU. Ao finalizar esta reportagem, a equipe recebeu a informação da morte do irmão de Sivaldo, o advogado Edicarlos Farias. Ele deixa esposa e um filho de três meses.

O primeiro caso de Covid-19 confirmado no estado foi no dia 20 de março de 2020, uma mulher de 36 anos. A primeira morte aconteceu no dia 4 de abril, um homem de 60 anos que possuía comorbidade.

Com a confirmação de novas variantes em 2021, após ficar em lockdown desde o dia 18 de março a 11 de abril, o Amapá registrou, até 12 do referido mês, 1.402 óbitos, 101.647 casos confirmados, 74.289 recuperados e 6,77% da população vacinada com a primeira dose e 2,46% com a segunda.

O boletim oficial do governo estadual de 12 de abril apresentou um percentual de 65.34% de ocupação de leitos para atendimento de Covid-19. O percentual é diferente do relatório da fila de espera por leitos Covid divulgado na mesma data pelo Ministério Público do Amapá, que alertou para a superlotação das unidades de saúde. São 25 pacientes na fila de UTI e 6 para a enfermaria.

Surto de sarampo

Novos leitos de Covid do Hospital Universitário (Foto: GEA)

Durante a pandemia do novo coronavírus, os amapaenses também voltaram a enfrentar um surto de sarampo, ressurgindo após 20 anos. Cerca de 300 pessoas foram infectadas no estado, sendo Santana, Macapá e Mazagão os municípios mais afetados. 

De acordo com o superintendente da Vigilância Sanitária do Amapá, Dorinaldo Malafaia, a maior incidência foi em crianças na faixa etária de 0 a 4 anos de idade, o que motivou em janeiro deste ano a realização de uma varredura vacinal com o apoio do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Outros 20 estados enfrentam o mesmo problema.

No início de março, o boletim da SVS/AP confirmou o percentual de 64,2% dos casos suspeitos, e nova varredura será realizada em abril, nos municípios que não foram contemplados. “Hoje, fazendo uma comparação da letalidade nesse público-alvo entre o coronavírus e o sarampo, sabemos que o sarampo atinge mais a faixa etária infantil”, avaliou Malafaia.

Na linha de frente

UBS Marabaixo Macapá (Foto: Prefeitura de Macapá)

O biomédico-microbiologista Francis Christian da Silva Pereira, que atua no Hemocentro do Amapá – Hemoap e no Laboratório MrScienceLab – Unidade Centro Covid – HU, foi um dos profissionais acometidos pela Covid-19 e trabalha na linha de frente do laboratório.

Dezenas de profissionais de saúde já foram diagnosticados com a doença. Francis contou à Amazônia Real que perdeu vários colegas para a doença e que o Amapá passa por uma nova onda que se iniciou em fevereiro, com o surgimento da variante brasileira P1. Isso tem levado a uma sobrecarga dos profissionais de saúde.

“Não tem sido fácil, mas não podemos desistir neste momento crítico. Aqui no Amapá todos os esforços têm sido feitos no sentido de se atender a demanda. O país como um todo passa por dificuldades no fornecimento de insumos para atender a demanda crescente, mas aqui ninguém que procura o sistema fica sem assistência”, explicou.

Por: Bianca Andrade
Fonte: Amazônia Real