Um bosque para Heber Queiroz, o plantador de florestas do Xingu

Plantio em homenagem ao coordenador do ISA, vítima da Covid-19, reuniu amigos, parceiros e familiares em Nova Xavantina, em Mato Grosso

“Eu vou plantar papai”, disse Lívia, (quase) 3. Era dia de plantar papai, para ela e o irmão Breno. Plantar marido, para Bruna Dayanna. Genro, para dona Nini. Filho, para dona Cleusimar.

Plantar o amigo e colega para tantos ali, coletores de sementes e plantadores de florestas do Instituto Socioambiental (ISA) e da Rede de Sementes do Xingu. Um dia para celebrar a vida de Heber Queiroz, a semente que virou 18 milhões de árvores, coordenador da Adequação do Programa Xingu, que faleceu em decorrência da Covid-19 em maio de 2021.

Na manhã do sábado, 11 de dezembro, dia do plantio, Lívia ficou tímida e até um pouco nervosa com tanta gente chegando na sua casa. Mas foi só mexer nas sementes que ela esqueceu de tudo e abriu um grande sorriso, assim como seu irmão Breno, 6, e as outras crianças que misturaram as 87 espécies de sementes que foram plantadas no terreno de 1.366 m².

Rodrigo, Lívia, Bruna, Breno e amigos misturam a muvuca de sementes | J.C. Abreu

Foi tudo uma ideia de dona Nini, sogra do Heber, que tinha ele como um filho. “A gente já tinha plantado um pé de ipê branco no dia dos pais. O Breno e a Lívia [filhos do Heber] que plantaram. Eu achei pouco. Porque eu não amava ele pouco não”, contou ela. “Daí eu falei pra Bruna que queria fazer uma coisa maior para lembrar dele. Queria fazer uma florestinha”.

E assim começou a nascer o bosque Heber Queiroz Alves, no terreno de dona Nini, em Nova Xavantina (MT). Bruna Dayanna, esposa de Heber e filha de dona Nini, envolveu os parceiros do componente de Adequação do Programa Xingu do ISA, responsável por restaurar matas e plantar florestas em áreas desmatadas nas bacias do Xingu e Araguaia, no Mato Grosso.

Era essa a especialidade do Heber. “E aí foi essa coisa linda. Fiquei muito feliz com cada pessoa que veio. Eu vou cuidar tanto, tanto desse bosque”, conta Nini.

Dona Nini ajuda a espalhar as sementes do bosque | J.C. Abreu

Para Bruna, o sentimento foi de alegria, apesar de toda a tristeza desse ano. “É uma sensação de muita alegria mesmo. É um sentimento muito bom. Reunir amigos, família para fazer o que ele mais amava é muito especial para mim. Não é doloroso, não é triste. Mesmo o choro quando ele vem é de gratidão por ter encontrado esse ser humano”, disse ela.

O povo Ikpeng, que vive no Território Indígena do Xingu (TIX) e parceiro da Rede de Sementes, considera-se descendente de árvores, como explicou Oreme Ikpeng, técnico em restauração e facilitador indígena da Rede, e que também participou do plantio.

“Surgimos das árvores. Então eu vim aqui para reafirmar a existência dele, falar que ele está aqui entre a gente. Plantar árvores em homenagem ao Heber é uma forma de dizer que nós respeitamos ele, que ele é uma pessoa importante para nós, e ressurgindo ele em forma de árvore”, explica. Por isso as aldeias Ikpeng, assim como a casa de dona Nini, são cheias de árvores. “Significa que a vida continua”, diz ele.

Além do bosque de dona Nini, também foi plantado o bosque Heber Queiroz Alves na chácara de Mariozan, tio da Bruna e irmão da dona Nini. Da mesma forma, Mariozan cedeu a área com muito carinho para homenagear o Héber. No domingo, 12 de dezembro, foram plantadas 767 mil sementes de 87 espécies em 5.000 metros quadrados na chácara.

Muvuca de sementes na chácara do Mariozan | J.C. Abreu

Fonte: ISA