Uma forma inédita de medir o impacto humano nas águas da Amazônia

  • Baseado em dados científicos sobre estado geral de saúde dos ecossistemas aquáticos amazônicos no Brasil, o inédito Índice de Impacto nas Águas da Amazônia sintetiza dados de monitoramento e pesquisa para apontar as áreas mais vulneráveis da floresta.
  • De acordo com o índice, 20% das 11.216 microbacias da Amazônia no Brasil têm impacto considerado alto, muito alto ou extremo; metade destas microbacias estão afetadas por hidrelétricas.
  • O mesmo índice aponta que 323 das 385 Terras Indígenas na Amazônia Legal têm índice de impacto de médio para baixo, o que demonstra o papel fundamental dessas áreas na proteção dos ecossistemas aquáticos da Amazônia.
  • A Bacia Hidrográfica Amazônica cobre 7 milhões de quilômetros quadrados e contém 20% de toda a água doce da superfície da Terra. Ainda assim, pouco se sabe sobre os impactos do aumento da atividade humana predatória nos ecossistemas aquáticos.

A Amazônia perdeu 12% da sua superfície de água – um total de 1.104.575 ha, equivalente à metade do território de Sergipe – nos últimos 30 anos, anunciou em setembro do ano passado um levantamento da rede colaborativa MabBiomas. Segundo a iniciativa, “a dinâmica de uso da terra baseada na conversão da floresta para pecuária e agricultura e a construção de represas contribuem para a diminuição do fluxo hídrico”.

Um dos principais resultados do Índice de Impacto nas Águas da Amazônia (IIAA), desenvolvido pela Ambiental Media com apoio do Instituto Serrapilheira, aponta na mesma direção: um quinto das microbacias hidrográficas da Amazônia brasileira estão significativamente impactadas.

Esses números negativos impressionantes expõem a real extensão da degradação dos ecossistemas aquáticos da Amazônia e indicam que a crise hídrica brasileira é ainda mais grave do que aparenta. “É preciso uma revisão urgente das políticas de conservação do meio ambiente voltada às águas”, afirma a bióloga Cecília Gontijo Leal, consultora científica do projeto Aquazônia.

O IIAA, criado para contribuir com esse debate, não pretende ser uma ferramenta de precisão acadêmica, mas um produto de jornalismo científico com base em dados disponíveis. Seu objetivo é expor as regiões e bacias mais impactadas com clareza gráfica, ao lado de opiniões qualificadas. E, com isso, tornar-se uma plataforma de referência para o entendimento dos principais impactos da atividade humana nos ecossistemas aquáticos da Bacia Hidrográfica Amazônica, que cobre uma área de 7 milhões de quilômetros quadrados ao longo de oito países e responde por aproximadamente 18% de toda a água doce que chega aos oceanos.

Mais do que ostentar números de proporções colossais, a água na Amazônia é o agente de conexão. Ela transborda do degelo dos Andes e escorre na forma de rios que, ao longo de seu curso, alimentam comunidades humanas e irrigam matas e planícies ricas em espécies de fauna e flora. A evapotranspiração da biomassa vegetal transfere água para a atmosfera em um ciclo anual de chuvas que retroalimentam os estoques do bioma e viajam continente afora – os chamados “rios voadores” irão irrigar lavouras e garantir o abastecimento de centros urbanos mais ao sul do Brasil.

Clima, economia, ciência, cultura, ecologia, energia, política, biodiversidade: isto é a floresta-água.

A intensidade das ameaças à bacia

O Índice de Impacto nas Águas da Amazônia, desenvolvido pela Ambiental Media com apoio do Instituto Serrapilheira, não pretende ser uma ferramenta de precisão acadêmica, mas um produto de jornalismo científico com base em dados disponíveis. Seu objetivo é expor as zonas de impacto com clareza gráfica, ao lado de opiniões qualificadas. E, com isso, tornar-se uma plataforma de referência para o entendimento dos principais impactos da atividade humana nos ecossistemas aquáticos da Bacia Amazônica.

No debate internacional sobre a conservação da região, predomina há décadas um padrão de levantamento e análise de dados sobre a degradação da cobertura vegetal: as queimadas, o desmatamento, os garimpos, o boi, a soja. A Amazônia como fonte de matérias-primas. Os ecossistemas aquáticos também sofrem com todas as mazelas da atividade humana – a perda da floresta afeta o ciclo hidrológico -, mas os danos são mais difíceis de serem identificados e entendidos.

Um corpo hídrico não sofre apenas com a poluição causada pelos resíduos urbanos, como normalmente pensamos. “Quando falamos de fogo, de degradação florestal, não se trata apenas do ar ou do solo: isso também significa problemas no ambiente aquático”, diz Cecília Gontijo Leal, bióloga da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, vinculada à Universidade de São Paulo (USP). “Ao medir o impacto de uma obra que afeta um rio, muitas vezes se lida apenas com os problemas da vegetação das margens.”

“Mesmo que a maioria dos impactos aferidos no índice esteja acontecendo na terra, o nosso olhar voltou-se para a localização, a intensidade e a escala da pressão que exercem sobre os corpos hídricos, em cada microbacia”, explica Cecília, consultora científica do projeto Aquazônia.

Durante o processo de desenvolvimento do índice, muitas vezes foi preciso flexibilizar as medidas dos impactos, seja pela ausência de dados seja pelo fato de que cada microbacia é um complexo ecológico individual, pleno de particularidades ambientais ou legais. Por exemplo: o impacto causado por barragens de hidrelétricas ou desmatamento é mais claro. O mesmo não se pode dizer das redes de milhares de pequenas estradas clandestinas – ao cruzar a floresta, elas cortam também a teia de cursos d’água espalhados pela paisagem.

“Na Amazônia, os impactos mudam de acordo com a característica de cada ecossistema”, diz Cecília. “O desmatamento afeta mais as várzeas e matas de igapó. Já um barramento de igarapé altera a dinâmica do ambiente, seu fluxo de matéria orgânica e a dispersão das espécies.”

Igualmente desafiador foi aferir o alvo, o alcance e a força de cada fator de pressão. Os impactos são piores para as populações locais ou para a fauna e flora? Difícil precisar – eles nem sequer são efetivos para todos os animais. Peixes migradores, por exemplo, sofrem com os barramentos de usinas hidrelétricas, mas outras espécies não sentem.

Por fim, se não é ainda possível especificar qual o pior impacto, é certo que eles são maiores nas regiões em que se sobrepõem.

“As áreas mais degradadas são aquelas em que as pressões se somam. Quando ampliamos um zoom nas microbacias, fica claro que o impacto na água é tão forte quanto na terra”, completa Laura Kurtzberg, professora na Universidade Internacional da Flórida e especialista em visualização de dados. “É um drama silencioso.” E, a tudo isso, soma-se o impacto menos tangível das mudanças climáticas. O resultado final do índice traz uma visão geral concreta das ameaças à bacia, mas limites devem ser compreendidos.

Lacunas de dados num mundo de águas

“Na Amazônia, quanto mais avançamos em direção à água, menos conhecimento existe”, avalia Angélica Resende, do Laboratório de Silvicultura Tropical da Universidade de São Paulo.

O desafio não se restringe às pesquisas ainda escassas, mas ao próprio monitoramento do meio.

A única forma de se trabalhar na Amazônia para monitorar grandes escalas é o sensoriamento remoto, mas “os desafios de trabalhar com água são diferentes dos desafios de trabalhar com floresta, desmatamento. É mais complexo”, conta Cláudio Barbosa, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do Laboratório de Instrumentação de Sistemas Aquáticos (LabISA).

A perda de área florestal chama a atenção da comunidade internacional desde a década de 1980 – o Inpe passou a medir o desmatamento com dados de satélite em 1988. Segundo Barbosa, a primeira geração de sensores no Brasil permitia apenas análise das margens e do solo, no desmatamento e na mineração.

Tecnologias que permitem aferir melhor os corpos aquáticos começaram a surgir em 2016. É pouco tempo para a obtenção de resultados, explica o pesquisador. Por outro lado, o Inpe já lida com algoritmos que permitem estimar a variação de sedimento da água. “Esse mapeamento, que chamamos de CADE”, diz Barbosa, “é a composição da luz na coluna d’água. Essa luz é a energia que alimenta o fitoplâncton e permite a diversidade de peixes.”

“Para analisar a qualidade da água, temos que trabalhar com a concentração de sedimento, de clorofila e de matéria orgânica dissolvida. Esses três parâmetros já são possíveis de mapear por satélite.”

A ausência de dados mais consolidados sobre a água compromete as percepções do meio, o foco científico, as políticas públicas, os projetos de conservação. Edgardo Latrubesse, especialista em geomorfologia fluvial e professor da Universidade Federal de Goiás, observa que políticas públicas no setor hídrico já existem. “Temos uma boa Lei de Recursos Hídricos e os comitês de bacias. O problema do Brasil é que nós temos boas leis, mas ninguém as segue.”

Por outro lado, diz Cecília Leal, as leis enxergam os ecossistemas aquáticos apenas como recurso – ou seja, úteis para uso pelo homem. Com isso, ficam de lado aspectos ecológicos mais amplos, como a biodiversidade. Na Agência Nacional de Águas, os rios são medidos e vistos pelo potencial utilitarista de depuração de poluição. “É um serviço importante, mas não podemos pensar os corpos hídricos apenas pela sua capacidade de diluir resíduos.”

Sem dados sobre a situação atual, não há como planejar o futuro de ecossistemas que estão em constante transformação, alerta Leandro Castello, da Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos. Com isso, no longo prazo, deixamos de ter referências. “O que hoje é ‘muito peixe’ para nós é nada comparado ao que era ‘muito peixe’ para os nossos avós”, diz o pesquisador.

“Os rios hoje estão completamente diferentes do que eram 40 anos atrás – mas ninguém sabe.”

Há método consagrado para pesquisar na floresta em terra firme. Ao descrever organismos terrestres, biólogos podem seguir por trilhas registrando sons – de aves e anfíbios, entre outros – e observando vestígios para assim identificar uma espécie. Já para os peixes de rios, “você tem que coletar, pois a água é geralmente turva ou preta. São raros os registros a partir de observação direta”, explica Jansen Zuanon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Além disso, diz Zuanon, os organismos terrestres têm uma distribuição mais homogênea no espaço: estão espalhados em uma superfície mais ou menos bidimensional. Já os peixes estão em cursos d’água que vão ramificando ao avançar para dentro da bacia. Na medida em que eles seguem até as cabeceiras, vão se formando nichos de habitats cada vez menores – igarapés, riachos. E a fauna passa a mudar longitudinalmente.

Zuanon participa, desde 2015, da elaboração do projeto Amazon Fish, uma grande base de dados sobre fauna aquática na Amazônia. Já foram catalogadas quase 2.700 espécies, distribuídas em camadas ambientais ligadas a fatores como clima, relevo, hidrografia e pluviosidade. Um dado já constatado é que o endemismo é maior na parte oeste da bacia, nos Andes peruanos. “A tendência de riqueza de espécies tende a cair em direção à foz”, diz ele. “É surpreendente, porque o rio aumenta perto da foz, na parte baixa, gerando a expectativa da acumulação de espécies.”

Uma hipótese para isso remete ao passado remoto. De 8 a 10 milhões de anos atrás, o Amazonas drenava para o Pacífico; depois, quando os Andes começaram a soerguer, o rio virou para o norte e começou a despejar no mar do Caribe. “Com a estabilização dos Andes, elevou-se aquela parte e o rio passou a drenar para o Atlântico”, comenta Zuanon. “Nesse processo, aparentemente não houve tempo para que todos os ambientes fossem colonizados na parte baixa do rio.”

Zuanon investiga também os efeitos graduais e sutis das mudanças climáticas nos ambientes aquáticos. Um estudo do Inpa na Amazônia Central analisou peixes de uma reserva perto de Manaus, onde registra-se aumento na pluviosidade nos últimos anos. Em uma área protegida de 10 mil hectares, os pesquisadores detectaram mudanças nas espécies de igarapés. Nesses ambientes sem impacto local como desmatamento e poluição, o aumento de chuvas vem afetando os bancos de folhas mortas e a quantidade de areia. “Alterar a estrutura desse substrato é alterar a composição da fauna de peixes”, diz Zuanon. “Não chega a ser uma uma extinção local, mas já percebemos alterações mesmo em um sistema preservado.”

“Eventos extremos, como secas e cheias, impactam na produção de pescado e na previsibilidade de navegação. Não se trata apenas da biodiversidade, mas da vida das pessoas”, explica o pesquisador.

“Os peixes regeneram florestas, ao dispersarem sementes. A água conecta tudo: são as veias do sistema, espalham nutrientes, propagam plantas e animais de uma região para a outra”, ressalta Rogério Fonseca, coordenador do Laboratório de Interações Fauna e Floresta da Universidade Federal do Amazonas.

Menos peixe na mesa: o fantasma da insegurança alimentar

A população amazônica no Brasil, de 30 milhões de pessoas, está entre as que mais consomem peixe no mundo. Enquanto a média global estimada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) é de 20,3 kg por ano, em algumas comunidades do Amazonas o número chega a 150 kg.

Apesar de a Amazônia ter muito peixe – e explora-se apenas cerca de 50% do potencial sustentável do sistema, segundo Leandro Castello –, impactos diversos, como poluição e sobrepesca, ameaçam a estabilidade extrativista. Moradores sofrem com a falta do recurso em certas épocas do ano; por isso, estima-se que mais da metade de todas as comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Amazonas e seus afluentes principais, como o Madeira e o Purus, estejam fazendo manejo comunitário para garantir comida na mesa.

Esse manejo utilitarista tem valor não só para a segurança alimentar e econômica, mas também para a conservação. “São comunidades humildes de 50 pessoas, que muitas vezes estão a 300 quilômetros da cidade mais próxima”, diz Castello. ”Mas elas sempre serão os pilares de qualquer iniciativa conservacionista.”

Um dos exemplos mais bem sucedidos vem da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Médio Solimões, Amazonas, e envolve uma espécie emblemática da floresta, o pirarucu.

A receita é simples: os pescadores contam quantos peixes eles têm no lago onde os peixes vivem e determinam uma cota de pesca. A quantidade aumenta quando os pescadores cumprem as regras de tamanho mínimo de defeso. Com a previsibilidade na oferta do pescado, um mercado se organiza e o morador lucra mais com a atividade. Segundo Castello, cerca de 450 comunidades já importaram o modelo.

Morador trabalha na pesca do pirarucu na reserva Mamirauá, no Amazonas. O manejo utilitarista é um modelo para a segurança alimentar e para a conservação. Foto: André Dib.

Água: fonte de energia de baixo impacto?

Um relatório da organização WWF publicado em setembro de 2021 apontou o Tapajós como um dos dez rios mais ameaçados do mundo. O motivo: uma série de projetos de represamento de suas águas – uma estratégia obsoleta para a obtenção de energia, segundo o estudo, diante da insistência de governos em não avançar em alternativas mais renováveis de menor impacto.

O Tapajós, assim como o Xingu, são considerados rios cratônicos, aqueles que não têm mobilidade lateral nem muitos sedimentos. Nesse tipo de rio, as comunidades são mais dependentes do pulso de enchente.

“O projeto do Tapajós é um absurdo”, diz Edgardo Latrubesse. “É um sistema de cascatas de grande porte, de hidrelétricas, uma continuação da outra, que vai regulando o rio e criando um lago artificial de 1 mil km de extensão. Tudo isso em uma área de grande diversidade e beleza cênica.”

“O patrimônio natural do sistema fluvial no Brasil está sendo negligenciado. O Tapajós é um símbolo, e tem que ser salvo.”

Durante muitos governos, prevaleceu a ideia de que nossos rios representavam a matriz energética ideal – a água é um bem renovável e há baixa emissão de carbono no processo. “Esse discurso estava de acordo com a comunidade internacional, mas simplificaram a complexidade do problema”, continua Latrubesse. “Um rio que tem mil espécies de peixe é um tesouro único. Uma hidrelétrica construída ali não tem nada a ver com o carbono na atmosfera e a discussão da mudança climática. É impacto imediato.”

A fonte hidráulica, no entanto, responde por 62,7% da matriz elétrica do Brasil. E segue sendo referendada pela maioria dos gestores públicos como um trunfo da nossa geografia para novos projetos de desenvolvimento. Fontes renováveis, como a solar, a eólica e a da biomassa, alcançam hoje a 22,7% do total da matriz.

“Planejar barragens em série sem considerar os efeitos cumulativos é receita para o desastre”, diz Cecília Leal. “Um planejamento que possibilite priorizar determinados lugares para geração e outros para conservação, com rios livres, já seria um caminho.”

O Plano Nacional de Energia 2050 (PNE 2050), do Ministério de Minas e Energia, elencou como prioridade a expansão da geração elétrica a partir das hidrelétricas. A meta é ampliar a capacidade instalada de 98 GW para 168 GW até o final de 2030, e o documento destaca o aproveitamento das bacias hidrográficas da região Norte.

Será o próximo capítulo de uma novela antiga, cujo desfecho na maioria das vezes foi trágico. A usina de Balbina, no Rio Uatumã, no Amazonas, construída nos anos 1980, é um entre tantos exemplos.

Em um estudo publicado em 2021, o pesquisador Thiago B. A. Couto, associado à National Geographic Society e ao Instituto de Meio Ambiente da Universidade Internacional da Flórida, demonstrou que as pequenas hidrelétricas da Amazônia são responsáveis pela perda de conectividade dos rios, impedindo que peixes migradores completem seus ciclos de vida.

“Comunidades indígenas e ribeirinhas dependem da pesca de espécies migratórias para seu sustento”, escreveu Couto. “Nove pequenas hidrelétricas no Rio Juruena, afluente do Tapajós, em Mato Grosso, já afetam diversos povos, como os Enawenê-Nawê.”

Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia. A bacia do Rio Madeira sente ainda o impacto de outras hidrelétricas, da urbanização e da mineração ilegal. Foto: André Dib.

Trata-se de um alerta importante, pois as pequenas usinas correspondem a 80% do total das 275 hidrelétricas instaladas na Amazônia. Seu licenciamento é menos burocrático e elas estão menos expostas às polêmicas habituais dos grandes empreendimentos.

Já Belo Monte, no Rio Xingu, tornou-se um ícone da última década. Na região da cidade paraense de Vitória do Xingu, próxima a Altamira, a usina, em poucos anos de operação, destaca-se mais pelo passivo ambiental e social do que pela energia gerada, ainda que já tenha adotado o modelo fio d’água (run-of-the-river). Nele, as turbinas ficam no fundo do rio, na horizontal, a área alagada é menor e o volume de água que entra na usina é praticamente o mesmo que sai. Do ponto de vista ambiental, é menos impactante.

“O problema é que esse modelo não guarda água o suficiente. Fica muito vulnerável às secas extremas, o que ocorreu em 2021”, argumenta Jansen Zuanon. “Então, vai voltar a ter pressão para obras de novos reservatórios de acumulação, ou reservatórios em sequência, como no Tapajós.”

Para piorar, modelos climáticos apontam uma mudança no regime de chuvas, com mais escassez na parte oriental da Amazônia, justamente onde está Belo Monte. Para manter o mínimo de funcionamento de turbinas, alerta o pesquisador, será preciso desviar mais água da Volta Grande, a região de alto valor cênico alagada pela barragem.

Um monitoramento realizado pelo Instituto Socioambiental em conjunto com o povo Juruna avaliou o ciclo hidrológico recente do Xingu e aferiu, entre outros pontos, uma alteração na frutificação das plantas dos igapós locais. Com isso, escassearam os frutos que caem na água e servem de comida para tartarugas e tambaquis que, por sua vez, são um alimento dos moradores.

“Para os indígenas, a questão é básica: se não tem mais comida para os peixes, não tem mais peixes que lhes servem de comida”, conta a bióloga Camila Cherem Ribas, da Coordenação de Biodiversidade e do Programa de Coleções Científicas Biológicas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

O Madeira é outro gigante ameaçado pelos barramentos para a produção de energia. As enormes usinas de Jirau e Santo Antônio já operam perto de Porto Velho, em Rondônia, desde a década passada, e duas novas hidrelétricas constam no Plano Nacional de Energia 2050, em acordos binacionais com a Bolívia.

No Índice de Vulnerabilidade Ambiental às Represas (DEVI, na sigla em inglês), desenvolvido por Edgardo Latrubesse e outros autores, o Madeira desponta como o rio mais vulnerável da Amazônia. Um estudo do geólogo publicado na revista Nature, em 2020, aponta que, no total, 16 projetos de hidrelétricas ameaçam o alto Madeira.

Ouro: o sonho amazônico virou pesadelo ambiental

A região do Madeira ao redor de Porto Velho já foi uma das maiores produtoras de ouro aluvial do mundo. Com as represas, a área de extração foi inundada, impossibilitando projetos de mineração licenciados.

Persistem, na região da cidade ou rio acima, centenas de dragas que vasculham o leito do rio sem autorização de lavra garimpeira ou licenciamento ambiental. É um modelo de mineração ilegal, em que as dragas sugam o material do fundo para filtrar e separar o ouro com uso de mercúrio, devolvendo depois a água contaminada ao rio.

Essa “Serra Pelada fluvial” se acentuou com a crise econômica de 2020, com a diminuição dos estoques de pescado e com a ausência de fiscalização. Nos arredores de Humaitá, muitos pescadores abandonaram a atividade e partiram para o garimpo, mais rentável e poluente.

O mercúrio usado para separar metais contamina as águas e destrói cadeias alimentares. “O mercúrio tende a acumular no corpo dos organismos e a crescer exponencialmente na cadeia. Os predadores acumulam mais. Então, são exportados problemas ao longo da bacia e se perdem diversidade e funções ecológicas em cada uma das comunidades locais”, diz Jansen Zuanon.

Edgardo Latrubesse está entre aqueles que defendem a presença de uma atividade regulada, dentro de certos patamares, leis, protocolos e cotas. O problema, diz ele, não é a mineração em si, mas as técnicas que os garimpeiros clandestinos usam para extrair o ouro e as invasões em unidades de conservação e terras indígenas.

“O sistema pode mudar para diminuir o impacto. Já existem técnicas de extração de ouro sem usar mercúrio”, diz Valdenira Santos, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) e professora da Universidade Federal do Amapá (Unifap).

Esse é um debate complexo e sensível — no caso do garimpo, a história mostra que a prática nunca corresponde às boas teorias. Em fevereiro deste ano, sob protesto imediato de cientistas e ambientalistas, o governo federal lançou um programa para formalizar e fortalecer a mineração artesanal na Amazônia.

“Apesar de haver possibilidade de mineração sem o uso do mercúrio, isso ainda é algo completamente distante da realidade amazônica”, destaca Cecília Leal. “Sem uma mudança grande na cultura do garimpo, a atividade tende a continuar gerando alto impacto ambiental e social.”

Zonas inundáveis: paisagens típicas da Amazônia

Os barramentos das grandes usinas tornam-se especialmente graves no Madeira por causa de um elemento vital para a saúde do bioma: os sedimentos. Quase 90% do sedimento do sistema amazônico vêm de afluentes andinos. “Nos rios Ucayali, Marañon e Madeira está a mais importante porção sedimentar de toda a Bacia Amazônica”, observa Latrubesse.

Material particulado de origem mineral diversa, como a erosão de rochas ou a decomposição de organismos vivos, os sedimentos funcionam como fertilizante natural e tem funções vitais em uma bacia hidrográfica, como o transporte de nutrientes e o controle das taxas de migração lateral. Na Amazônia, eles são responsáveis pela fertilidade de ecossistemas singulares que cobrem cerca de 14% da bacia: as planícies inundáveis.

Várzeas e igapós representam uma identidade profunda da vastidão tropical, ao resguardar modos de vida e hábitats que, há milênios, são reféns do pulso de inundação local, o fenômeno da concentração de chuvas nas cabeceiras dos principais rios da bacia que determina o nível das cheias e secas anuais.

“Com a riqueza de nutrientes nos solos, esses sempre foram os ambientes mais ocupados pelas populações humanas na Amazônia, já em períodos pré-colombianos”, diz Jochen Schongart, pesquisador associado da Coordenação de Pesquisas em Dinâmica Ambiental (Codam) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Até hoje, tais áreas férteis concentram as mais numerosas comunidades nos interiores rurais da região.

As regiões alagáveis são particularmente vulneráveis ao desmatamento ou à pesca excessiva, assim como às mudanças climáticas e aos fenômenos El Niño e La Niña, que intensificam o nível das chuvas e das estiagens. Os dados do MapBiomas divulgados em setembro de 2021 apontam uma tendência de seca maior nas áreas de várzea.

Ribeirinho avança em planície inundada no Rio Croa, no Acre. Com o solo rico em nutrientes, várzeas e igapós sempre foram os ambientes mais habitados na Amazônia. Foto: André Dib.

“Quando não temos a floresta que faz o controle, as secas e cheias são maiores. Se o igarapé fica assoreado, ele transborda ainda mais”, diz Raimunda Lucineide Gonçalves Pinheiro, professora no Instituto de Ciências da Educação, da Universidade Federal do Oeste do Pará.

“A várzea é farta”, conta a pesquisadora. “Tem muito peixe e é fértil para plantio: banana, melancia, melão, verduras. Na cheia, os lagos onde acontecem as pescarias se misturam com o rio, que invade a floresta. Os peixes vão para a mata fazer a desova e se alimentar das frutas que caem das árvores.”

A quantidade de sedimentos depositada na foz do Amazonas é de estimadas 1,2 bilhão de toneladas/ano. Parte do material lançado pelo rio alimenta a costa até a altura da Venezuela, formando o maior cinturão de cabos lamosos do mundo. E parte disso fica retido na plataforma no Amapá.

“Se a quantidade de sedimentos diminui, há um déficit de material na plataforma e ao longo da costa dos países vizinhos”, diz Valdenira Santos. A falta de material combinada com a hidrodinâmica forte na região oceânica acelera processos de erosão na região da foz do maior rio do planeta.

A biodiversidade tenta se adaptar a essas mudanças na morfologia, na rede de drenagem e na hidrologia. “Mas já estão sendo registradas na foz espécies invasoras, como o camarão da Malásia, que vieram da água de lastro dos navios. Isso pode gerar impacto na redistribuição das espécies”, completa a pesquisadora.

A maior preocupação dos especialistas é com a retenção dos sedimentos nas grandes barragens, sobretudo na bacia do Madeira. “Se for bloqueado todo o fluxo de sedimentos dos Andes”, reclama Latrubesse, “o sistema amazônico pode morrer completamente.”

O futuro: um esforço coordenado pela bacia

No intrincado enredo da evolução nas regiões tropicais, “a América do Sul ficou com o elenco mais diversificado de espécies. A Bacia Amazônica propiciou condições ideais para a irradiação da vida em um quase inacreditável número de nichos”, escreveu o pesquisador Michael Goulding em seu livro História Natural dos Rios Amazônicos.

Avaliar degradações abrangentes em uma área de escala continental é um desafio para os cientistas. Não existe uma rede coordenada de dados de todo o sistema hidrológico amazônico, muito menos uma instituição ou órgão governamental trabalhando para conservar a bacia inteira. Mais: levantamentos de dados ou eventuais planos de conservação não envolvem apenas a Amazônia brasileira. Tudo o que os países vizinhos que integram a bacia – Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Peru e Suriname – fazem na cabeceira dos rios afluentes passa pelo Brasil, por onde escoa o grande destinatário de todas as águas, o Amazonas.

Na escala da bacia, observando-se as leis nacionais, restam as áreas protegidas como um instrumento de conservação. E as regras de licenciamento ambiental – importantes, observa Leandro Castello, mas todas sem o objetivo central de proteger os ecossistemas aquáticos. “É um grande quebra-cabeça”, diz o pesquisador.

A falta de um canal de diálogo entre cientistas e planejadores torna o cenário ainda mais complexo. Na visão de Valdenira Santos, o caminho está na combinação de três forças complementares: fiscalização e monitoramento; uso da bacia e do solo por empresas e população; e pesquisa. “Sem essa união de esforços e interesses não haverá mudança.”

“Precisamos de soluções, pois os problemas são claros”, diz Cecília Leal. Para a pesquisadora, é urgente focar em regiões naturais ainda intactas. “É muito mais fácil preservar do que restaurar. Impactos são difíceis de serem revertidos.”

Estudos recentes, conta Cecília, mostram que a conservação dos ambientes de água doce previne a perda de biodiversidade – inclusive a terrestre. “Já é tempo de olhar para os ecossistemas aquáticos não apenas como recursos hídricos, mas de forma mais generosa e integral.”

Esta reportagem foi originalmente publicada na Ambiental Media em 04/05/2022. 

Por: Ronaldo Ribeiro | Letícia Klein | Kevin Damasio | Laura Kurtzberg 
Fonte: Mong
abay