Único sobrevivente de raiva humana no Amazonas é transferido para enfermaria

Os pais de Mateus Santos da Silva não foram comunicados de que o leito de UTI, onde ele estava, foi destinado à paciente de Covid-19.

Único sobrevivente de raiva humana no Amazonas é transferido para enfermaria
Débora, mãe do menino, mostra foto dele no celular (Foto de João Paulo Machado/Amazônia Real/2019)

O adolescente Mateus Santos da Silva, de 17 anos, é o único caso de sobrevivência à raiva humana no Amazonas, e o segundo no Brasil. Hoje, vive em uma cama, respirando por aparelhos. Não anda, não fala e, segundo os médicos, tampouco enxerga ou ouve. Para cuidar do filho, a família precisou deixar a vida de ribeirinhos na Reserva Extrativista do Rio Unini, no município de Barcelos, e se mudou para a zona urbana de Manaus. Nada disso é o bastante para sensibilizar as autoridades do Amazonas. No último dia 5 de dezembro, a família foi surpreendida pela inexplicada transferência da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT/HVD) para o Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (Icam), por onde Mateus perambulou da UTI a uma enfermaria.

“Eu sei do estado clínico do meu filho e que ele vai ficar assim até ir a óbito, mas quero que tenha qualidade de vida enquanto estiver ao meu lado”, desabafou a mãe Débora Souza dos Santos. Mateus chegou ao Icam às 11 horas em uma ambulância. No primeiro momento, foi mantido na UTI, mas, depois, transferido para a enfermaria, onde ficam pacientes menos graves. “O médico só disse que ele não tinha necessidade de estar em um leito de UTI e o encaminhou para a enfermaria. Ele tem razão, meu filho não devia estar em um leito de UTI, mas em casa. Só que ele precisa de cuidados especiais e nem casa nós temos”, contou Débora à Amazônia Real.

Débora, servidora da Secretaria Municipal de Educação de Barcelos, só foi informada de que os leitos de UTI seriam destinados a pacientes com Covid-19. Mas, de acordo com a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), nenhum dos 12 leitos de UTI da FMT são para tratamento da doença. Na unidade, 13 dos 102 leitos clínicos foram reservados para pacientes com coronavírus. A FMT é o hospital referência no tratamento de doenças tropicais como dengue e malária e de portadores de HIV. 

Cerca de um ano após o início do tratamento, Mateus recebeu alta. Mas desde então permanece em um leito hospitalar, porque em casa precisaria contar com uma UTI adaptada. Na enfermaria do Icam, Débora ficou responsável pelos cuidados do filho, como lavagem de sondas de alimentação e aspiração do tubo da traqueostomia. “Eu nunca cuidei disso. Quando me perguntam, respondo que não sei. Fiz as trocas tremendo e com medo de errar, pois quem fazia isso no outro hospital era a equipe médica”, relatou.

A mãe diz ter ouvido dos médicos do Icam: “Tire o seu filho daqui se a senhora quiser ele por mais tempo. Na enfermaria, ele corre muito risco. Não sei por que o [hospital] Tropical mandou ele para cá”, revelou Débora. “Aí eu me desesperei, pois não tenho uma casa, vivo de aluguel. Se tirar ele daqui, vamos pra onde? Para beira da rua?”,questionou.

Na noite de 9 de dezembro, Mateus foi levado novamente para a UTI do Icam. Débora disse que isso só aconteceu por interferência de uma amiga da família que foi ao local e conversou com a direção do hospital. Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) justificou Mateus foi transferido para o “reordenamento dos leitos de retaguarda da rede estadual de Saúde, dentro do plano de contingência montado pela SES-AM para o período sazonal das Síndromes Respiratória Aguda Grave (Srag), que acontece entre novembro e junho, no Amazonas e que segue em andamento”.

Débora contou que chegou a testar positivo para Covid-19 e acredita que o marido, Levi Castro da Silva, também tenha tido a doença. “Ele passou uns 18 dias doente com falta de paladar, olfato e sentindo cansaço. Ficamos em casa uns dias, mas eu não apresentei sintomas”.

Hoje, o Amazonas tem 188.918 casos de Covid-19 e 504 pessoas estão internadas nos hospitais de Manaus em tratamento por causa do novo coronavírus. São 301 em leitos clínicos, sendo 73 na rede privada e 228 na rede pública. Outras 199 pessoas estão em UTIs, 66 na rede privada e 133 na rede pública. Há também quatro pacientes em sala vermelha, estrutura voltada à assistência temporária para estabilização de pacientes críticos ou graves, que depois serão encaminhados a outras unidades de saúde.

Por conta própria e sem ajuda do Estado

Débora e Levi Castro da Silva, em Manaus (Foto de João Paulo Machado/Amazônia Real/2019)

As vidas de Mateus e sua família começaram a mudar em novembro de 2017 quando ele e outros dois irmãos, um menino e uma menina, foram mordidos por um morcego infectado com o vírus da raiva. O caso aconteceu na comunidade Tapiira, na Reserva Extrativista do Rio Unini, em Barcelos. O irmão mais velho de Mateus, Lucas, de 17 anos, e a sua irmã caçula, Miriã, de 10, também contraíram a doença e morreram em 16 de novembro e 2 de dezembro de 2017. Mateus deu entrada na UTI da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado no dia da morte da irmã e de lá só saiu para o Icam.

A mãe de Mateus e o pai, o líder extrativista, Levi Castro da Silva, decidiram abandonar a comunidade extrativista que fica a cerca de dez horas de distância, de barco, da sede de Barcelos para acompanhar o filho. Em Manaus, pagam cerca de R$ 500 de aluguel. Eles não recebem auxílio do governo do Amazonas, do governo federal ou da prefeitura de Barcelos. Todas as despesas da família, e as adicionais de Mateus, são providas pelo salário de Débora e Levi.

“Eu quero tirar meu filho daqui. Uma pessoa já disponibilizou uma casa em Novo Airão. Ela precisa de alguns reparos, como pintura e adequação do tamanho de uma porta para passar a cama que o Mateus precisa usar. Estamos nos esforçando pra isso”, disse Débora.

A possibilidade de doação de uma casa em Manaus é ventilada desde 2018. Assim como o sistema de saúde parece não saber o que fazer com Mateus, a Justiça também. Em fevereiro de 2019, os pais de Mateus acionaram a Defensoria Pública da União no Amazonas (DPU-AM) com o objetivo de assegurar tratamento de saúde ao filho sobrevivente e a reparação pelo Estado pela morte dos outros dois.

Segundo a Defensoria no processo criado em 7 de fevereiro de 2019, os ataques de morcegos que deixaram Mateus acamado e levaram à morte seus dois irmãos, “decorreram, primordialmente, da inércia estatal em adotar políticas públicas visando à prevenção e ao tratamento da raiva humana”. No entanto, o processo foi transferido para a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) em fevereiro de 2020. A agência Amazônia Real solicitou informações sobre o andamento do processo e uma entrevista com o defensor responsável, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Sobre a doação de um imóvel, a Superintendência Estadual de Habitação do Amazonas disse que “está providenciando a entrega de um imóvel com as adequações necessárias para atender o adolescente Mateus e sua família, o mais breve possível. O setor de Serviço Social da Suhab já visitou o paciente e tem um relatório que vai subsidiar o atendimento final da família e entrará em contato para as devidas providências”. A assessoria de comunicação revelou que o imóvel deve ser entregue à família em janeiro.

Surto de raiva humana no Amazonas

Comunidade Tapiira, banhada pelo Rio Unini (Foto: Josângela Jesus/ Facebook da Resex Unini)

No ano de 2017, pelo menos 88 pessoas da Reserva Extrativista do Rio Unini foram mordidas por morcegos. Segundo relatou o então presidente da Associação dos Moradores do Rio Unini (Amoru), José Dionísio da Silva, na época com 75 anos, as mordidas de morcego eram comuns na região, mas nunca tinha visto um caso de raiva. O Ministério Público Federal abriu uma investigação.

A reserva foi criada em 2006 pelo governo federal e tem 2,27 milhões de hectares, dos quais, quase 850 mil hectares, no município de Barcelos. O local abriga famílias extrativistas em dez comunidades: Lago das Pedras, Terra Nova, Democracia, Patauá, Tapiira, Manapana, Lago das Pombas, Floresta II, Vista Alegre e Vila Nunes.

A raiva, ou hidrofobia, é uma doença transmitida ao homem por diversos animais, mas nas zonas urbanas são mais comuns em gatos e cachorros, e na floresta, em macacos e morcegos. A transmissão ocorre pelo contato do vírus do gênero Lyssavirus, da família Rhabdoviridae, presente em secreções do animal infectado, principalmente na saliva, como sangue humano. A doença causa encefalite acompanhada e se instala nos nervos periféricos do sistema nervoso central e causa náuseas, dor de cabeça intensa, vômitos e desconforto gastrointestinal.

Segundo informações do Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, foram notificados no Brasil, 39 casos de raiva humana, sendo que 20 casos foram por mordida de morcego; 13 casos por cães e gatos domésticos; e 6 por outros mamíferos silvestres.

Mateus dos Santos Silva (Foto Arquivo pessoal da família)

Por: Izabel Santos
Fonte: Amazônia Real

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