Vacina da Covid-19 chega para ribeirinhos da Terra do Meio (PA)

Cerca de 1,3 mil beiradeiros estão sendo imunizados em uma expedição de saúde dedicada a atender comunidades remotas e que deve percorrer 2,2 mil km de rios no Pará

A vacina contra a Covid-19 chegou para os ribeirinhos da Terra do Meio (Pará). Desde o fim de maio, 1.300 beiradeiros que vivem às margens dos rios Xingu e Iriri estão recebendo a imunização contra o novo vírus. As vacinas estão chegando de barco, numa expedição de saúde que partiu no dia 28/5 e já percorreu mais de 1.000 km. Além das vacinas, os profissionais de saúde da expedição estão realizando atendimentos e esclarecimentos para a população.

As embarcações já subiram o rio Xingu e vacinaram os adultos da Reserva Extrativista Rio Xingu e do Parque Nacional da Serra do Pardo. Depois, pegaram a curva no rio Iriri para levar a vacina para os beiradeiros das Reservas Extrativistas Rio Iriri, Resex Terra do Meio e Riozinho do Anfrísio, e das regiões das comunidades Maribel, Soledade e Cupi. Serão 2.200 km percorridos.

Barcos deixam a cidade de Altamira em direção aos territórios ribeirinhos|Jaime Souza

Até o dia 18/6, todos estarão imunizados com a primeira dose da vacina Astrazeneca/Oxford. A expedição é uma parceria das Associações de Moradores das Reservas Extrativistas Rio Xingu, Rio Iriri e Riozinho do Anfrísio, Prefeitura Municipal de Altamira, Secretaria Estadual de Saúde do Pará, Instituto Socioambiental (ISA) e Saúde em Harmonia.

É uma vitória para essas comunidades tradicionais, que foram elencadas como prioritárias da vacinação pelo Plano Nacional de Imunização (PNI). O município de Altamira demorou para acatar a orientação, e outros grupos estavam passando na frente. As comunidades se manifestaram, reivindicaram seu direito e demandaram a vacina.

O Ministério Público de Altamira foi acionado, e fez uma recomendação para que essas populações fossem priorizadas de acordo com o estabelecido no PNI. Com muita reunião e articulação junto ao Estado e município, os ribeirinhos conseguiram: 3.600 doses foram reservadas para eles (1.300 para os que vivem em Unidades de Conservação e estão sendo atendidos pela expedição e 2.300 para os que não vivem em UCs).

A vacinação é uma dose de esperança para essas comunidades. Quando a Covid-19 chegou, o alerta foi grande: os ribeirinhos vivem a muitos quilômetros da estrutura de saúde da cidade, com hospitais e leitos de UTI para casos mais graves da Covid-19. A comunidade mais remota do município de Altamira fica a cerca de 500 km do centro urbano e, em algumas épocas do ano, quando o rio Xingu está seco, o deslocamento de barco pode levar até uma semana. Em casos mais graves a remoção só pode ser feita por via aérea.

“Foi muito gratificante tomar a primeira dose. Em breve, tomaremos a segunda. Vamos continuar tendo todos os cuidados que a gente tinha antes. Usar máscara, álcool gel. Todo mundo se prevenindo. A gente tinha esperado tanto tempo que tinha até perdido a esperança”, afirmou Ana Célia, uma das moradoras da Resex Rio Xingu.

Ana Célia, da comunidade Baliza, é vacinada contra a Covid-19|Clarissa Martins Lima/HIH

O sentimento de gratidão e alegria foi muito grande, segundo Naldo, assessor técnico das associações de ribeirinhos . “Eles ficaram muito felizes e agradecidos porque não imaginavam que a vacina ia chegar até ali. Diziam que viam na TV as filas das pessoas tentando tomar vacina, as pessoas morrendo porque não queriam ser vacinadas”, diz. Algumas pessoas resistiram um pouco por causa das notícias falsas, as “fake news” que estão rodando sobre o tema. Mas as equipes de saúde combateram a informação falsa e a taxa de vacinação foi muito alta.

Uma nova expedição deve ser organizada nos próximos meses para completar a imunização.

Guardiões da Floresta

Os beiradeiros da Terra do Meio vivem há mais de 100 anos nessa região da floresta amazônica no Pará. São descendentes de povos indígenas e de migrantes que chegaram para extrair látex durante os ciclos da borracha nos séculos passados.

Parte de seus territórios estão delimitados como UCs – Reservas Extrativistas e Unidades de Proteção Integral. Ao lado dos povos indígenas da região, os beiradeiros manejam a floresta para a produção de borracha, castanha, babaçu e mais de 15 produtos que hoje são comercializados por uma Rede de Cantinas.

“A comunidade vive da floresta, tem uma relação de amor pela floresta, nasceram e se criaram ali, tirando seu sustento dela”, explica Naldo. “Eles têm um manejo muito eficiente da floresta, tanto é que estamos há mais de um século numa das áreas com mais mata conservada da região. São os verdadeiros guardiões”, afirma.

Essa riqueza está cada vez mais ameaçada por atividades ilegais que não se preocupam com o futuro da mata.

Negão, comunidade São Sebastião- Parque Nacional Serra do Pardo, é vacinado contra a Covid-19 na Terra do Meio (PA) pela técnica de enfermagem Dilcilene Curuaia – |Naldo Lima/Amoreri

O garimpo, a extração de madeira e a derrubada de floresta para criar gado ameaçam os territórios dos beiradeiros e são estimulados pelo governo federal . Mais de 120,2 mil ha foram desmatados nas Ucs da bacia do Xingu entre 2018 e 2020, segundo monitoramento da Rede Xingu+. No mesmo período, foram detectados mais de 366 km de estradas abertas ilegalmente na Resex Riozinho do Anfrísio e quase metade desses ramais (46%), foram abertos somente em 2020.

À medida que os madeireiros avançam sobre o território construindo ramais, eles represam igarapés e causam danos ambientais. Essa destruição tem relação direta com o que vivemos hoje, como explica Biviany Rojas, coordenadora do programa Xingu do ISA: “A saúde e a proteção dos territórios são direitos dos povos indígenas e das populações tradicionais, e a sua garantia extrapola o território das comunidades da Terra do Meio. A pandemia da Covid-19 e a emergência climática evidenciaram o que já sabíamos: não existe possibilidade de futuro sem a floresta e as populações que a manejam e protegem”.

Por: Clara Roman
Fonte: ISA