Vanda Ortega Witoto, 1ª vacinada no Amazonas, fala sobre ataques misóginos

Depois de ser imunizada com a Coronavac, líder indígena e técnica de enfermagem vira alvo de agressões, inclusive do jornalista Ronaldo Tiradentes

Vanda Ortega Witoto, 1ª vacinada no Amazonas, fala sobre ataques misóginos
(Foto de Diego Peres/Secom)

A líder indígena do povo Witoto, Vanda Ortega, que se tornou um símbolo da luta contra a Covid-19 salvando vidas em sua comunidade Parque das Tribos, em Manaus, contou em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real sobre o ataque misógino e racista que sofreu nas redes sociais por homens brancos e machistas.

No dia 18 de janeiro, Vanda foi a primeira profissional de saúde e mulher indígena do Amazonas a ser imunizada com a Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan. As imagens da auxiliar de enfermagem usando as vestimentas tradicionais (o vestido com desenhos gráficos de sua etnia, o cocar e o maracá nas mãos) circularam por todo o Brasil.

Naquele dia, Vanda quebrava mais uma barreira nesta pandemia. Desde que começou a crise sanitária em março de 2020 em Manaus, ela tem sido uma das protagonistas entre as mulheres indígenas que mais trabalhou no atendimentos dos indígenas doentes de diversas etnias. 

Mas as imagens de triunfo de Vanda Witoto, como é mais conhecida, desagradou um grupo de homens nas redes sociais. Em 20 de janeiro, dois dias após a festejada vacinação, a líder indígena sofreu agressões verbais e ataques de misoginia (ódio) e racismo nas redes sociais, um ataque de violência pela condição de gênero.  

Um dos agressores que não se refugiou no anonimato das redes sociais foi o jornalista Ronaldo Tiradentes. Proprietário de uma rede de comunicação de rádio, televisão e site de notícias do Amazonas, ele afirmou que Vanda Witoto não era indígena e pegou fotos dela com roupas comuns e ao lado do marido para bradar: “O índio fake não deve tomar a vacina, o índio aldeado é que deve tomar”.

Só depois de proferir as agressões verbais, e as postagens viralizaram, Tiradentes se deu conta de sua ignorância. “Eu cometi essa injustiça dizendo que ela não devia ter tomado a vacina, e essa menina, a Vanda Ortega, depois eu fui ver no Facebook  dela, ela postando fotos desde março ajudando, ela é enfermeira, e ela está trabalhando sim, pegando no pesado e enfrentando a doença. Então eu [devo] pedir desculpas à Vanda Ortega e me redimir desse pecado. Foi um ato equivocado de nossa parte”, disse Ronaldo Tiradentes em seus programas no rádio e na TV. Antes, no site, ele publicou a notícia oficial sobre a vacinação da indígena

A técnica de enfermagem é também servidora da saúde da Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta (FUAM) e aluna da graduação em Letras da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), disse que não foi procurada por Ronaldo Tiradentes ou tomou conhecimento de seu pedido de desculpas. Ela registrou um Boletim de Ocorrência contra ele e todos os outros homens que a agrediram e quer Justiça. “Mas pelo boletim online, a gente só consegue fazer a denúncia com mensagem de injúria e difamação. A gente não consegue colocar outros crimes. Eu sofri uma violência contra a mulher”, disse a enfermeira.  

Vanda Ortega Witoto é também uma defensora dos direitos das mulheres indígenas. Mas o ataque misógino e racista que ela sofreu nas redes sociais não foi tipificado como uma violência contra a mulher com base na Lei Maria da Penha. A Secretaria de Segurança do Amazonas (SSP) diz que o Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp) inclui como violência doméstica e familiar apenas os casos em que o autor tenha um relacionamento com a vítima. Leia aqui.

Na estatística, a SSP do Amazonas registrou 102.743 casos em que a mulher foi vítima de crimes em 2020: 281 casos por dias, entre eles, injúria, ameaça, constrangimento, vias de fatos, entre outros. Em Manaus foram 101,3 mil crimes. No contexto da violência doméstica foram 25.132 crimes (23,7 mil em Manaus) ou uma média de 68,8 por dia. 

último monitoramento da violência contra a mulher Um vírus e duas guerras apontou 16 casos de feminicídios no Amazonas no ano passado, sendo que 15 mulheres morreram no período da pandemia da Covid-19. O estudo foi produzido pelas mídias independentes Amazônia Real, AzMina, #Colabora, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Ponte e Portal Catarinas.  Em Tocantins, uma indígena Karajá foi vítima de espancamento até a morte pelo marido. Leia a seguir:

Tocantins registra brutal feminicídio de indígena Karajá

Por: Kátia Brasil
Fonte: Amazônia Real

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