Variante Delta chega e quase 40 mil pessoas não tomaram a 2ª dose em Manaus

Os primeiros seis casos da variante Delta foram registrados, mas o que preocupa os especialistas é o elevado número de pessoas que não apareceram para tomar a dose de reforço da vacina. A imagem acima mostra a vacinação contra a covid-19 no Centro de Convivência do Idoso da Cidade Nova, Padre Vignola em Manaus com a Coronavac

Os seis primeiros casos da variante Delta (VOC-B.1.617.2) foram registrados no Amazonas na última quarta-feira (18). O governo estadual notificou que quatro pessoas residem em Manaus (duas mulheres, de 40 e de 41 anos, e dois homens, de 16 e de 74 anos) e duas mulheres (35 e 59 anos) são moradoras de Maués (a 258 quilômetros da capital), município localizado na região do Baixo Rio Amazonas. A chegada da temida variante Delta volta a ligar o sinal de alerta no Amazonas. A capital amazonense já passou por duas longas e trágicas ondas da pandemia, expondo a deficiência de uma atenção hospitalar com poucos leitos de UTI, e ser o berço da variante Gamma (P1), que se alastrou para os outros Estados e atualmente é predominante no país.

No momento em que a variante identificada pela primeira vez na Índia surge em território amazonense, a prefeitura de Manaus registra que 37.382 pessoas não voltaram para tomar a segunda dose das vacinas, que é necessária para uma efetiva imunização.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), 19.330 não compareceram para receber a segunda dose da vacina AstraZeneca, 15.800 para a Coronavac e 2.252 para a Pfizer.

Vacinação contra à covid-19 na zona rural de Maués (Foto: Prefeitura de Maués)

“O que a gente precisa lembrar é o seguinte: de quem é a responsabilidade de fazer com que a população tenha uma adesão maior à campanha de vacinação? É do Estado brasileiro, não é da população. É por isso que nós temos o governo federal, os governos estaduais e as milhares de prefeituras que existem no Brasil, porque cada um precisa fazer a sua parte”, pontua o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia. 

Para Orellana, a pessoa que não completa o ciclo vacinal é a “parte mais fraca da história”. “Temos que lembrar que o Ministério da Saúde, em particular o Programa Nacional de Imunizações, se omitiu de iniciar as campanhas de sensibilização da população precocemente em 2020, para criar um ambiente favorável, um ambiente amigável pró-vacina”, lembra o pesquisador.

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia (Imagem: Reprodução Zoom)

Em todo o Amazonas, a Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) registrou 2.935.156 doses aplicadas até nesta quinta-feira (19/8), sendo 2.133.175 de primeira dose, 760.186 de segunda dose e 41.795 com dose única (Janssen). Em Manaus, foram aplicadas 1.752.787 doses, entre primeira e segunda doses e doses únicas.

Foram registrados 234 casos novos de covid-19 no Estado, atingindo 422.517 casos desde o início da pandemia. Destes, 47,71% ocorreram em Manaus, que nas últimas 24 horas registrou 152 casos novos. Até o momento, são 13.645 o total de mortes no Amazonas. Estes números divulgados pelas autoridades de saúde são subnotificados tendo em vista a baixa testagem da doença no país.

Tudo errado

Em vez de uma campanha nacional pró-vacinas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez exatamente o contrário. Seu governo agiu deliberadamente contra a vacina, divulgando desinformações (fake news) sobre a imunização contra a covid-19.

“O Ministério da Saúde se omitiu e o governo federal, na pessoa do presidente da República fez pior ainda. Ele dizia que as pessoas que tomassem a vacina da Pfizer poderiam virar jacaré. Ele dizia que as pessoas que tomassem a vacina da China poderiam ter problemas”, ressalta Orellana.

Em vez de proteger a população, Bolsonaro incentivou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, o ineficaz “tratamento precoce”, com medicamentos como cloroquina e ivermectina.

Orellana lembra ainda de outra “tese” esdrúxula de Bolsonaro e seus apoiadores. “Ele negou, inclusive várias vezes, a possibilidade de compra da vacina Coronavac, justamente porque ele acreditava, na realidade continua acreditando, na ‘tese’ da imunidade de rebanho pela via natural e achava que não precisava gastar dinheiro com a aquisição de vacinas”, recorda.

A postura de Bolsonaro tem sido a mesma desde o início da pandemia. Além de recomendar medicamentos sem eficácia comprovada, promove aglomerações e anda o tempo todo, junto a seus apoiadores, sem máscara. Na última quarta-feira (18), a história se repetiu na capital amazonense, quando o presidente esteve para inaugurar um condomínio de casas populares. Em abril deste ano, Bolsonaro já havia visitado Manaus e adotado as mesmas práticas disseminadoras do vírus.

O que o mundo está vendo em relação à variante Delta se opõe a todas as estratégias adotadas pelas autoridades brasileiras. Aqui, a pressão é para tirar máscaras e encerrar as medidas de restrição, que já eram bastante frouxas. Em Sydney, na Austrália, a presença da temida cepa fez com que o governo local prorrogasse um lockdown até 30 de outubro.

A variante Delta é considerada, pelos cientistas, como duas vezes mais contagiosa que o Sars-CoV-2 original, que gerou as primeiras duas ondas da pandemia. E agora ela volta em uma forma mais traiçoeira, pois pode se confundir com uma gripe ou resfriado. Entre os seus sintomas, estão nariz com coriza e dores de cabeça e de garganta.

Rede Genômica Fiocruz tem traçado o avanço acelerado da variante Delta no território brasileiro. Em junho, quando os primeiros casos foram detectados, ela representava 2,3% dos casos no país. No mês passado, em julho, já eram 21,7% entre os genomas sequenciados, reduzindo a prevalência de 64,1% da cepa Gamma (P1). No Rio de Janeiro, onde a Delta se alastra mais rapidamente, ela já é detectada em 60% das amostras coletadas no estado. A sobrecarga dos hospitais voltou a ser realidade no estado fluminense.

Negação

A postura de negação às medidas de isolamento, o não uso de máscaras e a crença na imunidade de rebanho natural amplamente difundida pelo presidente somada à ausência de campanha nacional de imunização ajudam a explicar o cenário daqueles que não completam o ciclo vacinal ou sequer comparecem para se imunizar com a primeira dose.

É o caso de uma profissional de relações públicas, de 45 anos, entrevistada pela reportagem da Amazônia Real. Pela faixa etária, já deveria ter sido imunizada em Manaus. Mas, para ela, as vacinas fazem parte de “um tratamento experimental” e afirma que não será “feita de cobaia”. 

“Eu não vou me imunizar neste primeiro momento. A meu ver, todas essas vacinas aí são totalmente experimentais. Pfizer, Janssen, Coronavac, Moderna, Sputnik, todas de A a Z. Por que são experimentais? A vacina de pólio levou mais de 40 anos para ser posta no mercado e até hoje ela continua sob pesquisa. Como é que tu quer que eu acredite na eficácia de um produto que ficou pronto em menos de um ano?”, questiona.

Nem mesmo o cenário catastrófico causado pelas primeira e segunda ondas em Manaus, foi o suficiente para demover a relações pública da ideia fixa de não se imunizar. E se a covid-19 chegar?  “Vou seguir o protocolo do Ministério da Saúde. Aqueles produtos que não se pode dizer o nome. É isso”, ironiza à reportagem.

‘Não adiantou com o Tarcísio Meira’

Tarcísio Meira em imagem de 2019 (Foto: TV Globo Divulgação)

Um mototaxista de 54 anos, que como a relações públicas declinou de informar seu nome completo, conta que desistiu de tomar a segunda dose da vacina para covid-19 após a morte do ator Tarcísio Meira, de 85 anos. “Mano, não adianta (tomar vacina) não. Aquele ator lá, o Tarcísio Meira, tomou e morreu. Adianta alguma coisa? Não adianta! Isso aí é só pra enganar a população”, diz. “O Bolsonaro é que está certo.”

A morte do ator global foi muito explorada por movimentos negacionistas para defender a recusa às vacinas contra a covid-19. De nada adiantou o próprio filho do ator, Tarcísio Filho, dizer que o pai já sofria com “comorbidades sérias”.

“Ele tinha problemas renais, tinha problemas pulmonares. Eu sempre estava chamando atenção dele para isso, porque, mesmo com a vacina, tinha que ter extremo cuidado. Ele sabia”, disse o ator ao Observatório da TV. A esposa do ator, a atriz Glória Menezes, chegou a ficar internada, mas já recebeu alta.

Mais riscos

O pesquisador Lucas Ferrante durante palestra em 2018 no Inpa (Foto:FER)

Doutorando do programa de biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Lucas Ferrante alertou para a necessidade do ciclo vacinal completo. “Estudo publicado no The New England Journal Of Medicine mostra que pessoas que tomaram apenas a primeira dose da vacina Pfizer, por exemplo, têm uma proteção de apenas 36%. Pessoas que tomaram apenas a primeira dose da AstraZeneca, apenas 30% de proteção contra a variante Delta. Com as segundas doses, isso sobe para 88% e 67%”, alerta o pesquisador, que não descarta que Manaus ainda possa sofrer uma terceira onda. 

“É extremamente importante isso (vacinação) para eliminar de fato a transmissão viral e para que as pessoas estejam protegidas. Nós temos quase 40 mil pessoas em Manaus que não regressaram para tomar a segunda dose. Essas pessoas vão estar suscetíveis à variante Delta e isso deve agravar a mortalidade em Manaus”, alerta.

Para Ferrante, vacinar entre 70% a 80% da população adulta seria a forma mais eficaz de evitar o problema. “Estamos muito longe de adquirir qualquer a imunidade de rebanho na população, e é sim possível uma terceira onda como nós já avisamos antes (…) a pandemia ainda não acabou”, destaca.

A questão, ainda sem resposta, é que nem mesmo uma imunidade de rebanho natural seja possível de ser alcançada, apontam estudos recentes relacionados à variante Delta. E, no Brasil em particular, os fatores corroboram para reduzir as chances disso acontecer. Pesam contra o fato de haver uma recusa pela 2ª dose das vacinas, de coincidir as várias reaberturas e flexibilizações com a chegada da temida cepa e estudos já indicarem que a imunidade contra o coronavírus cai com o tempo.

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real